CAPÍTULO 2 - Nicole


O corpo estava estirado no meio da rua e eu me perguntava o que havia acontecido. Não podia ser ele. Simplesmente não podia. Mas era. Seus olhos estavam fechados e a cabeça apoiada no meio fio. Os paramédicos traziam a maca. Havia sangue.
Mais adiante, outros médicos trabalhavam para colocar o homem que o havia atropelado na ambulância. Eu queria gritar. Queria fazer algo para que ele ficasse bem. Um dos policiais me conduziu para um banco na calçada, próximo ao local, e tentou explicar o que aconteceu. Aparentemente, meu pai iria atravessar a rua, quando viu um carro se aproximando e simplesmente ficou parado ali. No meio da avenida. Esperando. E o motorista não o vira por causa da neve. Segundo as testemunhas, ele estava em alta velocidade, mas meu pai teria tempo o suficiente para sair dali. Ele me perguntou se eu estava bem, e eu lhe disse que sim, mas não era verdade. Era nítido que meu pai havia tentado se matar.
E então comentei com ele sobre Sarah, e que precisava buscá-la em casa antes de irmos ao hospital. Nesse meio tempo, já estavam colocando papai na ambulância. Ele ofereceu carona e me levou até em casa.
Desci do carro após alguns minutos e chamei por Sarah. Ela demorou um tempo para atender a porta.
- Nick? O que houve? - Ela perguntou. Engoli em seco. - Onde está o papai?
- Sarah, precisamos ir até o hospital. Aconteceu um acidente.
Ela me olhou diretamente nos olhos e deixou que lágrimas escorressem por seu rosto. Correu para dentro de casa, buscou sua bolsa e foi comigo para a viatura. Demoramos um pouco até chegar no hospital, afinal, ele ficava há alguns quilômetros de casa. Sarah não chorava mais, mas pude ver que estava profundamente abalada. Mais uma vez.
- Ei - chamei - Vai ficar tudo bem.
- Foi o que você disse da última vez.
- Olhe, eu também estou triste. Mas não estou descontando em você.
- Nicole, pare. Por favor. Eu não tenho mais 5 anos, sei bem o que está acontecendo.
- Desculpe. Só queria ajudar. Você não é a única que tem problemas. - Respondi.
Ficamos em silêncio o resto do caminho. Quando chegamos lá, uma enfermeira nos informou que ele estava em cirurgia, e deveríamos esperar na sala de espera, um cubículo com paredes verdes, sofás brancos e uma mesinha de centro cheia de jornais e revistas. Ficamos ali por meia hora. Lemos, conversamos sobre como havia sido nosso dia e por fim, nos calamos. Até que um médico vestido de branco da cabeça aos pés veio até nós.
- Vocês são as filhas de James Reynolds?
- Sim. - Eu e Sarah falamos ao mesmo tempo.
- Bem... Imagino que isso não seja fácil. Onde está a mãe de vocês?
- Ela morreu há 4 anos. - Falei.
- Oh. Sinto informar-lhes, mas, seu pai não... não resistiu a cirurgia. Ele sofreu uma parada cardíaca durante o processo e não conseguimos reanimá-lo. De qualquer forma, ele bateu a cabeça no chão e havia um coágulo quase irreparável em seu cérebro.
Sarah escorou a cabeça nos joelhos e começou a chorar. Eu permaneci imóvel. Olhando para ele. Tudo o que senti foi raiva. Raiva por ele ter-nos abandonado, por ter nos deixado por nossa conta e risco. Por ter feito isso de propósito. Por ter esquecido de que precisávamos de carinho e por ter passado mais tempo em bares do que conosco. E agora desistira de vez. Nos deixara para viver sem nenhum auxílio. Mas afinal, já não estávamos acostumadas? Ele nos deixou. Nos abandonou mais uma vez.
- Vocês teriam algum outro parente próximo para receber a informação e buscá-las? - Ele perguntou. Falava devagar, parecia pensar bem em que palavras usar. Não, nós não tínhamos ninguém. Exceto tio John.
- Não. - Eu disse, por fim. - Não próximo. Temos um tio que mora em Faint Ville. Mas é só. E meu pai não falava com ele há anos.
De fato, o irmão de meu pai, John, morava em Faint Ville. Mas ele havia parado de ligar para meu pai. Aparentemente, se cansara de ouvi-lo reclamar da vida em toda ligação.
- Você tem como dar a notícia a ele? - O médico me perguntou. Assenti e peguei o telefone. Disquei o número, e na terceira chamada, ele atendeu.
- Nicole! A que devo a honra dessa ligação? - Ele parecia animado.
- É sobre meu pai.
- O que houve? Aconteceu alguma coisa?
- Meu pai sofreu um acidente. Ele não resistiu.
- Está brincando, não é?
- Hm, não.
- Ah, Deus. Estou embarcando para Cameron Bay amanhã. Cuidem-se, e não façam nenhuma besteira.
- Espere! - Eu disse pouco antes de ele desligar. O médico indicara o telefone em minha mão. - O Dr. Robins quer falar com você.
Passei o telefone para ele. Dr. Robins dirigiu-se com meu celular para uma sala ao lado dali. Não consegui ouvir o que falavam, mas imaginei que ele estivesse explicando a causa do óbito. Tentei aproximar-me de Sarah. Ela deixou que eu chegasse perto e me abraçou. Chorou em meu colo por um longo tempo, e eu também chorei. Até que decidimos que o melhor a fazer seria ir para casa. Esperei até que Dr. Robins devolvesse meu telefone e voltamos andando. As ruas pareciam todas em silêncio. O sol se punha no horizonte. Era um lindo final de tarde que de alguma forma me fez pensar que nem tudo estava perdido. Não conseguimos fazer praticamente nada quando chegamos em casa. Apenas dormimos, na sala, abraçadas uma a outra, naquele imenso espaço vazio. Não fomos a aula no dia seguinte, e as 11hs da manhã, recebi um telefonema de tio John.
- Sim?
- Oi, Nick. Acabei de chegar no aeroporto, e estou indo de táxi para a casa de vocês. Precisa que eu leve alguma coisa?
Olhei para trás, onde ficava o sofá em que Sarah estava sentada. Ela estava com os olhos inchados. Havia sido uma noite difícil.
- Talvez um calmante. Seria bom.
- Certo. - Ele respondeu. - Logo, logo estarei aí.
E então desligou. Eu ainda estava do mesmo jeito que no dia anterior, então resolvi tomar um banho e colocar uma roupa limpa. Vesti uma calça de moletom e camiseta de manga comprida. A lareira estava acesa, então não fazia frio dentro de casa. Sarah seguiu meu exemplo e logo ficou pronta. Em menos de uma hora, tio John bateu na porta. Trouxera consigo, além da mala, comida e várias embalagens de calmante. Não comíamos nada desde a noite anterior, então estávamos morrendo de fome.
- Olá, meninas. - Ele largou as coisas e nos abraçou. - Como vocês estão?
- Não muito bem. - Respondeu Sarah.
- Foi uma noite difícil. - Completei.
- É, eu imagino. Foi difícil para mim também. Mas não se preocupem, vai dar tudo certo. Já estou organizando o funeral, que será amanhã a tarde. E depois, vocês duas podem ir para Faint Ville comigo.
Gostaria de saber porque todos dizem que tudo vai dar certo no final. Acho que é o que todos acreditam ser certo, mas não faz muito sentido. Quem são essas pessoas para dizer como a vida vai seguir? Decidi não comentar. Sarah sorriu ao ouvir a palavra "Faint Ville". Ela sempre sonhara em conhecer o lugar, assim como eu. Desde pequena fantasiávamos que vivíamos lá, em uma cidade grande e diferente.
- Mas e a escola? - Perguntei. - Não que eu não queira ir, mas, a gente ainda tem aula.
- Minha secretária está preparando a papelada para matricular vocês no colégio interno mais prezado de lá. - Ele piscou para nós. Tio John era empresário. Podia arranjar o que quisesse, a hora que quisesse.
- Por mim tudo bem. - Disse Sarah, já parecendo um pouco mais animada. - Quando a gente parte? Não aguento mais viver nessa casa. Me traz memórias boas, mas ao mesmo me prende ao passado e pelo amor de Deus, eu preciso sair daqui.
- Daqui quatro dias. De acordo?
- Com certeza. - Respondi, e então o abracei.
O resto do dia passou rápido. Assistimos a alguns filmes e fomos dormir cedo. De vez em quando eu acabava deixando algumas lágrimas escorrerem. Não pela morte dele, mas pela situação, pois era como se ele já não estivesse mais ali havia muito tempo. Sarah seguido precisava ir para o quarto chorar. O dia seguinte foi terrível. Acordamos cedo e fomos para a igreja, não muito cheia, mas com bastante conhecidos do meu pai e amigos da família. O padre deu início a cerimônia e eu li um pequeno discurso em homenagem a meu pai. Ele não havia sido um bom pai nos últimos anos, mas antes disso eu nunca tivera do que reclamar. Falei em memória dos bons tempos. Do resto, ninguém precisava saber. Meu consolo foi pensar que estávamos passando por isso porque algo melhor nos aguardava dali para frente.
Sofremos o impacto da perda pelos dias que se seguiram, mas também tivemos tempo para nos livrar de alguns itens. E, no sábado seguinte, seguimos para Faint Ville. Iríamos ficar na casa de tio John por alguns dias, e depois começaríamos a estudar na Instituição Libby Lewis para Meninos e Meninas. Parecia algo "classudo" demais, mas agora viveríamos melhor do que antes. Limpamos nosso quarto, guardamos nossos livros e roupas em bolsas separadas e seguimos em direção ao aeroporto, deixando para trás um lugar onde vivemos grande parte de nossas vidas. Mas precisávamos seguir em frente. E essa foi uma das melhores e piores coisas que aconteceu conosco.
Chegamos no aeroporto de Faint Ville cedo na manhã de domingo. Um carro já estava a nossa espera, e me perguntei se tio John era realmente tão rico assim. O homem que nos esperava segurava uma plaquinha escrita "Sr. Reynolds" e vestia um terno preto, o que me fez pensar que ele era o chofer da família. Uau. Um chofer. Meu tio o cumprimentou e entregou suas malas para ele. O homem esperou que fizéssemos o mesmo, mas insisti em levar as minhas coisas eu mesma. Havia um carro preto nos esperando do lado de fora, e ali embarcamos e fomos direto para a "Mansão Reynolds". Tio John falara sobre ela o voo todo. Era sua mais nova aquisição. Eu e Sarah estávamos ansiosas para conhecer o local. Cada uma de nós teria um quarto para si só.
Enquanto o carro andava, eu observava as paisagens e os tão famosos pontos turísticos da cidade. Os parques e as estátuas que podíamos enxergar de longe. Era tudo mais bonito pessoalmente. Tio John disse que teríamos tempo o suficiente para visitar todos estes lugares. Chegamos em casa rapidamente. Era realmente uma mansão. Era enorme, com lustres de cristal e pratarias enfeitando todo o lugar. Logo ao entrar, devíamos passar pelo salão de entrada, que era enorme, e então, entre o salão e a cozinha, ficava a escada para o segundo andar. Ele tinha empregadas. E pediu para que duas delas nos levassem até nossos quartos. Era tudo maravilhoso.