CAPÍTULO 19 - Evan

Todos os anjos nos aguardavam no campo de batalha e o exército inimigo ainda não estava no local. Bem, não era exatamente um campo de batalha, mas era lá que iríamos lutar. Estávamos todos ali, e lutaríamos pela vida de Nick. E eu faria isso quantas vezes fosse preciso.
Reunira anjos de diversas partes do mundo junto com Ryan, e agora possuíamos um bom número de combatentes. O suficiente para que derrotássemos o exército de Lilith e eu finalmente pudesse ser feliz ao lado de Nick. Todos os anjos compreendiam isso. Todos tinham sua maldição, e a de perde-la vida após vida era a minha. Mas eu cansara disso, e faria o que fosse preciso para que ela permanecesse comigo nessa.
- Isso é lindo. – Disse ela. Não sei como os seres humanos podem nos enxergar como seres celestiais. Somos apenas crias que nem deveriam existir, filhos de um mal que nos causara tudo isso. Mas Nick achava maravilhoso o fato de termos sido amaldiçoados com asas. Eu sorri para ela, mas meu momento de felicidade não durou muito tempo. Havíamos enviado um dos anjos mais rápidos para vigiar a entrada do local e para que nos avisasse a tempo quando eles estivessem vindo. Foi o que ele fez. Um vulto negro aproximou-se rapidamente gritando.
- Eles estão vindo! – Dizia ele.
- Vão. – Falei a Nick e Sophie. – Chamaremos vocês quando a hora chegar.
- Não podemos esperar eles chegarem? – Perguntou Nick. Tão ingênua.
- De maneira alguma. Por favor, Nick, só sigam o combinado. – Delicadamente, estiquei a mão e toquei seu rosto. Um fio de cabelo pairava em frente aos seus belos olhos azuis, então o retirei dali e fiz com que se firmasse atrás de sua orelha. – Amo você. Até breve.
- Até. Também o amo. – Ela falou, e então saiu correndo com Sophie para o local onde seria seu esconderijo.
Eu só conseguia pensar em mantê-la segura. Se pudesse, a guardaria de baixo de minhas asas e a levaria para bem longe dali, de tudo e de todos. Mas eu não podia fazer isso, não com Lilith e Hollie a ameaçando. Ali, ela pelo menos tinha a companhia de Sophie.
O exército dela avançava com rapidez pelo campo aberto. Demônios que nem eu, em todos os meus incontáveis anos de vida, nunca havia visto. Atrás dela, os cadáveres de Sarah, John e Anna, irmã e tios de Nick. Esperava que ela não os visse, mas era impossível evitar. Eu mesmo me desesperei quando vi os olhos azuis de Sarah tomados não por vida, mas pela pura falta dela. Estávamos frente a frente em menos de cinco minutos.
- Uma luta não é necessária. Só nos deem a garota, e então minha querida amiga poderá ter a sua vingança. – Lilith exclamou. Uma velha inimiga, mas com a qual eu nunca entrara em contato direto. Eu a odiava com todas as minhas forças, tanto quanto odiava Hollie por tê-la procurado.
- Acha que eu teria preparado tudo isso se a fosse entregar de bom grado? – Gritei. – Eu jamais faria isso com ela.
- Idiota. – Disse Hollie. – Deixe de besteira. Esqueça ela e volte para o meu lado. Sabe que é a mim que você ama. – Incrível como ela estava cega. Não entendia que o que eu menos queria era ela.
- Eu não amo você, Hollie. Você não passa de uma mimada que se rebela quando não consegue o que quer.
- Você vai voltar para mim, Evan. Quer você queira ou não. Por bem ou por mal. – Ela falou, rindo. Estava completamente louca. Cega pelo ódio e por todo o seu egoísmo.
- Querer é diferente de poder. Eu amo a Nicole. Sempre a amei e sempre irei amar. Você não pode impedir isso.
- Se é o que você acha. – Ela disse. – Esqueça, Lilith. Ele não vai entrega-la. Teremos que buscá-la por conta própria e assim eu darei a ela o destino que merece. Cansei de esperar.
- Muito bem. – Lilith concordou. – Tem certeza, rapaz?
- Absoluta.
- Então acho que não há mais muito tempo a perder.
Ao dizer isso, deu o comando inicial. Seus demônios nos atacaram com todo o armamento e força que possuíam, o que talvez tenha sido um de seus piores erros. Eles logo ficariam sem munição se continuassem a disparar flechas naquela frequência, já que não possuíam muitas. Eu não tinha certeza se demônios conseguiam pensar sem auxílio de alguém superior, e eles claramente não possuíam um. Estavam ali, por conta. Mas os demônios alados, esses eram poderosos. Seu corpo era parecido com o de um humano ou de um anjo, como nós, mas suas asas eram diferentes de uma forma repulsiva. Lembravam asas de morcego.
Logo conseguimos extinguir uma boa parte dos demônios, que não resistiam ao bronze celestial que a maioria dos anjos usava. Minha espada era de prata, e com um simples toque na pele de algum deles, os queimava instantaneamente.
Fui atacado por três pequenos demônios, mas logo os dizimei com a espada. Fiz o mesmo com todos os outros que vieram em seguida. Estes não deixavam rastro de sangue ou qualquer coisa do tipo, mas os demônios alados deixavam. Meus sapatos estavam pintados de vermelho escuro e isso só piorava a medida que os anjos tomavam a frente. Estávamos ganhando.
Lilith estava parada a poucos metros de mim e mantinha sua cobra do lado e Hollie também mantinha-se por perto. Elas não atacavam ninguém, a não ser quando alguém tentava mata-las. Vi três anjos caírem aos seus pés.
- Lilith! – Chamei a atenção dela. – Por que está fazendo isso?
- Ora, não é óbvio? Quando uma amiga pede ajuda, eu irei fazer o possível para ajudá-la. – Ela falou, de maneira desprezível. Seus olhos me encaravam com fúria.
- É tão difícil tentar fazer o certo ao menos uma vez na sua eternidade? – A desafiei e ela silvou. Assim como uma cobra, possuía a língua bifurcada.
- Eu estou fazendo o certo, meu bem. O certo para Hollie. Ela me procurou, desesperada, uma noite, por causa de você e dessa sua namoradinha. Eu entendo o que ela está passando. Foi exatamente assim. Adão me trocando por Eva. Uma fica de lado, apenas porque a outra não lhe serve mais.
- Você sabe que não foi assim que aconteceu.
- Você a magoou profundamente, Evan, e eu jurei que traria vingança a todas as garotas que me procurassem. Desde o princípio, é o que eu faço e continuarei fazendo. Continuarei fazendo justiça por elas. – Ela riu.
- Você é louca. Você e Hollie. Não consigo entender como duas pessoas conseguem ser tão egoístas a este ponto.
- Egoísta? Eu? Se eu fosse egoísta não estaria aqui. Deixaria que ela ficasse ao relento, sozinha e desamparada. Eu a acolhi, Evan, a acolhi quando você a jogou fora.
- Eu jamais fiz isso. Jamais foi com o intuito de magoa-la. Se ela não queria ter me perdido, não devia ter feito o que fez.
- Homens! São todos iguais. Cansei de você, garoto. – Ela fez um gesto indicando que eu me afastasse, mas eu não me afastei. Com a espada na mão direita, dei o primeiro golpe.
Lilith segurava um bastão, e devido a seus reflexos conseguiu impedir que meu golpe a atingisse.
- Como ousa? – Sua voz mudara e a temperatura em volta dela esfriou. – Você desafiou a Lilith, garoto. E ninguém deve fazer isso.
Tirando uma adaga de algum lugar de seu vestido, ela atacou com a outra mão e conseguiu desferir um golpe em minha perna, local onde a armadura possuía uma brecha. Senti o sangue escorrer pela parte inferior de meu corpo e a golpeei logo acima da cintura, mas fracassei ao acertar. Ela era boa e seus reflexos para defesa eram excepcionais. Girei para a direita e tentei mais uma vez, com sucesso. Acertei a parte do seu antebraço, fazendo jorrar um líquido negro. Ela grunhiu de raiva e em seguida silvou novamente. Estava falando com a cobra.
- Sinto muito por isso. – Ela disse. – Mas já vai passar. Você vai ver.
Ao longe, ouvi a voz de Nick. Mas não tinha certeza. Precisava me defender da cobra antes que ela conseguisse me envenenar. Era isso que ela queria. Golpeei o ar no momento em que a cobra deu o bote e consegui fazer um pequeno corte em sua pele. Ela agia como louca, em uma velocidade imprescindível. De repente, tudo a minha volta passou a acontecer em câmera lenta. Balancei a cabeça rapidamente e tentei pressionar meus olhos com força. Não adiantava. A cobra me mordera.
Segundos depois, Lilith tentou me atacar de novo e meus reflexos voltaram a agir. Minha visão estava embaçada, mas tive certeza de que Hollie corria em minha direção.
- Evan! – Gritava ela. – Evan!
Eu não entendia o porquê. Dei as costas a Lilith, que parou de lutar. Estava atordoado.
- Afaste-se de mim. – Eu disse.
- O quê? Evan...
- Vá embora! –Gritei. – Eu odeio você, não quero vê-la nunca mais. Eu poderia matá-la! Olhe o que você causou. É tudo culpa sua!
Ela tentava se aproximar de mim e chorava.
- Evan, por favor, escute... – Chegava mais perto. – Eu preciso...
Estava a pelo menos dois passos de mim. Eu precisava acabar com isso logo, ou então ela faria algo que me distrairia e eu acabaria sendo morto por Lilith, se é que ela mesma não estivesse tramando algo contra mim. Eu duvidava disso, mas vi que segurava a adaga em uma das mãos. A ataquei com a espada, fazendo com que ela transpassasse sua barriga.
- Eu avisei. – Falei. E puxei a espada.
Seu corpo caiu no chão, sem qualquer outro resquício de vida. E então minha visão começou a voltar ao normal. Pude notar os cabelos louros e ensanguentados aos meus pés. A fisionomia, que não era a de Hollie. Eu havia atingido Nick. Mais uma vez, eu matara a pessoa que mais amava.
Não consigo colocar em palavras o tamanho desespero que me atingiu. Aquilo não podia estar acontecendo. Desejei mil vezes para que ainda estivéssemos na noite anterior e tudo não passasse de um pesadelo. Mas era real, e eu sabia disso. A culpa dessa vez foi maior que a das outras. Eu havia dado esperanças a ela, eu armara uma batalha planejando salvá-la.
Meus olhos estavam cheios de lágrimas. Mas eu não iria chorar agora. Eu teria minha vingança. Recolhi sua adaga do chão.
A verdadeira Hollie aproximou-se de mim, rindo e saltitante. Lilith sumira.
- Está vendo? Eu disse que nosso destino era ficarmos juntos. – Ela falou, chegando perto de mim e me abraçando. Eu não me mexi. – Sinto muito pelo que aconteceu com ela. – Hollie fez uma espécie de beicinho.
- Ok.
- O que? Ok? Ah, qual é!? Evan, agora poderemos ficar juntos de novo. Podemos ficar juntos para sempre, meu amor!
- Você ainda não se desculpou, Hollie. – Eu disse.
- Ah! É por isso que está com essa cara? – Ela riu. – Não seja bobo! Mas tudo bem, eu peço desculpas. Peço quantas vezes for preciso, desde que no fim...
- Fiquemos juntos?
- Isso! Desculpe, meu amor. Eu sinto muito por isso tudo. Talvez eu não devesse ter exagerado tanto, mas ela bem que mereceu.
- É.
- Estou perdoada? – Ela pendurava-se em meu pescoço.
- Não. – Respondi, e cravei Destinantur em seu coração. A deixei ali, sem fazer a menor menção de que voltaria para buscar. E não senti nada se não alívio quando o fiz. Seus olhos, surpresos com a minha resposta e com a minha atitude, perderam o brilho rapidamente. Sua boca ficara entreaberta com palavras e mentiras que ela jamais diria.
Com seu corpo já no chão, fui atrás de Lilith. Ela estava com Sophie e as duas lutavam contra os anjos, dizimando um grande número deles. Então isso era o que Nick vinha me dizer.
Corri em direção a elas, atacando qualquer demônio que se colocava em meu caminho. Sendo poderosa ou não, mesmo estando machucado, eu acabaria com a vida dela. Das duas. Sophie fora uma das pessoas em que eu mais depositara a confiança e ela quebrou tudo isso.
Abri minhas asas e voei. Voei o mais rápido que conseguia para chegar até elas imediatamente. Lilith não vira que eu estava por cima, então simplesmente parei um pouco atrás do local onde ela estava. Desci o mais rápido o possível e a ataquei pelas costas. Eu não ligava se era desonroso. Ela merecia, por tudo o que tivera feito. Sabia que ela não morreria. Apenas ficaria fora por uns tempos, e talvez, dentro de um século ou dois, retornasse. Mas eu precisava fazer com que ela sentisse toda a dor que me fez sentir. A espada atravessou seu corpo sem armadura facilmente. Ela foi surpreendida, e em poucos segundos não conseguia mais ouvir a sua respiração. Aquilo o que ela chamava de coração parara de bater. Lilith estava morta.
Um anjo que lutava com Sophie imediatamente conseguiu matá-la. Todo o seu poder vinha de Lilith, e não de outras gerações de sua família. Eu não conseguia conter minha raiva.
Ao perceberem que ninguém mais os liderava e clamava por eles, todos os demônios, um por um, se retiraram dali. Os que não fugiram, foram mortos pelos anjos. E toda a batalha estava encerrada.
***
Inúmeros anjos haviam deixado nosso mundo devido ao contato com alguma espécie de veneno que Lilith fizera seus demônios utilizarem e que era letal para todos nós. Ryan fora um deles. Eu não chorava somente a morte de Nick, como também a de vários outros bons amigos que tinha nesse mundo. Mas eu sabia que eles voltariam. Talvez sem lembrar de quem eu fui, mas voltariam. E eu os veria novamente algum dia. Esperava que sim.
Outra vez, o ciclo se completara. Mais tarde, descobri que fora o último. A sétima vida de Nick desde a maldição, e a última vez que eu teria que passar por isso. Não precisaria mais aguentar a culpa de perder quem mais amava sem poder fazer absolutamente nada. Nick, desta vez, renasceria e viveria comigo por quanto tempo fosse necessário. Sem nada para atrapalhar. Sem mortes. Sem brigas. A maldição fora quebrada. Poderíamos ser felizes pelo tempo que o mundo permitisse.