CAPÍTULO 18 - Nicole

Fui acordada as 8h da manhã com Evan batendo na porta do quarto. Sophie estava dormindo na cama ao lado, mas sequer ouviu o garoto, o que foi um dos pontos estranhos da manhã. Ela estava sempre alerta a tudo o que acontecia ao seu redor, mesmo dormindo.
Destranquei a porta e Evan entrou. Assim como nós, não tinha ido a aula. Minha desculpa havia sido de que estava me sentindo indisposta devido a tudo o que acontecera nas últimas semanas. Mas o pior ainda estava por vir, e viria antes do que eu imaginava.
- Bom dia, meu amor. – Ele falou, me olhando carinhosamente e beijou-me nos lábios.
- Bom dia. – Respondi.
- Estou preocupado com você. – Ele sentou na cama ao meu lado. Sophie continuava dormindo. – Como está se sentindo?
- Tudo bem. E com você? – Perguntei. – Parece tenso.
- Eu estou. Temo que algo possa acontecer a qualquer um de nós hoje. – Evan suspirou – e o que eu menos quero é vê-la machucada de novo.
- Não vai acontecer nada, você sabe disso. Estou preparada.
Havíamos combinado que seguiríamos o plano anterior. Assim que nos chamassem do esconderijo, eu e Sophie iriamos ao campo de batalha e daríamos um fim nas duas por nós mesmas. Bem, tentaríamos. Os garotos, com mais poderes e experiência as prejudicariam um pouco antes que pudéssemos mata-las. Mas havíamos aprimorado nossas habilidades, de qualquer maneira. Uma evolução impressionante, segundo Evan, que nos acompanhara desde o começo.
Eu estava insegura comigo mesma, mas algo me dizia que eu devia manter a fé. Que eu devia seguir e encarar o dia de hoje com a cabeça erguida. Por Sarah, Tio John e Anna. Por meus pais. Pela vida que eu esperava ter e pelas chances que eu ainda tinha.
- Eu sei que sim. Acredito em você.
Eu sorri. Estava estranhamente calma. Como se nada fosse acontecer e aquele fosse um dia qualquer, comum, no meio da semana. Infelizmente, não era. Peguei-me pensando que, caso eu não houvesse vindo para Faint Ville, tudo isso poderia ter sido evitado. Eu não iria interferir na vida de qualquer pessoa. Não conheceria Hollie nem Sophie, nem qualquer outra pessoa. Levaria a vida como sempre levei, batalhando pelo que queria. Talvez, Tio John e Anna ainda estivessem vivos. Sarah com certeza estaria.
Mas eu não conheceria Evan. E eu o amava mais do que qualquer coisa no Universo.
E tinha certeza que ele me amava também.
- Nick, eu estive pensando... depois que tudo isso acabar... talvez eu possa dar um jeito de torna-la imortal. Assim como eu. Eu sei que é uma proposta egoísta, ver todos morrerem a sua volta e continuar ali. Pedir para que você faça isso também... por isso não estou pedindo. Mas é uma proposta, então, se você quiser... – Evan disse, timidamente. Parecia com medo da minha resposta.
- Como é ser imortal? – Perguntei.
- Bem, é igual a viver. Mas você verá mais coisas. Vivenciará os mais diversos tipo de cenas. E sabe, as pessoas tem uma ideia errada sobre a imortalidade. Não significa que nunca morreremos. Significa que nossa alma apenas tem planos de permanecer mais tempo nesse corpo. As dores são as mesmas. Os sentimentos são exatamente iguais. E, você não tem necessariamente que viver 1000 anos, ou mais do que isso. Você não escolhe quanto tempo o seu para sempre vai durar, mas ele acaba. Quando seu momento chegar.
Talvez, viver eternamente não fosse algo tão ruim assim. É claro que nunca há um “felizes para sempre”. Mas deve haver muito mais do que isso. Pensei no tamanho conhecimento que poderia adquirir. Nas coisas incríveis que poderia ver. E mesmo assim, o para sempre, em algum momento, tem um fim. Eu iria alcançar a morte. Todos iríamos. Apenas levaríamos mais tempo que os outros.
- Seria incrível.
- O quê?
- Poder viver em tantas épocas diferentes. Sempre tive a curiosidade de saber o que estará acontecendo daqui 100 ou 200 anos. Vivenciar isso tudo... acho que não é má ideia. Eu gostaria.
- E todos a sua volta? – Ele perguntou.
- Como quem? Eu já não tenho mais ninguém. Você é a única pessoa que me resta. Você e Sophie.
- Tem certeza que é isso o que quer?
- Eu acho que sim. Podemos conversar sobre isso depois que tudo acabar?
- É claro que sim. – Evan disse. Sophie começou a remexer-se na cama ao lado e ele se levantou. – Acho melhor eu ir.
- Tudo bem. Depois a gente se encontra para tomar café.
- Isso. – Ele me beijou mais uma vez. – E lembre-se: eu te amo. Mais do que tudo. – Ele segurava meu rosto entre suas mãos.
- Também amo você, Evan. – Respondi. – Mais do que qualquer coisa.
Alguns minutos após ele ter saído do quarto, Sophie acordou. Parecia meio atordoada, mas não a podia culpar. O dia já devia manter clima pesado por si só.
- Bom dia – falei.
- Bom dia, Nick. – Disse ela ao sentar-se na cama. – Ai, meu Deus. É hoje.
- Pois é. – Concordei. – É melhor você se vestir. Já são 9h30min e os garotos querem ir tomar café antes de... terminarmos de nos preparar.
- Certo.
Ela, então, levantou da cama e dirigiu-se ao banheiro. Tomou um banho enquanto eu terminava de me arrumar, e em pouco tempo ambas estávamos prontas para ir até a cozinha do segundo andar. Ryan também estava lá, bem como outros dois rapazes que não conhecíamos. Tudo levava a crer que eram outros anjos, nefilins, filhos de anjos caídos. Não tivemos muito tempo para nos apresentar.
A manhã passou extremamente rápido, e as 12h em ponto, todos os materiais que precisaríamos estavam separados. Eu estava com a minha adaga e Sophie com a dela. Evan possuía uma espada de prata. O cabo era de bronze celestial e possuía alguns detalhes que não identifiquei, mas pareciam com cenas de batalha gravadas minuciosamente e com um extremo cuidado. Discretamente, juntamos nossas coisas e seguimos para lá. A hora estava chegando.
***
O exército inimigo não estava lá ainda, mas o que vi quando cheguei ao local foi uma das coisas mais espetaculares que já havia visto e que qualquer ser humano poderia presenciar. Centenas de anjos com enormes asas, negras e cinzentas, encontravam-se lá. Supreendentemente, não mantinham uma aura de pecado e coisas ruins. Sentia-me extremamente bem estando perto deles.
Se observasse mais ao longe, era como se uma luz dourada pairasse sobre eles. Todos eles eram bons, embora as atitudes de seus pais não compensassem em nada. Nasceram do pecado e aprenderam que somente o bem prevaleceria. Não havia necessidade de uma vida amargurada, embora todos pagassem por existir.
Estavam ali, dispostos a ajudar. E ajudariam. Todos lutariam para que Evan fosse feliz, para que eu continuasse viva. Estavam ali por minha causa. Por nossa causa.
- Isso é lindo. – Exclamei. A atmosfera era pacífica e eles não lutariam caso não fosse preciso. Me senti muito bem, mas ainda estava um pouco perturbada em saber que em breve os outros poderiam acabar com tudo isso.
Cada anjo possuía em seu rosto um sorriso acolhedor. “Vamos lutar por você”, me disseram. E eu disse que lutaria junto.
Logo, um vulto no céu juntou-se aos outros.
- Eles estão vindo! – Gritava o garoto. Não devia ter mais de 15 anos, mas voava com destreza e eu tinha certeza de que daria o seu melhor. Sabia que todos dariam. 
- Vão. – Disse Evan a mim e a Sophie. – Chamaremos vocês quando a hora chegar.
- Não podemos esperar eles chegarem? – Questionei.
- De maneira alguma. Por favor, Nick, só sigam o combinado. – Ele colocou meu cabelo para trás da orelha. – Amo você. Até breve.
- Até. Também o amo. – Falei.
Sophie me pegou pela mão, e juntas corremos em direção as árvores onde ficaríamos escondidas. Ao longe, em meio as conversas que se seguiam no exército dos anjos, pude ouvir o barulho de outra tropa marchando. Era um barulho ensurdecedor. O barulho de armaduras misturado ao barulho gutural de outros animais ou demônios, o que quer que fossem.
Toda a atmosfera que antes preenchia o ar se dissipou e eles se prepararam para combate. Ouvi o som do bronze das armaduras celestiais ressoar, mas não tive tempo de olhar para trás.
 Nós corremos até que finalmente encontramos o local. Subimos em cima de uma árvore para que pudéssemos olhar melhor, mas permanecemos de uma maneira que não conseguíssemos ser avistadas por ninguém. Somente Evan e Ryan sabiam de nosso paradeiro.
Ao longe, consegui ver o exército de Lilith. Ela não mentira ao dar detalhes sobre o quão grande ele seria. Com toda certeza, pelo menos o dobro do nosso. Mas algo me dizia que ganharíamos. Iríamos conseguir. Tudo pelo que os outros lutavam vinha de justificativas egoístas, e isso não é o suficiente. Não é uma boa motivação para vencer uma batalha.
Lilith e Hollie podiam ser avistadas em frente a todos eles. Demônios como o que havia matado Sarah, entre outros seres alados tenebrosos. Uma cobra andava ao lado da mulher, e atrás delas, três seres que não conseguira identificar a princípio. Vestiam roupas vermelhas, lembrando do quão poderosas as duas eram juntas. Tudo o que Lilith precisava era o ódio de Hollie para conseguir triunfar. O ódio que ela nutria por mim.
Os dois exércitos estavam frente a frente. Ambos em posição de ataque. Lilith deu alguns passos à frente com Hollie ao seu lado.
- Uma luta não é necessária. Só nos deem a garota, e então minha querida amiga poderá ter a sua vingança. – Lilith exclamou. Sua voz impunha respeito e seu rosto era sério. Não era mais apenas uma teoria. Eles estavam ali, e o que tivesse que acontecer, aconteceria.
- Acha que eu teria preparado tudo isso se a fosse entregar de bom grado? – Evan gritou. – Eu jamais faria isso com ela.
- Idiota. – Disse Hollie. – Deixe de besteira. Esqueça ela e volte para o meu lado. Sabe que é a mim que você ama.
- Eu não amo você, Hollie. Você não passa de uma mimada que se rebela quando não consegue o que quer.
- Você vai voltar para mim, Evan. Quer você queira ou não. Por bem ou por mal. – Ela falou, rindo. Estava louca e isso era nítido. Cega pelo ódio e pelo que acreditava ser amor.
- Querer é diferente de poder. Eu amo a Nicole. Sempre a amei e sempre irei amar. Você não pode impedir isso.
- Se é o que você acha. – Ela disse. – Esqueça, Lilith. Ele não vai entrega-la. Teremos que buscá-la por conta própria e assim eu darei a ela o destino que merece. Cansei de esperar.
- Muito bem. – Lilith concordou. – Tem certeza, rapaz?
- Absoluta.
- Então acho que não há mais muito tempo a perder.
Ao dizer isso, Lilith deu o comando inicial. Anjos e demônios entraram em combate. Hollie e ela também erguiam espadas e lutavam contra os anjos. Podia escutar de longe o barulho de aço contra aço, os gritos dos feridos e a recua daqueles que já não podiam mais.
Os seres antes não identificados atrás das duas, revelaram-se como zumbis. Três zumbis. Foi um dos piores momentos da minha vida perceber que minha irmã, meu tio e Anna haviam deixado seus corpos para que fossem usados de tal forma. Suas faces não possuíam o menor resquício de vida, mas atacavam ferozmente a quem conseguissem. Sabia que era essa a surpresa que tinham para mim. Queriam me atacar usando aquilo que eu mais amava, colocando minha própria família contra mim. Como se já não fosse ruim o bastante. Fiquei surpresa ao perceber a que ponto a vingança de Hollie poderia chegar.
- Meu Deus. – Falei.
- O que foi?
- Eles estão usando tio John, Anna e Sarah.
- Uma ideia incrível, você não acha?
- O que?
- Usar eles. Sabia que deixaria você atordoada.
- Do que você está falando, Sophie?
Virei-me para ela, sentada num galho um pouco mais atrás do meu. Esboçava um sorriso maligno e seus olhos eram maldade pura. Estaria ela possuída?
- O que está acontecendo com você? Sophie, você está bem?
- Ah, querida Nick. Tão doce, tão ingênua, tão inocente. Não acredito que foi tão tonta. – Eu já não entendia mais nada. – Caiu exatamente do jeito que imaginei que seria.
- O que...
- Sendo tão inteligente, imaginei que a essa altura já teria entendido. – Ela me interrompeu. É claro que eu havia notado. Só não queria aceitar que essa fosse a verdade.
- Como você pode?
- Que frase mais cliché! Foi bem simples, não é? Estava tudo planejado. Desde o dia em que você simplesmente se irritou e colocou a boca na Hollie. Ela é minha amiga, o que estava pensando? Achando que seria melhor que ela algum dia? Que conseguiria tudo do seu jeitinho agindo como a vítima da história toda?
- Eu não consigo acreditar. Eu confiei em você.
- Que peninha.
- Você era minha melhor amiga.
- Hollie é a minha melhor amiga. E a única. E pelos amigos a gente faz o que pode.
- Você me traiu.
- E daí? Você nos traiu primeiro. Se tivesse ficado no seu cantinho nada disso estaria acontecendo.
- Está me dizendo que nada do que me disse era real? Você nunca gostou de mim? – Meus olhos se enxiam d’água. Mas não era tristeza. Era raiva. Eu tremia.
- Eu até poderia ter gostado no começo. Mas logo notei o quão egoísta você foi. Ridícula. Eu jamais seria amiga de uma pessoa como você. – Ela sacou sua adaga. – Agora, acho melhor descermos da árvore e começar a andar até Lilith.
- Você era quem contava os planos para eles.
- Desça. – Ela ordenou.
Eu desci da árvore com ela em meu encalço, mas não dei nenhum outro passo sequer. Coloquei minha mão na adaga em que tinha no bolso. A que a própria Sophie me dera.
- O que está fazendo? – Antes que ela pudesse terminar a frase, saquei a adaga e a atingi no rosto, fazendo um corte profundo na bochecha. Ela caiu no chão com o impacto do meu joelho em sua barriga. Não conseguia respirar.
Meu único pensamento era o de que eu precisava encontrar Evan no meio de toda aquela multidão. Corri, seguindo o caminho inverso ao qual fizéramos minutos antes. Ao aproximar-me do local, pude notar que todos os anjos tinham pelo menos dois adversários, mas muitos corpos jaziam no chão, formando gigantescas poças de sangue escuro. Nem mesmo imortais resistem a prata, ouro ou bronze celestial. Eu segurava minha adaga com tanta força que já sentia como se ela estivesse se tornando uma parte de mim.
Tentei desviar dos corpos, mas era quase uma missão impossível evitar pisoteá-los. Assim como haviam demônios, muitos anjos já haviam falecido e encontravam-se agora em um estado que não gostaria de ver nenhuma pessoa sequer. Concluí que anjos eram mais piedosos ao matar.
Vários demônios tentaram me atingir de alguma maneira, mas a maior parte deles estava concentrada na luta com os anjos. Caí por cima de um corpo e me assustei ao notar os olhos azuis de Sarah me encarando. Ou ao que um dia fora minha irmã. Logo levantei e continuei correndo para onde devia ir, tentando enxergar entre sangue, penas, vultos e a minha própria visão, que estava extremamente embaçada devido às lágrimas que se formavam em meus olhos. Eu estava em pânico.
Finalmente avistei Evan. Estava perto de Lilith, lutava com ela. Ao seu lado, estava a cobra. A maldita cobra.
- Evan! – Gritei enquanto me aproximava. – Evan!
Ele virou-se para mim. Parecia atordoado. Seu olhar estava perdido. Parou de lutar e Lilith simplesmente o ignorou. Ficou parada, olhando para mim com um sorriso no rosto.
- Afaste-se de mim. – Ele disse.
- O quê? Evan...
- Vá embora! – Ele gritou. – Eu odeio você, não quero vê-la nunca mais. Eu poderia matá-la! Olhe o que você causou. É tudo culpa sua!
Eu estava confusa. Tentava me aproximar dele.
- Evan, por favor, escute... – Cheguei mais perto. – Eu preciso...
Estava a dois passos dele. Fui interrompida por uma dor lancinante na barriga, e ao tocar o local, senti o sangue quente escorrer entre meus dedos. Olhei para baixo. Era a mão de Evan que segurava a espada que havia transpassado o meu corpo. Pude ver seus olhos mais uma vez. Eram frios e cheios de ódio. Todo o calor que emanara deles havia sumido quase completamente. 
- Eu avisei. – Ele disse. E puxou a espada. Caí de joelhos no chão, e enfim, mergulhei na escuridão.
Sim, ele havia avisado. Havia avisado que poderia me matar tanto quanto qualquer uma das outras. Mas eu não esperava que fosse assim. Então, tudo isso para nada. Eu não resistiria. Sabia disso. Foi aí que percebi até que ponto uma pessoa pode chegar, não por amor, mas por ganância. Por inveja. Para obter o que deseja. Os seres humanos são cruéis, e isso vêm de séculos atrás. Sempre foram.
Evan. Ele não era propriamente um anjo, mas também não era um ser humano por completo. Por causa dele, meu destino tinha os dias contados. Por causa dele, eu morreria e tinha certeza disso. Ele não era Gadrel. Evan era uma sombra daquilo que seus descendentes haviam sido, o resultado de todos os seus feitos, de todos os seus pecados. Era o meu anjo. Jamais seria feliz, pois sua sina o perseguia. De uma forma ou de outra, sempre destinado ao mesmo fim. E eu também. Juntos.

Mas eu o amava. Sabia disso. E esperava, com todas as minhas forças e com toda a minha fé, que um dia nos reencontrássemos.