CAPÍTULO 5 - Nicole

Bati na porta e forcei a fechadura. Estava trancada. Precisei usar minha própria chave. Aparentemente Sophie não estava, mas havia deixado um bilhete em cima do meu travesseiro. Ela havia ido até a biblioteca devolver um livro, e logo estaria de volta. Terminei de organizar minhas coisas em seus devidos lugares, separei uma camiseta antiga e uma calça jeans, e fui para o banho. Os quartos possuíam aquecedores, portanto não precisaria de muita roupa se fosse ficar apenas por ali. O que eram meus planos para aquela noite.
Demorei cerca de 30 minutos, enxaguando meu corpo dolorido do frio. Estava prestes a desligar o chuveiro quando ouvi Sophie entrar no quarto, mas não estava sozinha. Ela aparentemente não notara que eu estava ali, pois havia trancado a porta novamente depois que entrei.
- Olhe, por mim está tudo bem. - Disse ela.
- Eu sei. Mas o problema não é você... é ela. - Respondeu uma voz masculina que não consegui identificar. Nunca havia a escutado antes. Ou havia?
- E o que ela poderia fazer? Evan, não tem nada demais. Tenho certeza de que não é ela. – Então era ele. De novo.
- Ela me deixa nervoso. Não há outra explicação para isso.
- Ou você simplesmente se sentiu atraído por ela mesmo não sendo a pessoa que você procura.
- Não seja ridícula.
- Espere até Hollie saber disso.
- Eu não gosto dela, ok? Bem pelo contrário. Nicole é... repulsiva. - Falou Evan. Espera, eles estavam falando de mim?
- Ah, por favor. Ela é legal.
- Ela me dá nojo.
- Ah! Certo! Às vezes você é muito irritante. Não sei porque essa irritação repentina por causa da garota. – Disse Sophie.
- Preciso ir.
- Até mais.
- Até.
E então ouvi a porta se fechar. Sequei-me, coloquei a roupa e saí do banheiro. Droga, o secador de cabelo. Precisava buscá-lo, mas se saísse precisaria ver Sophie. E ela saberia que eu escutei. Ou não. Talvez eu devesse fingir. Além do mais, eu não poderia ficar trancada no banheiro pelo resto do ano letivo. Tomei coragem e saí. Ela me olhou com os olhos arregalados, mas logo tentou disfarçar.
- Nick! Hm... Nossa... nem notei que estava aqui... - Ela sorriu, tentando parecer tranquila. Era óbvio que não estava.
- Oi – eu ri.
- Está tudo bem?
- Claro, por que não estaria? Só preciso do secador de cabelos. – Falei para suas costas, pois ela já estava virada revirando uma pilha de papeis. – Hm... Sophie?
- O quê? - Perguntou, atordoada.
- O secador...
- Ah, sim. Certo. – Ela empurrou a cadeira que estava em seu caminho, abriu a porta do pequeno roupeiro e retirou o objeto de dentro. - Aqui está.
- Obrigada. - Estava prestes a voltar para o banheiro quando senti uma mão em meu ombro.
- Nick...
- Sim?
- Por acaso você... ouviu alguma coisa...? - Eu não poderia contar pra ela. Não, de jeito nenhum.
- Por exemplo?
- Uma conversa... com meu amigo... Agora a pouco.
- Conversa? Não, não, nem notei que estava no quarto até agora. - Tentei sorrir normalmente, o que não foi difícil, pois mesmo se não o fizesse ela não perceberia. Me conhecia há menos de 24 horas.
- Tem certeza?
- Tenho, por quê? Algo a esconder? - Ri. Ela corou.
- Não! Não, de modo algum.
- Namoradinho, Sophie? Tudo bem, eu não conto. - Brinquei com ela. Sua expressão se aliviou e ela acreditou que eu não havia escutado. Riu junto comigo.
- Não mesmo. Evan é só um antigo amigo meu. - Eu sabia muito bem de onde de onde conhecia aquele nome.
- Espere... Evan não é o namorado de Hollie? Encontrei com ela hoje, parecia ser uma boa pessoa. Bem... receptiva.
- Ele mesmo.
- Hm... Bem, acho melhor ir secar o cabelo antes que pegue algum resfriado. Volto em alguns minutos.
- Certo.
Evan? O mesmo garoto da cafeteria, que ficara me encarando e fora estúpido mais cedo, queria manter distância de mim. Mas por quê? Por que sentia nojo de quem eu era? O que eu tinha de tão errado assim?
Espere. Por que estou pensando desse jeito? Eu devia parar, realmente. Ele era bonito, mas eu me recusava a viver mais um clichê de garota comum atraída por popular. Não gostava de clichês, embora admitisse ser um. Logo meu cabelo estava seco, penteei-me e então saí para conversar com Sophie, que ainda se encontrava no quarto.
A garota estava deitada na cama com os fones de ouvidos conectados ao celular, lendo uma revista exageradamente colorida sobre moda. Fala sério, moda?
- Sophie? - chamei. Ela levantou os olhos da revista, sentou-se e tirou os fones.
- Ei! E então, como foi seu primeiro dia sem fazer nada na ILL?
- Interessante. Sem dúvida diferente. Peculiar. Uma dúzia de palavras semelhantes a essas. Foi diferente da minha vida anterior. - Ela empalideceu.
- Sua... Vida anterior?
- Ahn, sim... - Isso era estranho. - Onde eu morava. Cameron Bay. Com minha irmã e meu pai.
- E isso foi... em... que século?
- XXI. Do que você está falando? - Ela estava me deixando confusa. Sua cor foi voltando aos poucos. - Meu Deus, Sophie, você está pálida.
- Estou bem, desculpe. - Ela deu um risinho amarelado. - Pensei ter visto uma aranha atrás de você, mas não era nada. Sabe, aracnofobia. Então... conte-me um pouco mais sobre você.
- O que gostaria de saber?
- Como era essa sua "vida anterior"?
- Minha mãe morreu quando eu tinha 12 anos, e desde então, eu vinha levando a família nas costas, cuidando da minha irmã e do meu pai, que era viciado em álcool. Infelizmente, ele também morreu, nossa guarda ficou com meu tio, e foi aí que eu vim parar aqui.
- Uau. Você sente falta deles?
- Sinto. Mas, sabe, acho que tudo acontece por uma razão. - Eu tentava ser a mais direta possível quando falava desse assunto, mas às vezes não ajudava muito. Odiava com todas as forças falar sobre isso, pois me fazia parecer fraca e indefesa. Mas era necessário, em parte. Não adianta passar a vida fingindo que não aconteceu. Uma hora, a ficha cai. - Talvez a hora deles tenha chegado.
- Ah, não fique assim! Desculpe, eu e minha curiosidade. - Ela aproximou-se de mim e me abraçou. Seu perfume tinha um cheiro cítrico. - E, sei sim. Também acredito nisso. Desculpe por perguntar. De verdade.
- Tudo bem. Não estou chorando nem nada. - Sorri. Sophie me soltou. Levantei e me aproximei da janela. Podia ver uma pequena parte do pátio da escola. Não conseguíamos enxergar os outros dormitórios, pois a posição do nosso quarto não permitia isso. Mas ainda assim, via um gramado não muito grande, mas que aparentemente fazia a volta no prédio. Não nevava, mas garoava preguiçosamente. Estava frio do lado de fora. - Posso perguntar sobre a sua vida?
- Minha vida é bem comum. Nasci em Faint Ville. Nunca me mudei. Morava com meus pais. Mas então eles me colocaram aqui, para um melhor estudo.
- Quem dera ter uma vida tranquila assim. - Comentei.
- Ah, não. Você não iria gostar de viver minha vida.
- Por que não?
- Bem... todos temos coisas que preferimos não espalhar. Segredos, talvez?
- Você tem?
- Todos temos. Você também. - Ela me respondeu.
- Talvez. Nunca parei para pensar nisso. - Falei. Mas eu havia pensado, sim. Quando eu tinha cerca de 10 anos... não importa. Me chamariam de louca.
- Então sim, eu tenho. Mas não posso lhe contar. Só afirmo que sua vida com certeza é muito melhor que a minha.
- Como pode ter tanta certeza?
- Eu apenas sei.
- Ok.
Sophie já estava de volta em sua cama. Eu também havia voltado para minha. Peguei meu celular, meu notebook, as fichas de inscrição para as atividades extracurriculares e uma caneta e então acomodei-me debaixo do cobertor.
- Sophie?
- Sim?
- Você faz alguma atividade extracurricular?
- Aham.
- Qual?
- Dança. Jazz.
- Sério?
- É, por que a pergunta?
- Bem... estive pensando em me inscrever no jazz também. Eu já fiz antes, mas parei quando aquele acidente com minha mãe aconteceu.
- Jura? Caramba, seria o máximo ter uma amiga lá! - Ela parecia animada com a ideia. - Digo, isso se ficarmos na mesma turma. Mas como você disse que já foi bailarina antes...
- Então, você sabe para quem devo entregar a inscrição?
- Você pode entregar para a Srta. Lynn, amanhã. Ela é a melhor coreógrafa e professora que já conheci. Uma das professoras mais prestigiadas da Faint Ville.
- Muitas amigas suas participam?
- Na verdade, eu não tenho muitas amigas. As garotas daqui são tão fúteis.
- Então, sobre aquela revista de moda que você estava lendo antes... - Comentei
- Qual é, você não acha mesmo que eu gosto daquilo, acha? Pra mim é só uma maneira de analisar melhor os pensamentos dos outros. Como eles preferem se deixar manipular pela mídia e pelo que ela impõe ao invés de serem eles mesmos. Mas não posso julgar quem gosta. Alguns looks são bem bonitinhos.
- Bom conhecer alguém que pense parecido. Ah, e, estive dando uma olhada em seu horário enquanto estava fora. Aparentemente seremos colegas. - Disse, apontando para seu mural. Ela deixava os lembretes ali, junto com um monte de fotos que pareciam antigas.
- Espero que goste daqui. - Ela sorriu.
- Já estou gostando. A propósito, você é bem legal.
- Você também.
Busquei meu notebook e conectei a internet da escola. Possuíamos internet liberada para usar em pesquisas para a escola ou simplesmente passar o tempo. Havia um novo e-mail do tio John.

Nick,
Espero que seu primeiro dia tenha sido bom. Conseguiu organizar-se tranquilamente? Como está Sarah? Tudo bem com vocês? Aguardo notícias suas e de sua irmã.
P.S.: Amanhã, escreva-me cedo para contar como foi o primeiro dia de aula.
Com carinho, John.
Cliquei em responder, e logo já havia formulado uma resposta boa o bastante.
Olá, tio! O dia hoje foi tranquilo. Eu e Sarah estamos bem, devidamente instaladas em nossos respectivos quartos. Também estou ansiosa para minha primeira aula.
Obrigada por tudo.
Nicole.
Quando notei, passavam das 22hs. Sophie já estava dormindo, mas havia deixado o notebook ligado em cima da mesa. Levantei da cama e aproximei-me para desligar. Foi quando reparei em uma foto do seu mural. Uma foto não tão antiga. No centro, estavam ela, Evan e Hollie sorrindo, em um jardim em algum lugar do mundo. Pareciam ser bons amigos. Ignorei isso e comecei a observar as outras fotos. Eram fotos que Sophie havia tirado, de flores, paisagens, objetos, amigos... E parei na foto de um homem. Ele estava de costas, com as grandes asas negras abertas. Perguntei-me quem seria e por que Sophie o havia fotografado. Talvez em algum Halloween, mas não pareciam ser asas falsas. Pareciam de fato reais.  
- Nick?
- Sophie! Cara, você me assustou.
- O que está fazendo?
- Seu notebook. Você o deixou ligado, e como não queria lhe acordar eu vim...
- Você nem tocou nele.
- É, parei para observar as fotos. Aliás, você fotografa muito bem.
- Obrigada. Pode deixar que eu desligo. - Ela sorriu, esfregando os olhos.
- Certo.
Então, larguei meu próprio computador no lugar, escovei os dentes, e voltei para baixo dos cobertores, ainda intrigada com a foto, mas dizendo a mim mesma que tudo aquilo não passava de um simples truque de fotografia. Quem não sabe mexer no photoshop hoje em dia?