CAPÍTULO 13 - Nicole

Demorei alguns minutos para processar a notícia. Talvez tenham sido horas. Não tenho certeza. Tio John havia morrido. Anna havia morrido. As únicas pessoas que se importavam comigo e com Sarah foram encontradas mortas.
Dr. Callaway permaneceria na escola para falar com Sarah, já que notaram, pelo meu estado, que eu não conseguiria dar a notícia à minha irmã mais nova, embora já fosse especialista em fazer isso. “Sarah, mamãe não resistiu.”, eu disse da primeira vez, mas a garota era muito nova para entender com essas palavras. “Mamãe morreu”. Ela sabia que o carro havia batido, e também sabia que as chances de sobrevivência eram mínimas, se contarmos com o estado em que encontramos o carro. Mas tudo acontecera tão repentinamente.
Era uma tarde ensolarada de verão, mas nuvens negras postavam-se no céu, um pouco mais adiante, e o vento as empurrava em direção a nossa cidade. Iria chover com certeza. E segundo alertavam as previsões, seria uma tempestade daquelas. Mas minha mãe, nossa mãe, ela nunca teve medo de nada. Sempre dizia que quando precisasse acontecer algo com ela, aconteceria. Uma ideia bastante pretenciosa, se quer saber. Nós pedimos para ela não ir. O mercado poderia esperar.
Ela foi. O sol ainda estava forte.
Mas começou a chover. E ela não voltou mais.
Na segunda vez, tive que dar a notícia de que meu pai se dirigia ao hospital e seu estado era grave. O médico anunciou para nós duas ao mesmo tempo. Fora bastante difícil, e quem nos amparou naquele momento foi a mesma pessoa sobre a qual acabáramos de receber a notícia da morte. Eu não sabia como ela reagiria. Eu mesma estava bastante mal.
Dr. Callaway explicou que logo emitiriam o atestado de óbito de ambos. A primeira pessoa a quem a herança de Tio John se dirigia era Anna, mas como ela também havia morrido e a herança nos citava, tudo iria para nós um dia. O quanto antes, ele disse, mas antes deveria terminar de emitir os papeis de minha emancipação que meu tio havia encaminhado. Desse jeito, nem eu, nem Sarah precisaríamos ir para algum lar de menores ou algo assim. E com essa herança, ainda por cima, possuíamos a capacidade de nos sustentar por bastante tempo.
Depois que terminei de ouvir tudo o que Callaway devia me dizer, segui para o meu quarto. Fiquei lá, deitada em minha cama enquanto encarava o teto por pelo menos uma hora. Quando vi que o final das aulas se aproximava, segui para o bosque, onde poderia finalmente ficar em paz por mais algumas horas. Mas ainda assim, sabia que Evan me encontraria de qualquer jeito. Seu instinto protetor falava mais alto do que a minha voz, que anunciava claramente que eu preferia permanecer sozinha ali. Não demorou muito para que eu o visse se aproximando de mim.
- Nick? – Não respondi. – Nick, eu estou vendo você. Pode, por favor, me responder?
- Oi.
- Olá. – Ele falou enquanto andava em minha direção. Usei minhas próprias mãos para passar sobre os olhos e tentar enxugar as lágrimas que caiam. Ele pareceu espantado ao me ver assim. Mas também não sabia de nada. – Ah, meu Deus, o que houve com você?
- Meu tio... Ele foi encontrado morto. Ele e a namorada, Anna. – Eu disse, tentando recuperar um pouco o fôlego.
- O quê? – Ele se surpreendeu.
- É...
- Achei que eles fossem demorar um pouco mais para encontra-los.
- Você acha que realmente foram eles?
- Tenho certeza de que sim.
Ótimo. Estavam tentando me afetar maltratando pessoas próximas a mim. Callaway não descrevera a situação dos corpos. Apenas citara que fora uma morte um tanto violenta. Eu refletia sobre o porquê de tantas pessoas serem más umas com as outras a ponto de matarem desse jeito e fazer com que passassem por poucas e boas. Tudo o que consegui sentir foi raiva. Evan continuou:
- Sabe o que isso significa, não?
É claro que eu sabia. Tinha certeza.
- Precisamos ter cuidado com Sarah. Ela é a única outra pessoa próxima a mim que eles podem tentar afetar.
- Exatamente.
- Evan, eu não ia suportar isso... Perder Sarah...
Só de imaginar isso, mais uma lágrima escorreu pela minha bochecha. Minha irmã era tudo para mim. Evan sentou-se ao meu lado e me abraçou. Seu abraço era reconfortante. Como se nada mais no mundo importasse, como se eu finalmente me encontrasse segura em algum lugar. Cheguei a esquecer por um momento do seu destino. Do nosso. Mas ali eu me sentia em casa. Me sentia bem, me sentia acolhida. O que fez com que eu chorasse ainda mais.
- Ei – Ele disse, segurando meus ombros e me virando para ele – olhe para mim. Nick.
Levantei os olhos, encarando o tom dourado dos seus. Ele enxugou uma lágrima que escorria pela minha bochecha com o polegar.
- Não chore. – Falou Evan. – Não gosto de te ver chorar.
- Desculpe. – Tentei enxugar as lágrimas.
- Venha aqui. – Ele me puxou novamente e me abraçou. Ficamos ali por um tempo, somente nós dois. Não era como se ele pudesse me matar a qualquer momento. Era como se precisasse de mim tanto quanto eu dele. Sentia que depois de ter provado desse abraço, não poderia me confortar em nenhum outro.
***
- Onde vocês estavam? Da próxima vez que quiserem me matar de ansiedade, pelo menos... Nick, o que aconteceu? – Sophie interrompeu o sermão logo que notou meus olhos inchados.
- Ela... Hollie e Lilith já começaram o serviço. – Falou Evan.
- O quê...?
- Mataram meu tio e a namorada dele.
Sophie ficou boquiaberta. Não havia recebido nenhuma visão sobre isso, o que provava que seu poder poderia não ser tão eficiente quanto pensávamos. Com Evan ao meu lado, contei novamente tudo o que Dr. Callaway havia me contado durante a manhã. Temia que Sarah estivesse mal, então logo depois seguiria até seu dormitório para conversar com ela.
- Ah, Deus... então foi por isso que sua irmã veio até aqui mais cedo.
- Sarah esteve aqui?
- Esteve. Ela disse que precisava falar com você, mas não achei que fosse algo tão grave assim. Achei que de repente estivesse chorando porque brigara com alguém...
- Ela não choraria por algo assim. E, bem, Sarah é mais sensível. Se eu já não me sinto muito bem, imagino o estado dela...
- Quer nossa companhia até lá? – Perguntou ela.
- Não, tudo bem. Mas podem esperar aqui, se preferirem. Vou dar um jeito de trazê-la pra cá.
- Certo. – Eles concordaram.
Levantei, penteei os cabelos e limpei os olhos. Olhei o relógio, que indicava 16h43, e aí do quarto, andando calmamente em direção ao dormitório de minha irmã.
- Sarah? – Falei, ao bater na porta. Ninguém respondeu, mas eu sabia que ela estava ali, então bati novamente.
- O que é? – Ouvi-a fungando.
- Sou eu.
- Eu sei. O que você quer? – A voz dela soava agressiva.
- Falar com você.
- Você não estava lá quando eu precisei.
- Eu também precisava de consolo. Precisava ficar um tempo sozinha...
- Não estava sozinha.
- Não.
- Me deixe em paz. Não preciso mais de você. – Ela disse.
- Sarah...
- Saia.
- Sarah, escute, venha comigo...
- SAIA DAQUI! – Gritou ela, lá de dentro. – POR QUE VOCÊ NÃO SOME?
Ouvi um baque na porta quando algum travesseiro ou bicho de pelúcia qualquer foi atirado em minha direção. Ela nunca havia reagido assim, e o fato de estar o fazendo só agora não a fazia parecer menos egoísta. É claro que era difícil, mas o problema dela era sempre agir como se estivesse pior que os outros. E estava fazendo isso novamente. Talvez realmente estivesse, mas eu estava mal também.
Voltei para o meu quarto com os olhos cheios de água mais uma vez. Sophie não se encontrava lá, mas Evan sim. Não pareceu surpreso quando me viu voltando sozinha de lá.
- Ela não quis vir?
- Não. – Respondi.
- Está brava?
- Ela? Muito.
- Poxa... – Evan suspirou.
- Pois é.
- Talvez ela só precise de um tempo, sabe? Para reorganizar a cabeça, colocar tudo em seu lugar.
- É.
- É tão difícil para ela quanto para você.
- Eu sei. – Falei enquanto andava até minha cama. Tirei os sapatos e me deitei ali mesmo, em cima dos cobertores. Não lembro de ter pegado no sono.
Já eram quase 22h quando acordei novamente. Sophie estava lendo na cama ao lado, com apenas a luminária que ficava em cima de sua mesa de cabeceira ligada. Não quis a interromper. Apenas virei para o lado e dormi de novo, dessa vez até a manhã seguinte. Sem sonhos, sem pesadelos.
***
Na manhã seguinte, Diretora Price bateu cedo na porta de nosso dormitório. Eu e Sophie estávamos nos arrumando para a escola, mas ela me entregara um bilhete indicando que estaria dispensada durante aquele dia. Eu havia deletado tudo da cabeça completamente. Todo o “depois” ou o “pós-morte”. É claro que eu precisaria sair para fazer o reconhecimento dos corpos. Pelo menos do corpo de Tio John. Já haviam agendado tudo com os parentes de Anna, mas apenas eles não bastariam, aparentemente. Sarah não iria comigo por ser nova demais para isso, ainda. E mesmo que não fosse, provavelmente não iria querer.
Não sabia se iria querer mais conversar comigo, depois de tudo isso. Talvez não sentisse mais a mesma necessidade de colo que antes, afinal ela crescera. Aprendera desde cedo que as pessoas vêm e vão, às vezes antes do tempo esperado. Entendera logo que o mundo é injusto e que as coisas nem sempre acontecem da maneira que esperamos.
Diretora Price comunicou que dentro de cerca de 15min um táxi estaria me esperando para levar até o centro da cidade e perguntou se não seria mais fácil se eu levasse Sophie ou Evan comigo, já que estávamos sempre juntos. De qualquer forma um dos dois iria. Não me deixariam sair sozinha de jeito nenhum, principalmente depois do ocorrido. Sophie, que estava junto comigo, se ofereceu para ir. A Diretora concordou, e Sophie logo comunicou Evan via celular. Sabia que ele iria querer ir junto também, e foi exatamente o que o olhar de Sophie indicou assim que Price deixou nosso quarto.
- Acho que só um de vocês pode ir. – Falei. Não pude evitar sorrir ao notar a cara de frustração de Sophie.
- Achei que gostaria da ideia.
- É claro que seria bom ter vocês dois, lá, mas não sei se permitirão. Essa é a questão.
- Bem, eu poderia falar com a Diretora Price e indicar o quanto você está abalada emocionalmente. Esses seus olhos inchados poderão confirmar isso.
Levei uma mão até meus olhos e corri para frente do espelho. Meu rosto realmente estava em um estado deplorável, por chorar ou dormir demais. Ou por ambos. Algo que nem mesmo maquiagem poderia resolver naquele momento.
- Eu disse. – Ela riu e me abraçou. – Vai ficar tudo bem, Nick. Daremos um jeito nisso.
- Obrigada. – Eu a abracei de volta. – Obrigada por ser essa amiga incrível.
- Pois é. Se eu fosse você também seria grata por isso. Quer dizer, ter a mim como melhor amiga e psicóloga nas horas vagas? – Sophie brincou, tentando descontrair um pouco. Funcionou.
- Já terminou de se arrumar? – Perguntei, pegando minha bolsa e a colocando no ombro.
- Claro. Vamos?
- Aham. – Concordei.
Descemos as escadas com calma, e como esperado, encontramos Evan no andar de baixo, esperando sem a mochila. Vestia uma camiseta preta de manga curta e calça jeans. Tão normal que parecia zombar de quem realmente era. Meu coração acelerou ao vê-lo ali.
- Bom dia – ele falou.
- Olá – disse eu.
- Falou com Price? – Sophie indagou.
- Ei, você já mandou mensagem para ele contando da sua ideia? – Questionei, surpresa com a o quanto minha amiga era habilidosa digitando no celular.
- É claro que sim. Acha mesmo que ele estaria aqui se não fosse junto?
- Ahm... Acho? Evan quebraria as regras se ela não deixasse.
- Veja, você realmente me conhece. – Ele falou sarcasticamente, sorrindo. Gostava quando ele sorria. Gostava dos buraquinhos que surgiam em suas bochechas quando o fazia e da forma como lembrar disso me fazia sorrir também.
- Então isso significa que você vai também?
- É. – Ele concordou e então apontou que deveríamos ir. O táxi já devia estar chegando, se é que já não se encontrava na entrada da escola. Apressamos o passo ao notar que ele já estava lá.
Para chegar até o portão de entrada, deveríamos passar pelo bosque. Pela pequena estrada de terra que havia entre ele e o prédio interditado. Não era uma caminhada exatamente curta, mas também não era muito extensa. Ouvíamos o som de pássaros cantando baixinho conforme nos aproximávamos de lá. Era algo tão simples, mas que ao mesmo tempo me passava certa sensação de tranquilidade. Como se nem tudo estivesse perdido. Como se ainda houvesse algum motivo para despertar na manhã seguinte e seguir cantando, assim como eles faziam dia após dia, noite após noite. Mais um dos motivos pelo qual eu gostava de passar o tempo no bosque.
O táxi estava parado exatamente na frente do portão. O motorista simplesmente perguntou qual de nós era Nicole, e se aquele era realmente o destino certo. Eu confirmei, e ele então seguiu o curso da rodovia.
Não demoramos para chegar ao destino final. Eu estava ansiosa e não via a hora de sair dali. Não gostava de ambientes assim. Não gostava de necrotérios, e os havia frequentado mais que gostaria na última década.
Um casal de senhores se encontrava na sala de espera da casa funerária. O homem possuía cabelos brancos e barba por fazer, provavelmente aparentando ser mais velho do que realmente era. A mulher tinha os cabelos pintados de preto e não aparentava ser muito mais nova que o homem ao seu lado. Ela era como uma versão mais velha de Anna, porém com rugas em volta dos olhos escuros. Sentada ao lado do marido, segurava um copo de café na mão direita e olhava para um ponto neutro na mesa de revistas a sua frente. Nenhum dos dois parecia consolável. Foi fácil notar que aqueles eram seus pais.
No outro lado da sala, Dr. Callaway aguardava, também com um copo de café a sua frente e uma revista sobre economia no colo. Parecia tão frívolo perante a situação.
- Ah, olá crianças! – Disse ele ao levantar os olhos e notar nossa presença no local. Acabou despertando também o interesse do casal a sua frente. Ficando de pé, apertou nossas mãos como quem acabara de fazer um negócio e nos apresentou para os outros dois. – May, Jack, esta é Nick, a sobrinha de John Reynolds. Ah, e estes são...
- Evan e Sophie. – Completei.
- Nick, estes dois são os pais de Anna. Também vieram fazer o reconhecimento do corpo.
- Olá, querida. – Disse May, após me abraçar. – Sinto muito pela sua perda.
- Eu também. Meus pêsames.
- Olhe, pode deixar o funeral por nossa conta. – Iniciou Jack. – Gostávamos muito de John, e ele merece algo adequado ao lado da pessoa que ele amava.
- Têm certeza? Faço questão de ajudar financeiramente, pelo menos...
- Não, não se estresse com isso, querida. – Interrompeu May. - Você já tem problemas demais para alguém com apenas 16 anos. Callaway explicou sua situação.
Ótimo. Mais gente para sentir pena, mesmo quando eles também passavam por algo difícil.
- Olha, eu realmente posso ajudar...
- Não, de jeito nenhum. Sem discussão sobre isso. – O homem impôs.
Dr. Callaway colocou uma das mãos sobre meu ombro, indicando que eu deveria concordar. Ele cuidaria de tudo até que a minha emancipação fosse finalizada, e caso precisasse de um advogado, ele sempre estaria ali. Era de confiança de meu tio. Praticamente um amigo.
Eu, Sophie e Evan nos sentamos nas poltronas vagas entre os dois, até que finalmente um homem com cerca de 50 anos nos chamou. Eu, May e Jack nos dirigimos então até uma salinha exilada no fim de um longo corredor. Os corpos estavam tapados por lençóis brancos, então não vimos logo de cara o que nos esperava. Tive medo.
- Devo dizer-lhes que fiquei um tanto espantado com a brutalidade com que os corpos foram encontrados. Sinto muito por isso. Tentamos reconstruir o rosto de ambos, mas pode ser uma imagem um tanto forte, então gostaria de pedir para que somente o Sr. Rogers entrasse primeiro. Acredito que só o reconhecimento dele baste para Anna, mas não posso dizer o mesmo sobre o corpo do Sr. Reynolds.
- Olhe, ele era namorado de minha filha, o conhecia bem...
- Sr. Rogers, sinto muito, mas aparentemente a mocinha terá que passar por isso.
- Mesmo sendo menor de idade?
- Infelizmente. – Ele disse. – Sinto por terem que passar por isso.
- Tudo bem. – Eu falei.
Não estava tudo bem, e tudo simplesmente ficou pior depois que avistei o corpo de Tio John estirado naquela maca. Ele não estava irreconhecível, mas seu estado era deplorável. Ele devia ter sofrido muito, de maneiras que eu preferia nem imaginar.
- É ele.
- É. É ela também. – Disse o Sr. Rogers, esfregando os olhos e recolocando o lençol sobre o corpo de sua filha. Eu o compreendia. Meus olhos também estavam novamente ardendo por causa das lágrimas que teimavam em brotar, mas não queria chorar de novo. Saímos da sala e logo depois, Evan, Sophie e eu voltamos para a escola. O velório seria dali dois dias.