CAPÍTULO 9 - Nicole

Os dois meses que se seguiram foram tranquilos. Me adaptei bem na escola e as manhãs passavam tranquilamente. Raramente cruzava com Hollie e nas aulas sentávamos longe uma da outra. Os ensaios do jazz iam bem, mas Sophie e eu decidimos que seria melhor deixar a coreografia para o ano seguinte. As provas começaram e nenhuma de nós arranjava tempo para ensaios adicionais. Tio John entrava em contato comigo pelo menos uma vez por semana para saber se tudo corria bem. É claro que ele havia sido comunicado sobre o escândalo de Hollie. No começo, demonstrou uma preocupação extrema, mas logo esqueceu disso tudo, assim como a maioria dos alunos da escola. Ninguém mais prestava atenção em mim ou dirigia-me olhares estranhos quando eu passava nos corredores. Nem mesmo Oliver tentara aproximar-se de mim novamente.
O prédio fora realmente interditado, e alguns dias depois da reunião, seguranças foram colocados na entrada do local para impedir os alunos de qualquer tentativa de voltar a festejar. A Nephilim não estava mais ensaiando, já que Oliver e Evan haviam parado de se falar. Aparentemente, o fim de uma ótima banda. E de uma amizade que perdurara por alguns anos. Eu e Evan vínhamos conversando bastante durante as aulas, e ele mostrara bastante interesse em assuntos que eu também gostava. Ele parecia demonstrar algum interesse por mim, assim como Sophie já havia reparado. No último mês, ele havia se aproximado de mim o bastante para descobrir sobre meus pais e que eu tinha uma irmã mais nova que também estudava ali. Eu, ele e Sophie passávamos grande parte de nosso tempo livre juntos. Já não fazia mais tanto frio, então costumávamos passar as tardes em que eu e ela não ensaiávamos fazendo piqueniques, o que era algo bastante divertido. Evan levava seu violão, e juntos, cantávamos enquanto eu relembrava os velhos tempos. Ambos sabiam que meus pais estavam mortos, mas não da parte em que meu pai bebia e que eu era a responsável por não morrermos de fome durante aquela época. Não era preciso que soubessem.
Estávamos no final de março e a primavera aproximava-se. O clima ameno facilitava - e muito - o nosso dia a dia. Era bom o fato de não precisar sair de casa com dúzias de moletons por cima do uniforme escolar. Naquele dia, teria duas aulas com Evan, o que me deixava animada. Pelo menos durante uma hora e alguns minutos da manhã, a aula não seria completamente tediosa. Por sorte ou azar, o professor que aplicaria aula no último período não pudera comparecer à escola por motivos de saúde, então fomos dispensados mais cedo. Evan e eu voltamos juntos a região dos dormitórios. Voltei para o meu quarto e ele para o dele.
Esperei o fim da aula de Sophie para depois podermos almoçar juntas. Assim que ela chegou e largou suas coisas, fomos até a cozinha e almoçamos rapidamente. Sarah estava lá e pediu para que eu a visitasse durante a tarde. Queria assistir a algum filme ou algo do tipo. Disse que tentaria comparecer, mas era óbvio que iria. Não poderia deixar minha irmã de lado, e então, por volta das 13h15min já estava em seu quarto. Ela estava de pijamas, agora podendo usar bermudas por causa do clima moderado e Nathaly não se encontrava no quarto. Segundo Sarah, sua amiga estaria fazendo um trabalho na biblioteca durante o resto da tarde, então poderíamos agir como nos velhos tempos. Passar a tarde assistindo a filmes e comendo pipoca amanteigada, a favorita de nossa mãe. Faríamos maratona de uma de nossas sagas literárias favoritas que fora adaptada ao cinema. Eram três filmes no total e esperássemos que o quarto fosse lançado em breve, mas ainda não havia uma data certa para que isso acontecesse. E de qualquer jeito, era provável que nem pudéssemos sair para assistir. Gostávamos de assistir a adaptações para avaliar se realmente as coisas aconteceriam tal como no livro. Mantínhamos o costume de criticar, caso não acontecessem, e não nos calávamos durante o filme inteiro.
Como já havíamos assistido a todos os filmes mais de uma vez antes, Sarah começou a contar como estava sendo sua rotina desde que nos mudamos para cá e que havia finalmente conseguido se adaptar. Demonstrara forte aptidão para o teatro, então estaria participando da peça principal da escola no semestre seguinte. Sempre fora uma boa aluna em Cameron Bay e isso não mudara, surpreendentemente, já que todos esperávamos que com a morte do nosso pai e com toda essa mudança em nossa vida nosso rendimento escolar caísse bastante. Mas não foi o que aconteceu.
De certa forma, não foi algo difícil de superar. Quase para mim, apenas um pouco para Sarah. Não me orgulhava disso, mas ele sempre estava mais ausente do que perto de nós. Éramos acostumadas a vê-lo somente durante alguns poucos minutos, à noite, quando chegava bêbado em casa e ia direto para o quarto. Não mantínhamos contato, exatamente. Não poderíamos nem chamar aquilo de família. Não ele. Ele não participava de nada, não se mantinha sóbrio. Ele era como um corpo sem vida. Um corpo vagando por cantos escuros, procurando pela luz do dia mesmo quando sabia que não seria possível encontrá-la. Ele só existia. Esteve ali enquanto nos adaptávamos a viver sem ele, e quando não dependíamos mais de sua existência, então se foi. Sarah entendeu isso pouco tempo depois de mim. Entendeu que agora deveríamos nos virar por conta própria, mesmo tendo tio John ali. Ele era só um objeto. Não marcava presença constante e também não fazia falta. Mas era bom saber que havia alguém que ainda zelava por nós. Ambas chegamos a essa conclusão.
A tarde passou tão rápido que só notei que horas eram quando Nathaly entrou no quarto. O sol começara a se pôr do lado de fora. Era uma vista bonita, a do quarto delas. Podíamos enxergar o bosque e o prédio interditado no canto esquerdo. O sol se punha logo atrás das árvores, enquanto meu quarto deixava com que víssemos o sol nascer, caso acordássemos cedo o suficiente para isso. Decidi que seria hora de voltar para o meu dormitório e agradecia a Nathaly por ter se dado ao trabalho de baixar os filmes para que eu e minha irmã pudéssemos assistir. Sarah despediu-se de mim com um abraço. Ela já não chorava mais quando falávamos sobre isso. Eu também não.
Voltei calmamente pelo corredor acabei passando pelo quarto de Hollie, que estava com a porta aberta. Ela estava de costas para a porta, retirando algumas fotos da parede. Mesmo de longe, pude ver que eram fotos dela e de Evan. Dois meses e ela ainda não havia feito nada disso. Ela não superara, e eu não sabia se superaria tão fácil. Dificilmente olhava para ela durante a troca de períodos ou as aulas, mas quando a notava me encarando percebia a mágoa em seus olhos. Ela me culpava por algo que eu nem havia feito.
Tentando ignorar o que havia visto, segui de volta para o quarto. Não sabia o porquê, mas a situação me deixara um pouco incomodada. Era algo que queimava dentro de mim, algo que dizia que ela devia esquecê-lo. Ela devia deixá-lo ser feliz e aceitar que ele não a queria em sua vida, mas, aparentemente, isso não entrava em sua cabeça. Havia me concentrado tanto em pensamentos e nesse tal sentimento estranho que quando percebi já estava em frente a porta do quarto que eu costumava dividir com Sophie. Mas hesitei ao entrar. Ouvi vozes lá dentro, e não somente a de Sophie. Havia uma voz masculina junto. A voz de Evan.
- E é isso. Eu não sei o que fazer. – Disse ele.
- Afaste-se dela. Afaste-se, o mais rápido possível. – Sophie falou, aparentando irritação. – Não vou deixar você colocar mais uma amiga minha em perigo.
- Você não entende? Não é algo que eu consiga evitar! – Ele parecia desesperado.
- Pode ser difícil, mas você não pode, Evan. Você sabe que não.
- Eu tenho certeza que é ela. Mas não quero fazer isso. Não quero que meu destino mude o dela.
- Devemos tentar evitar.
- É claro que sim. Não quero feri-la, mas não sei se é possível evitar que aconteça.
- Ela é minha amiga, Evan. Prometa que vai tentar. Você não pode matá-la. – Sophie completou, baixando o tom de sua voz. Irritação mesclava-se com tristeza.
Ao ouvir a última frase, acabei emitindo um som de surpresa, o que acidentalmente revelou minha localização. Ambos ficaram em silêncio dentro do quarto, e então ouvi passos seguindo em direção a porta. Rapidamente, estiquei a mão para tocar a maçaneta, fingindo que acabara de chegar. Evan abriu a porta no instante exato em que fiz isso. Estava sério e pálido.
- Oi Nick. – Disse ele, olhando pra mim com relutância enquanto dirigia-se para fora do quarto.
- Olá – falei. – Oi Sophie.
- Nick... Oi. – Ela sorriu doentiamente – como foi com a sua irmã? Esperava que voltasse mais tarde...
- Tudo bem. O que Evan estava fazendo aqui?
- Você está bem? Parece meio pálida.
- Não mude de assunto. – Respondi, seriamente.
- Evan? Ele veio pedir algumas informações sobre o dever de geografia.
- Vocês não estão na mesma classe.
- Mas a matéria é a mesma. – Falou, agora mais animada. Do nada, a alegria que sempre exalava voltou. Foi, de certa forma, estranho, já que há pouco tempo atrás demostrava estar irritada e preocupada.
- Eu ouvi vocês falando...
- Ficou ouvindo atrás da porta? – Ela interrompeu, brincando. – Bisbilhotar é feio, Nick. Agora, se me dá licença, vou tomar um banho.
Sophie não esperou que eu concordasse e simplesmente entrou no banheiro. Eu não sabia o que fazer. Ler. Talvez mexer um pouco no computador. Não tinha nenhum dever ou trabalho para o dia seguinte, e a preguiça não deixava com que a vontade de fazer algo vencesse.
Pensei que poderia sair um pouco para caminhar pelo campus. Espairecer. Na verdade, mal podia acreditar que não precisava me preocupar com trabalhos durante uma noite. As últimas semanas haviam sido tão cheias de coisas que eu mal tinha tempo para pensar. Passar a tarde com Sarah fora de fato muito agradável. Me lembrava que eu tinha uma motivação para seguir em frente, e que essa motivação era ela. Éramos nós. Merecíamos algo melhor. Talvez até mesmo alguém. Mas eu não sabia direito o que pensar a respeito disso. Tentar imaginar o futuro sempre fora como um grande borrão para mim. É claro que eu tinha sonhos, mas nada era definido. Bem, nada é definido, de fato.  Nossos destinos podem ser alterados conforme nossas escolhas. Só que não sabia nem por onde começar a organizar minha vida a partir dali, do fim do ensino médio. Realmente gostaria de fazer algo pelas pessoas, algo que as ajudasse e fizesse a diferença na vida de pelo menos uma delas. Tentar entender quais eram os problemas e achar uma solução.
E é claro que também gostaria de encontrar alguém. Uma pessoa que me fizesse sentir única, o meu “alguém” especial. Que pelo simples fato de estar ali, de existir, já fazia tudo valer a pena. Um pensamento clichê para uma pessoa clichê, do que afinal, eu não passava. Era mais um padrão da sociedade.
Saí do quarto com a intenção de ir até perto do bosque. Não avisei à Sophie. Quem sabe caminhar por lá e depois voltar, antes que anoitecesse.
***
Demorei pelo menos meia hora andando por entre as árvores velhas. A luz dourada do sol ao entardecer passava por entre as folhas e deixava tudo mais poético. Foi bom respirar um pouco de ar fresco e pensar. Pensar em mim, dessa vez.
Na volta, deparei-me com música. Perto da saída do bosque. O som de um violão tomava conta do local, e conforme me aproximava, pude ouvir melhor. E ver melhor. Era Evan, mais uma vez. Ele estava sentado em uma das mesas de pedra que haviam para piqueniques. Não notou minha presença, ou se notou, não deu importância. Ele parecia tão concentrado naquilo. Em como seus dedos deslizavam sobre as cordas. Ele produzia uma melodia doce e contagiante. Viciante. Era como se, enquanto eu ouvisse aquilo, estivesse segura e nada mais no mundo importasse. Mas, subitamente, o som parou e eu saí de transe. Evan me encarava.
- Por acaso você está me perseguindo? – Perguntou, brincando.
- Ia lhe fazer a mesma pergunta. – Respondi e nós dois rimos. – Você toca muito bem.
- Obrigado.
- Mas já deve saber disso.
- Você também toca muito bem.
- Quando foi que você me ouviu tocar?
- Lembro de ter te visto tocar em um café, uma vez.
- Então era mesmo você! Eu lembro, mas não tinha certeza de que você lembrava. Então evitei comentar.
- Era eu, sim. Mas não achei que tivesse reparado em mim.
- Havia uma garota com você, não é mesmo? – Perguntei, recordando-me do dia. Como eu poderia esquecer? Fora o dia da morte do meu pai.
- Garota?
- É. Uma morena, alta. Ela era bonita. – Comentei.
- Ah, sim. Ela é minha prima.
- Ah...
- Estava visitando ela. Por isso estava lá.
- Entendi.
- E você? Por que estava tocando lá? – Ele questionou.
- Eu costumava “trabalhar” nisso. Era... bem, era só isso. – Tinha medo de revelar algum detalhe a mais sobre o meu passado. De contar algo que pudesse fazer as pessoas se afastarem de mim. Medo de uma futilidade.
- Só? Então trabalhava por diversão? – Ele arqueou uma sobrancelha.
- Eu gostava. E o que eu ganhava com isso me ajudava bastante.
- Em quê?
A temida pergunta. Eu não queria mentir para Evan, mas também não queria que sentisse pena de mim. Não iria mentir.
- Depois que minha mãe morreu, meu pai virou alcoólatra. E era basicamente eu que cuidava de tudo. Precisava arranjar algo que rendesse dinheiro, e isso era o suficiente.
- Seu pai... poxa. Desculpe perguntar.
- Não, tudo bem. Quer dizer, desde que não sinta pena de mim por causa disso. – Falei e ele me encarou. Seus olhos pareciam repletos de compaixão. – Ai, meu Deus. Evan, por favor, pare de me olhar assim.
- Estou só brincando. – Ele riu. – O que importa é que você está aqui agora. E que está tudo bem.
- Obrigada.
- E então, o que me diz de cantar um pouco enquanto eu toco?
A ideia me agradou bastante, e assim que ele começou a tocar uma melodia que eu conhecia, cantei. Cantei junto com ele e para ele, como se fôssemos as duas únicas pessoas presentes ali. E talvez realmente fôssemos.
***
Infelizmente, não pudemos ficar juntos por muito tempo. A noite estava chegando, e era proibido ficar do lado de fora muito além das 19h. Resolvemos sair dali e nos aproximarmos da escola. Haviam alguns bancos espalhados pelo pátio, e alguns alunos costumavam ficar ali onde era bem iluminado, entre os prédios, durante o comecinho da noite. Ficamos por ali durante algum tempo, mas apenas conversando. Eu me sentia bem ao estar com ele, e depois daquele dia, sabia que gostaria de ouvir aquela melodia por mais muito tempo.
Evan contou-me um pouco sobre a sua infância e sobre sua vida. Como tudo era antes de me conhecer. Contou com tanta destreza quanto um atora recita a um texto decorado, mas achei esse fosse apenas o seu jeito. E quanto mais ele me contava, mais me sentia mais fascinada em descobrir quem era a pessoa que se escondia por trás de seus cabelos louros.
- Não sabia que você era uma pessoa interessante. – Disse a ele.
- O que esperava que eu fosse?
- Você sabe. O badboy da história. Mas essa visão mudou desde aquela noite no Porão.
- E o que eu sou agora?
- Bem, eu não sei.
- De qualquer forma, é um prazer fazer parte da sua história. Mesmo que eu seja apenas um coadjuvante qualquer.
- Você não é. – Eu disse.
- Você com certeza é muito mais do que isso pra mim. – Ele olhava-me nos olhos. Havia largado o violão no banco, ao seu lado. Ao dizer isso, esticou sua mão direita e tocou meu rosto, afastando uma mexa de cabelo que caíra sobre meus olhos. Inclinou-se para frente, e devagar, aproximou seu rosto do meu. Sua mão agora tocava a parte de trás do meu pescoço. Eu sabia o que viria a seguir.
Senti meu coração acelerar quando seus lábios tocaram nos meus. Foi simples e delicado. É claro que não era o meu primeiro beijo. Não escutei fogos ao fundo nem ouvi sinos ressoando, conforme dizem que deve acontecer quando você beija alguém que gosta pela primeira vez. Acabou sendo muito mais bonito do que isso. Só ouvi o silêncio, e no momento foi o som mais incrível que eu jamais havia escutado.
Evan afastou-se subitamente. Sua expressão era estranha, o que fez com que eu me perguntasse se beijava realmente tão mal assim.
- Desculpe. – Ele falou. – Eu não devia ter feito isso. Sou um idiota.
- O quê? – Eu estava confusa.
- Foi bom passar um tempo com você, Nick. – E então pegou o violão e foi embora, deixando-me ali, sentada e sem nenhuma reação.
Levantei para voltar ao dormitório, e logo que virei de costas para o banco, dei de cara com Hollie.
- Então era isso que você queria? – Ela disse, ironicamente. – Parabéns, hein?
- Hollie, eu...
- Não, é sério. Conseguiu! Palmas para você – ela fez o gesto com as mãos. – Demorei um pouco mais de dois meses para conseguir a atenção dele, mas pelo jeito você é rápida.
- Isso não foi o que...
- Vai lá, Nick, aproveita. Ele é todo seu. Aproveita enquanto pode. – Falou a garota, irritada, que logo depois seguiu andando. Eu não entendia mais nada.  Meu dia fora bom até o momento, mas em menos de um minuto, tudo virara de cabeça para baixo. Voltei ao meu dormitório e esperei que Sophie tivesse algum conselho.
Ela não tinha.