CAPÍTULO 17 - Nicole

Eu e Sophie voltávamos da aula no dia seguinte quando tudo ficou escuro ao meu redor. Seu rosto, antes claro e ao lado do meu, já não podia ser avistado. Fui tomada por um intenso torpor que fez com que eu ficasse fora de mim por alguns instantes. Caí no chão, mas não foi Sophie quem me ajudou a levantar. Não recebi ajuda, na verdade. Fui praticamente forçada a ficar de joelhos.
- Demonstre respeito à nossa rainha. – Uma voz masculina e rouca exclamou enquanto quatro outras mãos me agarravam, duas em cada braço, e obrigavam-me a ficar de joelhos. Ainda me sentia meio tonta, mas tinha noção do que acontecia ao meu redor.
A minha frente, uma mulher encontrava-se sentada em uma espécie de trono. Seus cabelos eram tão escuros quanto a noite e seus olhos negros como ébano. Ela aparentava, mas eu tinha certeza de que não era humana. Era fria. Intensa.
Do seu lado direito, estava ela. A garota que causara tudo isso. Bem, eu causara tudo isso. Mas era ela quem estava ali. E ao perceber isso, tive certeza de quem estava em frente a mim.
Eram Hollie e Lilith.
Hollie usava um vestido preto e a mulher ao seu lado vestia vermelho. Ambas mantinham um olhar soberbo.
- Obrigada por lembrar à nossa convidada de que deve se portar assim, Karev. – Lilith sorriu friamente para alguém atrás de mim que eu não conseguia ver. Sabia que era o mesmo homem ou demônio que havia falado comigo antes, de quem quer que fosse aquela voz. Ele matara minha irmã.
Tornei a desafiá-la dirigindo meu olhar diretamente aos seus olhos.
- O que estou fazendo aqui? – Questionei. Ela não parecia surpresa.
- Sempre tentando burlar as leis. Pobrezinha. Ainda não entendeu. Mas vou poupá-la de qualquer sofrimento até que sua hora tenha chegado de fato. – Começou ela. – Então, quer saber por que está aqui.
- Foi exatamente o que eu disse. – Estranhamente, não sentia medo naquele momento. Eu sabia que não era real, que ela não poderia me tocar. Eu não estava ali fisicamente e tinha consciência disso. E mesmo se a situação fosse diferente, ela não me assustava.
- Você está aqui somente para que seja alertada. Não seria justo chegarmos com todas as nossas forças com vocês desprevenidos do jeito que têm estado desde... Sempre? – Ela olhou para Hollie como quem questionava e as duas riram. – Ah, coitados. Tão fracos e tão esperançosos.
- Você não sabe o que lhe aguarda. – Eu disse.
- Ah, não? – Ela riu mais uma vez. – Então eu supostamente não deveria saber que há um exército de anjos guardando você? Que um exército de anjos julga ser capaz de atacar o meu?
Eu não sabia o que falar. Não havia como ela ter descoberto isso, a menos que houvesse infiltrado algum espião lá. E provavelmente havia feito isso. Não tinha motivos para que eu ficasse surpresa de tal maneira.
- Eu sei tudo o que vocês planejam. Sei até mesmo coisas que você não sabe. E meu aviso é para que se preparem. Não vai mais demorar tanto quanto vocês pensam.
- O que você quer dizer com isso? – Perguntei, ainda de joelhos.
- Que iremos atacar em breve. Dentro de três dias. Preparem-se, meus queridos, pois nós estamos indo. Estamos mais perto do que vocês poderiam imaginar.
Queria perguntar para Hollie por que ela estava fazendo tudo isso e se era realmente necessário que tivesse procurado Lilith. Uma vilã histórica, bíblica, terrível. Mas não consegui falar nada. Só enxerguei seu sorriso triunfante e senti uma dor lancinante na cabeça. Alguém me batera e eu estava de volta ao chão novamente. Estava tonta, a ponto de desmaiar, até que enfim o peso das minhas pálpebras foi mais forte que o extinto de me manter acordada.
***
Eu odiava desmaiar, e odiava que essa fosse a principal forma de transporte entre um local e outro. A principal forma que usavam para me mandar algum recado e me atualizar dos acontecimentos. Mas não tinha tempo para isso.
O que realmente importava era que eles viriam logo e tínhamos menos de uma semana para nos prepararmos. Bem menos que isso. Tudo o que eu queria era que Evan voltasse logo para que juntos, nós três pudéssemos resolver os problemas e convocar a presença dos outros anjos imediatamente.
- Você está bem? O que aconteceu? – Perguntou Sophie, ao me ajudar a levantar. Eu havia despencado ali mesmo, no meio do corredor. Por sorte, nenhum outro aluno passava por perto na hora. - Ficou desmaiada por uns 30 segundos, se quiser saber.
- Pareceu mais tempo. – Falei. – Sophie, eles estão vindo. Eu encontrei Lilith. Lilith e Hollie, e elas falaram comigo. Bem, Lilith falou. Ela disse que estão mais perto do que podemos imaginar e que virão para a batalha em três dias.
- Ah, então... espere, o quê? Três dias? – Seus olhos se arregalaram.
- Exatamente. Está tão em pânico quanto eu?
- Talvez. – Ela disse. – Vamos para o quarto. Lá a gente resolve o que fazer.
Andamos rapidamente pelo que faltava do corredor, subimos as escadas dos prédios dos dormitórios e entramos em nosso quarto. As coisas estavam como havíamos deixado no momento em que saímos dali de manhã.
- Tem alguma notícia de Evan? – Perguntei a Sophie.
- Se eu obtive alguma informação naqueles 30 segundos em que você esteve fora do ar? É claro que não.
- Sei lá, vai que...
- Não, Nick. Mas gostaria realmente de que eles tivessem nos contatado.
- Bem, e como avisaremos eles disso tudo?
- Eles com certeza voltarão a tempo. Pelo menos um dia antes. Mas precisamos deles aqui antes. Espero que voltem hoje mesmo ou no máximo amanhã pela manhã.
- É.
- Ainda tem aquela adaga que dei a você?
- Tenho. Ando com ela o tempo todo.
- Que bom. Ela pode ser útil.
Larguei minha bolsa na cadeira da escrivaninha, retirei os tênis e me joguei em minha cama. Estava cansada. Minha cabeça doía um pouco.
- O que mais você viu lá? – Sophie perguntou. – Pode ser importante. Podemos calcular a localização deles se você lembrar de alguma característica do local.
- Era um lugar fechado. O piso era de mármore branco e as paredes também eram claras. As duas ficaram de frente para mim e cada uma possuía uma espécie de trono vermelho e dourado. Clichê, e tudo o que eu me lembro do local.
- Não consigo me lembrar de nenhum local assim aqui por perto.
- Nem eu. Até porque não conheço muito daqui.
- Por enquanto não há nada que possamos fazer. A não ser que ache que possamos fazer algo relacionado a um plano de batalha.
- Talvez. O que você pensou?
- Acho que Evan deveria ir na frente. Nós dois, na verdade. Você, para que fique protegida...
- Não. – Eu a interrompi. – É claro que ficarei ao lado de vocês. Estão encarando tudo isso por minha causa e eu não quero ficar de fora. Sei como me defender.
- Você sabe que Evan vai provavelmente tentar fazer com que nós duas fiquemos escondidas em algum lugar, não é?
- Sei. Mas não irei ficar encolhida em um canto qualquer.
- Também não é o que eu quero. – Ela falou. - Mas tudo isso é pela sua sobrevivência. De repente se você e eu, então, seguirmos as instruções dele...
- Talvez. Eu não sei. Nunca estive em nenhuma batalha antes.
- Nem eu.
Passamos o resto do dia planejando onde ficaríamos e tudo aconteceria. No fim, nossa ideia era a seguinte: Eu e Sophie ficaríamos escondidas em algum lugar e os outros estariam lutando. Mas assim que descobrissem nosso esconderijo, e com certeza descobririam, Sophie e eu atacaríamos de dentro do local. Mandariam alguém para nos buscar, se não a própria Hollie, mas estaríamos preparadas para qualquer coisa. Teríamos as facas e munição o suficiente para qualquer tipo de demônio que pudesse aparecer. Adagas e espadas de ouro e prata. E assim que todos aqueles que Lilith julgava inferior a ela estivessem mortos, eu mesmo iria até lá e daria um fim nela. Eu e Sophie.
Durante o dia, também treinamos com a adaga uma contra a outra. Não foi algo difícil, mas nenhuma entendia exatamente como isso funcionava. Meu pai me ensinara certa vez. Ele havia aprendido a manusear uma espada quando era jovem, mas eu não tinha certeza do motivo. Brincar que estávamos na idade média era uma das minhas brincadeiras favoritas. Eu e Sarah contra ele e mamãe. Obviamente, sem nenhum objeto cortante real. De qualquer forma, eu não me considerava apta e boa o suficiente. Mas era o que restava e a minha única esperança.
- Não estamos tão mal assim. – Ela disse.
- Espero que não. – Eu ri.
O dia passou tão rápido quanto a noite, e assim que acordamos na manhã seguinte, lá estavam eles. Evan e Ryan, sorridentes. Eu e Sophie nos assustamos, mas de uma forma boa.
Evan correu para me abraçar assim que nos vimos no corredor. Passáramos apenas um dia longe, mas já sentia falta do seu beijo e de mantê-lo junto a mim.
A manhã correu como de costume, rapidamente, e assim que a tarde chegou todos nós nos reunimos no dormitório dos garotos.
Contamos a ele da nossa estratégia e que eles logo atacariam, bem como eles contaram tudo o que houve durante seu percurso.
Não fora difícil entrar em contato e encontrar outros anjos. Quando não querem ser encontrados é um pouco mais difícil, mas praticamente todos são abertos a entrar em contato com seus semelhantes. A maioria não viu problema em nos ajudar. Estariam disponíveis assim que fossem chamados. Um exército com cerca de mil nefilins para combater demônios de todos os tipos.
Um exército com cerca de mil nefilins para lutar pela minha vida.
Era muito provável que ganhássemos isso, caso tudo ocorresse tal qual o plano mandava.
Estariam todos do lado oposto do bosque que ficava ao lado da escola. Se conseguíssemos pular a cerca e atravessar para o outro lado, os alunos encontrariam um grande terreno aberto. Era que tudo iria acontecer. Eu e Sophie ficaríamos na floresta, escondidas e aguardando que alguém viesse atrás de nós. Se ninguém viesse, um dos nossos viria assim que fosse possível entrarmos em combate com Lilith e Hollie, mas Evan e Ryan estariam nos ajudando. As duas teriam o fim que mereciam.
E no final, tudo daria certo. Todos aqueles do lado mal estariam mortos ou bem longe dali, e finalmente poderíamos desfrutar de paz novamente. Poderíamos enfim viver as nossas vidas e sermos felizes da maneira mais normal que fosse possível.
Gostaria que isso acontecesse.
Estávamos todos crentes de que o plano funcionaria.
O clima que se seguiu na noite e no dia seguinte foi tenso. Sabíamos que eles poderiam aparecer a qualquer momento no dia seguinte. Ninguém foi a aula. Apenas descansávamos e os garotos contataram a todos os outros. Sophie teve uma visão, e deveríamos encontra-los as 13h do dia seguinte no campo de batalha.