CAPÍTULO 8 - Nicole

Tive uma noite tranquila depois de tudo o que se passou. Era por volta das 6h da manhã quando acordei novamente, com o barulho da porta do banheiro se abrindo. Sophie saiu lá de dentro, vestida, pronta para ir para a aula. A enfermeira havia me dispensado do primeiro tempo, mas eu pretendia ir mesmo assim.
- Bom dia – eu disse.
- Ah, desculpe. Não queria acordá-la...
- Eu teria que acordar de qualquer jeito, não é? Que horas são?
- Seis e quinze.
- Certo.
- Hm... De quem é essa jaqueta? – Perguntou ela, desconfiada.
- Ontem à noite Evan me emprestou enquanto íamos até a enfermaria.
E logo após ter dito isso, Sophie encarou-me com um sorriso malicioso.
- O que? Ah Meu Deus, pare! Ele acabou de terminar com Hollie!
- Desculpe! – Ela riu. – Não pude evitar.
Levantei da cama, tomei um banho e vesti o uniforme. Seria uma manhã e tanto, já que dividiria aulas com Hollie e Oliver novamente. Fiquei pronta cerca de 5 minutos mais cedo, e então decidi que desceria até o dormitório de Evan para devolver-lhe o casaco.
- Sabe qual o número do dormitório de Evan? – Questionei.
- Hollie me disse uma vez que era 16B. Por que quer saber?
- Para devolver a jaqueta. – Respondi. – Você vai comigo?
- Não, pode ir se quiser. Ainda tenho que arrumar minhas coisas. Acabei esquecendo de fazer isso ontem.
- Ok. Até depois.
Desci as escadas e entrei no corredor onde localizavam-se os quartos masculinos. O primeiro era o de número 01, então deduzi que o esquema planejado fosse o mesmo do andar feminino. 60 quartos divididos pelas duas extremidades do corredor e numerados de 1 a 30.
Os corredores eram tão extensos quanto os nossos e as portas mantinham as mesmas distâncias umas das outras. As cores das paredes eram as mesmas - marrons. A única diferença é que os números do andar masculino mantinham um “0” na frente de cada sequência, como 01A, 02A, 011A, 012A, etc do lado direito, e 01B, 02B, 011B, do lado esquerdo. O 016B ficava perto da escada, há apenas um quarto de distância. Aproximei-me da porta timidamente e bati três vezes.
- Um minuto! – Gritou uma voz lá de dentro, mas não parecia a de Evan. Será que estava no quarto errado? Após alguns segundos parada do lado de fora do quarto, a porta se abriu. Não era quem eu de fato esperava, mas sim Ryan, vestindo seu uniforme, com a mochila nas costas e prestes a sair. – Ah, é você. – Ele sorriu e me cumprimentou. – O que faz por aqui?
- Evan está? Preciso devolver isto para ele. – Falei, indicando o casaco que estava em minhas mãos. Ele pareceu confuso, mas o chamou e dirigiu-se para a escola.
Evan estava colocando o blazer do uniforme por cima de uma outra camiseta quando foi até a porta.
- Bom dia.
- Olá. Vim devolver isto pra você. – Disse enquanto o alcançava a peça de roupa que tinha em minhas mãos.
- Ah, sim. Não precisava ter vindo tão cedo, mas obrigada. – Ele agradeceu. – Como está se sentindo hoje?
- Bem melhor do que ontem. Fui dispensada do primeiro tempo, mas acho que não vale a pena perder aula só por causa disso. – Comentei.
- Espere um segundo – ele voltou para dentro do quarto, largou o casaco em cima da cama, pegou a mochila e trancou a porta. – Quer ir comigo até a escola? Podemos conversar enquanto isso.
- Tudo bem. – Respondi, andando a seu lado pelo corredor masculino em direção a escola.
- Não sei o que deu em Hollie. Ela não costumava ser desse jeito. – Ele disse.
- Aparentemente ela acha que a culpa por você ter terminado com ela é minha.
- E é. – Ele falou, seriamente. Olhei para o garoto, espantada. Este não conseguiu fingir seriedade por muito mais tempo e logo começou a rir. – Estou brincando. Deveria ver sua cara.
- Não teve graça.
- Desculpe. Mas enfim, não tem nada a ver com você. Oliver sempre foi meio afim de Hollie, só não desconfiava que ela fosse cair na história dele, por isso fiquei tão chocado. Ela não parecia ser uma pessoa tão influenciável quanto se mostrou.
- Poderia concordar se de fato a conhecesse.
- Ela sempre foi uma pessoa incrível, mas nos últimos meses... alguma coisa aconteceu. Não sei o que pode ter sido. Ela vinha agindo como alguém fútil. Nunca fora assim, e isso já havia me afastado um pouco dela de qualquer jeito, embora continuasse gostando dela. Só que isso que aconteceu foi meio que a gota d’água. Traição é algo intolerável.
- Sinto muito. Ela disse que era a única que você já amou.
- Não sinta. Desse jeito podemos perceber o quanto podemos nos enganar. Já não tenho certeza de que o que eu sentia era amor.
- Mas você com certeza sentia algo forte.
- Certamente. Só não sei o que era. Talvez fosse perto de amor. Ela era tão frágil, sentia que precisava protege-la do mundo. Que ela precisava de mim e eu precisava dela.
- E realmente acredita que não a amou? – Questionei. O que ele sentia era bonito. Tanto quanto o modo que falava dela, apesar do que ela fizera.
- Quando eu me apaixonar novamente, então lhe digo. – Ele piscou para mim. Sorri para ele, e seguimos em direção a sala de aula para mais cinco períodos entediantes sobre coisas que eu já sabia.
Por diversas vezes me peguei pensando naquilo que Evan dissera e no porquê de ele ter piscado para mim. Não costumava ligar muito para este tipo de coisa, mas ainda era uma garota, e todos sabem que garotas prestam atenção até nos mínimos detalhes. Provavelmente, aquilo não queria dizer nada. E Evan estava se mostrando um ótimo amigo.
A manhã foi tediosa, porém a tarde compensou. Não teria aulas de jazz durante o dia, mas como o sol finalmente resolveu sair de trás das nuvens e nos aquecer com o seu calor, Sophie sugeriu que fizéssemos um piquenique em uma parte da escola que ficava perto a um pequeno bosque, logo atrás dos prédios. Estava frio, mas o sol amenizaria isto.
Separamos alguns pacotes de salgadinho e refrigerantes, peguei um livro e meu celular. Assim poderia escutar música e me distrair um pouco enquanto deixava que o sol tocasse minha pele. Por volta das 13h30min, já havíamos colocado tudo em nossas mochilas e seguíamos em direção a parte externa da escola. O bosque ficava atrás do Porão e fazia parte do terreno da escola, que era extremamente extenso. Sophie não sabia informar exatamente o número de hectares, mas sabia, com certeza, que eram muitos. No caminho, dera início a uma história. A mesma que contavam e recontavam sobre o assombramento desse local. Não passavam de lendas e boatos, segundo Sophie, mas não deixava de ter algo místico naquilo tudo. Eu sempre apreciara este tipo de história, e se houvesse algum lugar por perto cujos boatos a interessassem, procurava investigar se seria um boato real ou falso. Nunca fui uma pessoa cética em relação a isso tudo, mas queria ter certeza e observar tudo com meus próprios olhos. Nunca nada realmente acontecera. Lendas, boatos, histórias inventadas para atrair a atenção das pessoas e elas mesmas ao suposto local assombrado ou por espíritos, ou por alguma criatura da noite. Era intrigante imaginar que algo poderia acontecer a qualquer momento, que algum vulto poderia surgir e me assustar, mas normalmente a adrenalina que sentia após ouvir algum barulho era frustrada ao ver um rato passar em minha frente ou um pássaro levantando voo. Houve apenas uma vez em que a adrenalina não fora em vão.
Os boatos que Sophie me contava tinham início 3 anos antes, quando um grupo de alunos resolveu sair para fumar no bosque em uma noite de verão. Duas garotas e um garoto. Por volta das 2h30min da madrugada, saíram de seus dormitórios e tomaram o mesmo caminho que nós tomávamos naquele dia, mas foram um pouco mais além. Se ficassem do lado de fora do bosque, alguém poderia avistar a fumaça de longe e desconfiar de que os jovens estavam fora dos dormitórios àquela hora, algo que era extremamente proibido e poderia gerar a expulsão dos três, caso fossem pegos. Seria mais grave ainda se os vissem com cigarros, já que nenhum dos três tinha idade para fumar e esta era outra das proibições da instituição. Segundo o que ela me contara, os três encontraram uma mesa para piquenique no meio da floresta, perto de um lampião, e acharam que lá seria um bom lugar para ficar sem serem vistos. Nenhum dos três acreditava em qualquer tipo de superstição e acreditavam estarem seguros dentro dos limites da escola. Sentaram-se nos bancos e começaram a dividir o mesmo cigarro enquanto riam e conversavam, até que, de repente, uma pena negra caiu entre os três, exatamente no centro da mesa. Nada que merecesse muita atenção, pois poderia ser simplesmente de um pássaro. Um corvo ou uma coruja que possuía ninho no galho de árvore que curvava-se por sobre a mesa e entrelaçava-se com o de outra árvore mais adiante. Nenhum ligou para aquilo. O garoto esticou o braço até o local onde ela se encontrava e encostou a ponta do cigarro na pena. Poucos segundos depois, ela incendiou, exalando o mesmo cheiro que qualquer pena teria ao queimar, mas que quase não pode ser sentido por causa da fumaça do cigarro que já tomara o ar da noite. A garota e o garoto mais velho riram da pena, minimizando-a como se fossem seres superiores ao animal que a havia perdido, e depois jogaram o resto do cigarro no chão. Seres-humanos têm a mania de se acharem superiores a qualquer coisa. A garota mais nova e também a mais curiosa, mantinha os olhos atentos a cada movimento e os ouvidos apurados a qualquer som anormal que pudesse ouvir. Não achara graça em uma pena queimada.
Logo após a última faísca escapar da pena, ouviu um barulho nos galhos acima da árvore. Ao olhar para cima, notou a forma de um garoto, que com a cabeça inclinada, observava o artefato. Logo, seu olhar dirigiu-se ao rosto da menina. Não parecia ser muito mais velho que ela, mas era difícil dizer com a pouca iluminação que o único lampião proporcionava. Ele levou o dedo aos lábios como quem pedia silêncio, mas a garota já mantinha uma expressão assustada. Os outros dois, ao perceberem isso, também dirigiram o olhar ao galho de árvore e levaram um tremendo susto ao perceber o rapaz lá em cima. O garoto que brincara com a pena, enfurecido e com medo de que o outro pudesse contar a algum dos responsáveis pelos alunos, tentou fazer com que o garoto descesse e então resolveriam a situação “pacificamente”. Ele recusou-se a descer, e então os quatro perceberam que um monte de folhas secas próximo a eles pegara fogo. O cigarro que jogaram ali há pouco tempo não estava totalmente apagado, e as chamas espalhavam-se rapidamente. A garota e o garoto mais velhos saíram correndo do local imediatamente, mas a mais jovem entrara em pânico. Mal conseguia se mexer enquanto o fogo aproximava-se dela. Parte de um dos prédios da escola pegava fogo, mas ela não conseguia sair do lugar. Tentava gritar, mas parecia sufocada pela fumaça. Para sua surpresa, o garoto que ainda permanecia nas árvores, desceu. Não escalando os galhos, como qualquer pessoa normal faria. Abriu suas enormes asas negras que refletiam o vermelho das chamas, a agarrou por de baixo dos braços e voou com a garota até longe dali. Deixou-a na entrada do bosque, fez novamente o sinal para que ficasse em silêncio, abriu novamente as asas que saiam de suas costas e impulsionou-se para cima. A garota o observou, em choque, enquanto sua sombra passava pela frente da lua. Ele logo desapareceu, e ela, ao perceber que um dos prédios da escola também estava em chamas, levantou-se e correu em direção ao quarto da Diretora Price. Foi uma noite em que quase ninguém dormiu na escola e as aulas foram suspensas por uma semana. Os três garotos foram expulsos da instituição e a mais nova teria sido mandada a um sanatório, pois contara para os outros sobre ter visto um anjo de grandes asas negras. Como era de se esperar, sequer uma pessoa acreditou nela, e fora taxada de louca até que outra história surgiu para encobrir o caso e fazer com que todos esquecessem do acontecido, mas a história ainda era contada até aquele dia por alguns dos alunos.
- Bizarro, não é? – Disse ela, sorrindo para mim.
- Pois é – concordei.
Absorvi palavra por palavra da história. Então fora assim que o Porão se transformara em uma boate para os alunos. Por causa de um incêndio causado através de um mísero cigarro, na noite em que uma garotinha alegara ter visto um anjo. Mas a história me afetou mais do que deveria, e eu sabia o porquê. Alguns dias antes, Sophie perguntara-me sobre segredos, e este era o meu: eu também havia visto um anjo. Tinha por volta dos 10 anos e aconteceu quando fora acampar com minha família. Acordei sem sono no meio da noite e resolvi sair para olhar as estrelas, mas fui surpreendida por um vulto celestial. Um grande ser alado cruzava os céus naquela noite. Uma pessoa, ou algo perto de ser, com grandes asas escuras e chifres no topo da cabeça. Possuía pelo menos o tamanho de duas pessoas de estatura mediana. Fiquei o encarando, esperando que não olhasse para mim de volta, mas de repente, como se soubesse que eu estava ali, ele olhou para mim. Olhou dentro de meus olhos, e eu senti raiva dos olhos acobreados que me julgavam e liam minha alma. Era como se ele soubesse quem eu era e quem eu viria a ser. Mudou seu percurso e voou em minha direção. Então, senti uma queimação na parte de trás do pescoço e desmaiei. Acordei novamente dentro da barraca, sem saber se havia sido um sonho ou se realmente acontecera. A única coisa que poderia provar que foi real, era a marca de uma meia lua que surgira em minha nuca. Meu pai notara isso no dia seguinte, mas nem ele nem minha mãe ligou para isso. Era como se fosse uma marca de nascença, mas seus contornos eram finos como os de uma tatuagem e facilmente poderia passar por uma. A visão do anjo/demônio vindo em minha direção perturbou meu sono por alguns dias, e sempre acordava com a marca da lua ardendo. Mas logo passou. Logo esqueci disso tudo, e nunca tentei contar para ninguém pois sabia exatamente qual seria sua reação ao ouvir uma criança de 10 anos falando sobre ver um anjo com chifres no meio da noite. Eu sabia que era um nefilim, mas eles diriam que fora um sonho. Um simples pesadelo.
***
Poucos minutos depois, eu e Sophie nos encontrávamos em frente ao prédio do Porão. Havia um movimento diferente lá. Diretora Price, acompanhada de algumas outras pessoas – a maioria homens – indicava onde deveriam passar a fita amarela de isolamento. Ao que parecia, o prédio seria interditado. Bem, definitivamente interditado. Agora que ela havia descoberto que tipo de coisas os alunos aprontavam ali, que davam festas e shows, faria de tudo para impedir isso em território escolar, já que, segundo as normas da escola, “festas só eram permitidas caso fossem organizadas por um comitê e com a conscientização da escola”. Até havia um comitê, mas ninguém importante sabia. Esperávamos passar despercebidas por toda a movimentação, mas alguém nos avistou e apontou para a diretora que estávamos passando por ali. Virando-se para trás, acenou para nós e fez sinal para que fôssemos até onde ela estava.
A Diretora Price era o típico personagem caricato que se busca encontrar em qualquer peça de teatro que envolva escolas: 1,65 de altura, quadris largos, cabelos até o ombro e óculos de grau. Isso em questões de aparência. Era uma boa pessoa e demonstrava que sabia controlar e administrar uma escola com bastante facilidade e qualidade. Pelo simples fato de ter-nos chamado ali, imaginei que levaríamos alguma advertência sobre o nosso comportamento. E eu estava certa.
- Então, Sophie, Nicole... – Exclamou ela, olhando-nos por baixo dos óculos fundo de garrafa.
- Hm... Sim? – Sophie respondeu.
- Hollie me explicou o que faziam neste local. Então quer dizer que o prédio estava sendo usado para festinhas particulares dos alunos sem o meu consentimento? – Questionou, alternando o olhar entre meu rosto e o de Sophie. – Nicole, você chegou esta semana e já vem mostrando este tipo de comportamento, deixando-se influenciar por alunas mais velhas e participando de coisas das quais seu tio me disse que não gostava. Estou profundamente decepcionada, principalmente com você, Sophie. Nunca foi o tipo de aluna que imaginei participando deste tipo de coisa.
- Desculpe por isso, Sra. Price. – Falei. – Não irá se repetir.
- Não, de jeito nenhum. Consegui uma ordem para interditar de vez este prédio. E aliás, festas só serão autorizadas no auditório da escola, das 18h até as 23h e em fins de semana. E é claro, quando eu permitir. Estejam no local as 16h. Estou convocando todos os alunos para uma reuniãozinha a tratar deste assunto. – Disse ela, encerrando o assunto.
- Certo. Até mais. – Eu e Sophie nos despedimos dela e continuamos nosso caminho em direção ao bosque.
Dentro de dois minutos, já havíamos encontrado o local ideal para um piquenique. Estendemos uma toalha no chão, rimos e conversamos por pouco mais de uma hora. Sophie perguntou se eu também teria alguma lenda para contar, mas nenhuma das que citei lhe parecia desconhecida, então acabamos mudando de assunto e conversando sobre as próximas aulas de jazz e a coreografia que planejávamos para um recital que a professora havia comentado conosco. Seria dentro de alguns meses, e caso alguma de suas alunas estivesse disposta a participar, ela estaria ali para auxiliar na montagem da coreografia e na limpeza dos movimentos.
Eu não falava com Sarah desde a tarde anterior, e de repente, deparei-me com ela andando pelo pátio da escola com sua colega de quarto, Nathaly, e Cassidy, minha colega e amiga durante alguns momentos na aula. Perguntei-me o porquê de uma garota do segundo ano estar andando com alguém da oitava série, mas não dizia respeito a minha pessoa. Subitamente, Sarah virou a cabeça em minha direção e abanou. Acenei de volta, e logo ela e as outras duas já vinham em nossa direção.
- Oi, Sarah – disse quando ela chegou e me abraçou.
- Oi – respondeu – Nathaly você já conhece, e essa é sua irmã, Cassidy.
- Ah, então nossas irmãs são amigas? – Exclamou ela, sorrindo em minha direção.
- Vocês já se conhecem? – Questionou Sarah.
- Cassidy está na minha classe de matemática.
- É – ela concordou. – Olá, Sophie.
- Oi, pessoal. Por que não sentam com a gente? – Disse ela, simpaticamente.
- Seria legal – Sarah falou enquanto sentava ao meu lado, na toalha. As outras duas sentaram-se também. – Fiquei sabendo que se meteu em confusão, irmãzinha. – Sarah sabia ser irônica quando essa era sua vontade.
- Então quer dizer que até o ensino fundamental já está por dentro do assunto? – Brinquei.
- Não é difícil permanecer atualizada quando uma louca aparece invadindo seu quarto no meio da noite e acorda o prédio inteiro.
- Pois é – eu ri. – Aparentemente, Hollie está me culpando pelo fim do seu namoro com Evan.
- Evan...?
- Evan May. – Completei.
- Evan May da Nephilim? – Ela parecia surpresa.
- É...
- Ah, legal. Quer dizer, não o fato de ela estar culpando você, nem nada do tipo, mas ele parece legal. A banda é legal.
- Eu sei. Estive em um ensaio deles, noite retrasada.
- O ensaio que gerou toda essa confusão, inclusive a destruição do Porão? – Perguntou ela, arqueando as sobrancelhas.
- Esse mesmo.
- Ah.
- Ficaram sabendo da reunião, hoje, as 16h? – Questionou Sophie.
- Sim. A Diretora Price pediu para que alguns alunos, os membros do conselho estudantil, passassem de quarto em quarto avisando para comparecermos ao auditório hoje à tarde. Tenho certeza de que alguns alunos nem sabem sobre o local. – Contou-nos Cassidy.
- Que chato. Não queria que fosse destruído. Nem mesmo tive a chance de comparecer a uma festa.
- Sarah, você é meio nova demais pra isso.
- Por favor, não tente bancar a responsável. – Ela retrucou e nós rimos. Sempre fôramos bastante próximas nesse tipo de coisa. Ela era mais nova, mas me entendia muito bem. Costumávamos partilhar muitos segredos.
Por volta das 15h30, eu e Sophie juntamos nossas coisas, e junto com as outras três garotas, voltamos aos dormitórios. Guardamos as mochilas e retiramos das bolsas o que havia sobrado de salgadinhos e fomos ao auditório.
Grande parte dos alunos já estava lá quando chegamos, então restavam poucos lugares onde poderíamos nos sentar. Sentamos na última fileira, com dois lugares vagos perto de alguns alunos do terceiro e ouvimos atentamente enquanto a diretora anunciava que todos os alunos teriam um novo toque de recolher a partir daquele dia, como forma de punição. Todos deveriam estar em seus quartos meia hora mais cedo do que o habitual. E é claro, ela também anunciara sobre a interdição do prédio antigo da escola, que já fora posta em prática. Ao final de tudo, esclareceu que esperava que nenhum outro aluno tivesse atitudes tão impertinentes como as de Hollie na noite anterior, e que festas só seriam permitidas após sua aprovação. Basicamente, o que ela havia dito para mim e Sophie mais cedo. Voltamos para o dormitório logo após a reunião e ficamos lá até a manhã seguinte.