CAPÍTULO 11 - Nicole

Sophie me puxava às pressas pelo corredor dos dormitórios femininos. Descemos a escada, e seguimos até a ala masculina, onde ficava o quarto de Evan. A porta do 016B encontrava-se aberta, e a garota entrou comigo sem nem pedir permissão ou informar que estávamos chegando.
Como eu poderia estar em perigo? E o que Hollie tinha a ver com isso?
Eu já não entendia mais nada. Não me parecia algo plausível, já que não via motivo para tanto escândalo. Conforme corríamos para lá eu lembrava do que havia acontecido antes de que eu desmaiasse. Lembrando do que havia acontecido com Sophie, comecei a imaginar se ela não estaria assim por causa das convulsões. E se de repente ela não tivesse batido a cabeça contra a parede quando caiu. Só sabia que não estava em seu estado normal.
Ryan nos deu oi assim que passamos pela porta, mas ele logo saiu, deixando-nos sozinhas com Evan, que parecia um pouco atordoado. Diferentemente de Sophie, não parecia tão abatido pelo sono nem nada do gênero, mas assim que nos viu, empalideceu mais ainda.
- Evan – disse Sophie. – Precisamos conversar.
- O que houve? – Ele parecia tenso.
- As suas suspeitas se confirmaram. – Ela afirmou enquanto Evan sentava-se na cama. Seus cotovelos apoiados nas pernas e o rosto entre as mãos.
- Sobre... aquilo? – Ele falou enquanto movia o olhar do rosto de Sophie para o meu e vice-versa. – Por favor, sentem-se. Podem usar a cama de Ryan.
- Sobre tudo. – Concluiu a garota. – Precisamos contar para ela. Precisamos contar agora.
- Tudo bem. – Ele disse, levantando-se para ir até a porta e a fechar. – Nick... Temos muito a conversar.
Eu e Sophie já estávamos sentadas na cama. Ela estava do meu lado. Não consegui dizer nada por algum tempo. Eu já estava atormentada, e agora, sentia que algo estava prestes a virar minha vida de cabeça para baixo. Definitivamente nada estava fazendo um sentido real. Quando Evan finalmente voltou a sentar-se, de frente para nós duas, tomei coragem para falar.
- O que está acontecendo? – Perguntei. – E, onde vocês estiveram ontem e hoje o dia todo? Estão com uma cara péssima.
- Nick... Há muita coisa que você não sabe. – Evan começou. – E é isso que vamos tentar lhe explicar.
- É, estava mesmo esperando por uma resposta. Evan, quem você mataria? Quais eram os motivos para me odiar, há um tempo atrás? Não pensem que não sei das conversas de vocês e que ficam de segredinho o tempo todo. E, sobre ontem... O que foi aquilo? Eu não sei mais como nem o que pensar sobre tudo que vêm acontecendo e...
- Nicole – ele interrompeu. – Por favor, escute, antes de qualquer coisa. Tente não nos interromper. Por favor, acredite na gente.
- O quê...?
- Ênfase na parte do “tente não nos interromper”. – Sophie tentou sorrir, mas o que saiu parecia mais com uma careta.
- Desculpe. – Falei.
- Nick... Há algum tempo atrás, lhe perguntei sobre segredos. Disse que todos nós temos, pelo menos um, e é verdade. Mas não revelei qual era o meu. – Começou Sophie. – Lembra da história que lhe contei, não é? Sobre a garota e sobre o anjo, no bosque?
- Lembro.
- A garota mais nova... ela não ficou louca. Nem foi expulsa. – Ela deu uma breve pausa entre uma frase e outra. Eu sabia o que viria a seguir. – Ela também não contou para ninguém sobre o nefilim. – Outa pausa. - Ela era eu.
Não me surpreendi tanto quanto deveria. Pelo menos eu não era a única no mundo que havia visto algo assim.
- E o anjo era Evan.
Ok. Ao ouvir aquilo, senti um calafrio percorrer meu corpo. Então isso não apenas significava que eles eram de fato reais, mas que viviam entre nós. Anjos escondendo suas asas em corpos humanos. Havia lido em algum lugar que eles apenas possuíam as pessoas. Digo, que passavam a viver dentro delas, utilizando seus corpos. Meus olhos arregalaram-se e encarei Evan. Ou quem quer que fosse. Mas como se pudesse ler meus pensamentos, ele começou:
- Escute, eu ainda sou eu. Esse corpo é meu, os pensamentos são meus. Anjos não são tão diferentes quanto vocês, humanos, pensam. É um fato que nós temos asas e que talvez tenhamos algum dom, ou outro. – Seus olhos pareciam suplicantes enquanto os meus se enchiam de raiva e decepção. Como poderiam ter escondido de mim algo tão significativo? – Eu não sou exatamente um nefilim. Eu sou filho de um, o que significa que alguns dos poderes do meu pai passaram para mim e ainda sou um anjo. Não deveria existir, mas meu pai e muitos dos outros expulsos do paraíso aparentemente não sabem cumprir ordens. Vários deles tiveram filhos com mortais, e estes são como eu. Mas nem todos decidiram, ficar por aqui.
- Quem... quem é seu pai?
- Sou filho de Gadreel. O terceiro anjo. Ele ensinou aos anjos sobre a morte e a como usar uma espada para ferir a outro anjo. Não me orgulho disso, mas você precisa saber. E também sei que você já o viu.
Recordei-me disso. Da cena, do homem-demônio voando sob o céu pontilhado por estrelas. Coloquei a mão na nuca, onde estava, nítida como uma tatuagem, a marca de uma meia lua. O que isso significava?
- Como sabe disso?
- Vá com calma, Evan. – Recomendou Sophie, chegando mais perto de mim e colocando um dos braços sobre meus ombros. – Nick, o que você vai ouvir pode ser meio perturbador. Talvez não acredite nisso, mas por favor, tente. Tente acreditar que tudo isso é verdade, porque é, de fato, o que aconteceu e o que vai acontecer. Você precisa confiar em nós. – Ela disse. Prossiga, Evan.
- Eu e você, Nick, temos nos encontrado nas suas últimas vidas. Nas suas últimas sete vidas, se contarmos essa também. Meu pai... bem, eu recebi uma punição por seus atos, mas essa punição é mútua. Nós dois a sofremos. Então, cada vez que você vive de novo, meu pai aparece para você. Essa meia lua que tem na nuca é só a prova disso. Ela existe para que eu me lembre que no fim de tudo... Sophie, eu não consigo fazer isso. – Ele olhou para ela. Seus olhos pareciam úmidos.
- Você precisa, Evan. Por favor. – Recordei-me do que eles haviam conversado noite passada. Evan iria acabar matando alguém caso não se afastasse dela imediatamente. E essa pessoa era eu. Ele respirou fundo.
- Essa marca só existe para me lembrar que no fim de tudo eu terei que matar a pessoa que eu mais amo no mundo inteiro. No universo inteiro. Em qualquer época, em qualquer dimensão. – Ele piscou – Nick, você precisa entender que desde sempre, não desde a primeira vez que vi você aqui, que vi você nessa vida, desde sempre eu a amei. Desde sempre, sua alma encontra a minha, mesmo que a minha seja escura e a sua a mais bela e limpa que alguém já possa ter visto. Eu estive tentando me afastar de você nesses meses, mas você insistia em ser minha amiga. Você se preocupa comigo tanto quanto sempre fez. Foi um erro tê-la beijado ontem, entende? Tudo o que eu queria era ficar longe de você o máximo o possível. Deixar que você aproveitasse sua vida, porque no fim, eu sabia o que teria que fazer. Eu não quero fazer isso mais uma vez. Eu não tenho forças para fazer isso. Foi um dos motivos para que não houvéssemos contado nada. A própria Sophie só soube disso quando insistiu para que eu a chamasse para sair, ela insistia todo dia, toda hora, que éramos perfeitos um para o outro. Eu acho que somos. Mas não quero que meu destino interfira no seu. Não ainda. Talvez daqui muitos anos, quando eu estivesse fortalecido, quando eu tivesse coragem... eu sou fraco demais para passar por isso de novo. Eu odeio minha família, eu odeio minha vida, eu odeio a minha existência e eu odeio essa maldição. Eu nunca poderei ser feliz. Nunca poderei tê-la para mim ou envelhecer ao seu lado simplesmente por ser quem eu sou.
Evan ficou em silêncio. Uma lágrima escorreu por sua bochecha, projetada milimetricamente por seu olho castanho e profundo. Eu estava chocada. Não esperava uma revelação de amor nem nada do tipo. Eu poderia superar saber que Evan era um anjo. Poderia superar que iria morrer porque não tinha medo da morte. Mas que Evan me mataria. Evan, que era um anjo. O Evan que me amava. Era mais do que eu podia suportar. Eu nem sabia ao certo o que sentia por ele. Só conseguia definir que era forte. Eu talvez realmente estivesse apaixonada por ele. Talvez o amasse e só não tinha percebido.
- Então é isso? Eu deveria simplesmente confiar em vocês e acreditar em toda essa história depois de terem me escondido tudo isso por meses? – Falei. Não conseguia digerir tudo isso ao mesmo tempo, mas sabia o certo a se fazer.
- Não contamos para lhe proteger.
- Me proteger do que vocês já têm certeza que acontecerá? Isso não me parece muito justo.
- Não é. – Disse Sophie. – Mas como Evan já falou, fizemos isso para protege-la. Não quero perder minha melhor amiga. E Evan também não quer perder você.
- Isso vai acontecer. Mais cedo ou mais tarde, vai acontecer. – Continuei.
- Não enquanto pudermos evitar. – Disse ele. – Sei que pode ser estranho para você, mas...
- E é.
- Bem, eu imagino que seja. Não era minha intenção contar isso assim. Não deve ser legal ouvir um “eu te amo” de alguém que você não gosta... desse jeito.
- Eu não disse que não gosto. – Falei, um pouco corada. Ele também enrubesceu ao ouvir isso, e Sophie suspirou tristemente. - Mas ainda não sei o que eu sinto. O seu beijo... me deixou um pouco atordoada. Não sei o que pensar.
- De qualquer forma, deveríamos nos manter afastados. Para o seu bem. Ou mesmo para o meu.
- Eu também não disse que acreditava em tudo isso. Esteve certo em saber sobre eu ter visto seu “pai”, mas como pode ser um anjo? Eu não entendo isso.
Dito isso, Evan levantou-se da cama. Andou até perto de sua estante, onde havia um certo espaço livre. De suas costas, surgiram grandes asas negras, que em seguida foram abertas. Eram enormes e incrivelmente magnificas. Seriam capazes de me deixar encantada se eu não soubesse tudo o que haviam me contado. Alguns segundos depois, ele as recolheu e as asas simplesmente sumiram.
- Elas somem e aparecem conforme a minha vontade. Se eu deixar que as vejam, então elas aparecerão. Se eu não quiser, então elas desaparecem. É mais simples do que parece.
- Ah. – Foi o único som que consegui emitir. Era verdade.
- Ainda acho que o certo a fazer é que nos afastemos. Não posso ficar perto de você. Quero evitar que algo ruim aconteça, pelo menos por enquanto.
- Do que adianta esse afastamento? Se tiver que acontecer, vai acontecer. Não muda em nada. – Eu falei. – Eu não... não quero me afastar de você.
- E vocês não podem se afastar. – Disse Sophie. – De jeito nenhum. Eu tive mais uma visão, Evan. – Ela parecia tensa.
- Sobre Hollie? – Ele questionou, preocupado, e ela acenou com a cabeça.
- Nick, outra coisa que você não sabe é que eu tenho certas... visões. Tenho como saber de algumas coisas que estão acontecendo paralelamente, mas não o que irá acontecer, então nem tente me perguntar alguma coisa que ainda não vivenciamos. Digamos que minha família tenha algum histórico de bruxaria. O que você viu mais cedo não foi uma convulsão. Foi apenas o momento em que uma dessas visões se manifestou. Enfim, tudo o que eu descobri a respeito de Hollie é que ela foi, de fato, atrás de Lilith. – Falou olhando para Evan.
- Foi mesmo?
- É. Aparentemente. Ela conseguiu se juntar com outros dois anjos que a guiarão até onde ela se encontra.
- O que isso quer dizer? – Perguntei.
- Você sabe quem é Lilith, não sabe? 
É claro que eu sabia quem era Lilith. Lilith era um demônio. Uma mulher expulsa dos céus por ser desobediente e incontrolável. A primeira mulher de Adão, acusada de ser a serpente que induzira Eva a provar do fruto proibido.
- É claro que sim.
- Bem, se Hollie foi realmente atrás dela, podemos esperar vingança. É o que ela quer.
- Hollie se sentiu rejeitada ao ver você beijando Nick. – Falou Sophie. – Ela está cega de raiva e tudo o que ela deseja é tê-lo de volta, Evan. Para ela, não existem consequências. Não há um limite. Ela sempre teve tudo o que quisera de mão beijada. Não vai desistir até conseguir você. Ela quer que você a ame.
- Isso é impossível. Eu nunca a amei tanto quanto... – Ele interrompeu a frase pela metade.
- É por isso que você corre perigo, Nick. Se Hollie quer vingança, principalmente se foi atrás de Lilith para isso, ela não quer simplesmente você longe dele. Ela quer você fora do caminho dela, fora da vida de Evan.
- Ela quer me matar?
- Exatamente. – Falou Sophie.
- Olha, eu realmente gostaria de saber por que todos querem me matar. Eu não sou tão importante assim, nunca fiz nada demais.
- Eu não sei, Nick. – Disse ela. – Não ainda. Mas vou tentar descobrir o porquê.
- Estou tentando descobrir isso há 275 anos. – Completou Evan.
- Nos conhecemos há tanto tempo assim? – Perguntei, extasiada. Meus olhos estavam arregalados.
- Há mais que isso. Sua primeira morte é que foi há 275 anos.
- Ok. – Respondi. Evan já não mantinha mais os olhos cheios de água e Sophie parecia significativamente melhor. Ou menos pior. – O que faremos agora?
- Recomendo que fique sempre perto de um de nós.
- Concordo com Sophie. Não será um problema ficar perto de você.
- Eu já não estou sempre com um de vocês? – Brinquei. - Tempo a mais não será problema.
Os dois sorriram.
- Saberei quando ela chegar até Lilith e também se ou quando ela enviar alguém pra cá. Mas todas as minhas visões acontecem alguns minutos depois do fato real ter se concretizado, então é mais seguro se ficarmos sempre próximos e preparados para qualquer coisa.
- Que tipo de... “coisa” ela poderia enviar? – Eu quis saber.
- Não temos certeza.
- Ah, e Nick – falou Sophie. – Sobre ontem. O que estávamos tentando fazer era descobrir o que Hollie planejava e para onde iria. Evan conseguiu segui-la por um tempo, mas depois de ter sido notado, algumas das criaturas que ela já havia convocado nos perseguiram. Demoramos para despistá-las.
- Entendi. Mais alguma coisa para me contar?
- Não por enquanto. – A garota exclamou. Evan fez um sinal negativo com a cabeça. – Sugiro que a gente volte ao nosso dormitório, agora. Estou cansada e preciso dormir um pouco.
- Por mim tudo bem. Podemos voltar, sim.
- Ótimo.
Sophie levantou-se da cama e se espreguiçou. Ela me abraçou fortemente e sugeriu que eu levantasse também. Pediu desculpas à Evan por ter entrado sem pedir e começou a se dirigir para a porta. Quando dei o primeiro passo para segui-la, Evan me segurou pelo braço. Seus olhos suplicavam para que eu ficasse mais um pouco.
- Hm... Você não vem? – Sophie interrompeu o momento, já do lado de fora da porta.
- Já estou indo. – Falei. Ela apenas sorriu maliciosamente e seguiu em frente. – O que foi?
- Eu queria pedir desculpas.
- Pelo quê, Evan? – Disse, já sentada na cama.
- Por ontem. Por ter simplesmente ido embora. Eu não devia ter feito isso, mas fiquei com raiva de mim mesmo. Todos os esforços para me afastar de você jogados pelo ralo.
- Tudo bem. Acho que faria a mesma coisa se estivesse no seu lugar.
- Deve ter sido difícil ficar sabendo de tudo isso em uma tarde. – Ele falou, voltando-se a sentar ao meu lado, na cama. – Desculpe-me por isso também.
- Ok.
- Não queria que tivesse que passar por isso.
- Eu também não. – Concordei. – Quer dizer, não queria que você precisasse passar por isso. Deve ser difícil.
- Perder quem eu mais amo e saber que eu fui o responsável? Só um pouquinho. – Ele tentou descontrair. Deu certo.
- Não que eu faça falta.
- O quê?
- Bem, eu não devo ser uma pessoa muito fácil de lidar. Viver sem mim não é exatamente um problema.
- Está brincando comigo? A cada vez que eu perco você é como se um pedaço meu fosse junto. Eu me odeio cada vez mais. Só queria que isso parasse. Mesmo que você não ficasse comigo, pelo menos sei que estaria bem.
- Todos morreremos um dia, Evan. De uma forma ou de outra. A diferença é que a maioria das pessoas não sabe como isso vai acontecer.
- É. Eu sei. – Sua expressão era triste, mais uma vez. Há menos de uma hora eu descobrira que não conseguia suportar quando ele a adquiria. Tudo o que eu queria fazer era abraça-lo e mantê-lo junto de mim para sempre. Realmente considerei fazer isso. – Só queria evitar isso. Queria não ter que fazer isso.
- Talvez isso ainda demore para acontecer... – Falei, tentando ser otimista.
- Espero que sim. Na verdade espero que nem aconteça. Meu pai me disse que um dia isso iria acabar.
- Podemos tentar não pensar nisso por enquanto?
- Acho que sim.
- Ok. – Falei e levantei-me, andando em direção a porta. Evan fez o mesmo. – Até logo, Evan.
- Até. E desculpe, mas uma vez. – Disse ele.
- Você não tem mais nenhum motivo para pedir perdão.
- Me desculpe por amar você.
- Não tem pedir desculpa por isso.
- Foi isso que a envolveu nessa história.
- Mas não é uma coisa ruim. Nem todos têm o privilégio de serem amados por um anjo.  – Falei e ele sorriu.
- Nem todos tem o privilégio de amar alguém como você.