CAPÍTULO 16 - Nicole

Todos na escola preocuparam-se com o desaparecimento de Sarah. Ninguém havia encontrado vestígios de sangue no local do ocorrido. Diretora Price interrogou a mim e aos colegas dela para ver se descobria algo, mas tudo o que conseguiram foram chamar a atenção das autoridades locais, que logo mandaram agentes para tentar resolver o caso. Depois de um mês, sem nenhuma pista, eles acabaram desistindo.
Eu tentava levar minha vida como antes, tendo apenas alguns momentos de “depressão” antes de dormir, mas Sophie ou Evan sempre estavam lá para conversar comigo e me auxiliar. O quarto de Sarah ficara vazio, pois Nathaly não quisera mais ficar por lá. Eu e Sophie largamos o jazz.
Cerca de uma semana depois da morte dela, eu conheci a garota loira. Já havia melhorado um pouco dos machucados e ela veio me perguntar se eu realmente não sabia de nada sobre o paradeiro dela. Respondi que não. Só que esperava que estivesse em um lugar melhor que aqui.
***
Um tempo mais tarde, em uma quarta-feira, Evan bateu na porta do meu dormitório. Bem, meu e de Sophie. Eu e ela estávamos ocupadas estudando para um teste que teríamos no dia seguinte, então só notamos que ele se encontrava ali depois de alguns minutos.
- Meninas? – Ele pigarreou, abrindo um pouco a porta e espiando para dentro. Eu e Sophie nos assustamos.
- Evan, da próxima vez, por que não manda mensagem avisando que vem? – Sophie sugeriu.
- Hm... Eu mandei. Nick, está sem o seu celular? – O garoto perguntou.
- Ah. Devo tê-lo deixado dentro da minha bolsa quando cheguei. Desculpe. – Falei.
- Não tem problema. Eu só queria comunicar vocês que ficarei fora por um tempo...
- Como assim? – Eu e Sophie dissemos ao mesmo tempo.
O que ele queria dizer com isso? Hollie provavelmente se aproximava, e isso não poderia ser um bom sinal. Ele se afastando de nós...
- Por quanto tempo? – Disse eu.
- Eu não sei. Tempo o suficiente para que eu consiga contatar outros anjos.
Então era isso.
- Realmente acreditam nessa batalha? Não seria mais fácil se eu simplesmente me jogasse na frente deles e me entregasse? Já estou me cansando disso tudo. – Comentei.
- Nem brinque com isso. Essa é uma ideia inaceitável – disse Sophie.
- Sophie tem razão. – Evan aproximou-se da minha cama e sentou ao meu lado. – Não diga esse tipo de coisa nem brincando. Faremos de tudo para protegê-la.
Eu estava confusa. Se eu iria morrer de qualquer jeito, pelas mãos dele ou dela, por que ambos teimavam em prolongar a minha vida? Já perdera tudo, de qualquer jeito, então viver por mais alguns anos não ia mudar nada.
- Por quê? Não vale a pena.
Evan me encarou tristemente.
- Nick... Vale a pena sim. Vale a pena tentar deixa-la aqui por mais algum tempo. Pode ser... há uma pequena chance de que eu não tenha que fazer isso. De que eu não precise matá-la. E até esse momento chegar, o momento onde saberei com certeza, espero que seja feliz. Quero que tenha a chance de viver por mais que apenas isso. – Ele disse.
Não pude evitar que meus olhos se enchessem de água mais uma vez. Em momentos como esse eu notava o quanto o amava e o quanto sabia que ele me amava de volta. Sabia que ele seria o amor da minha vida. Dessa vida e das próximas. O amava com todo o meu ser e ele com toda sua alma.
- Amo você. – Exclamei.
- Também te amo.
- Assim, será que os dois poderiam deixar esse momento pra depois? – Sophie interrompeu. – Eu realmente queria estudar e entender o que Evan está supondo.
Nós rimos.
- Eu irei convocar alguns dos outros anjos para fazer a guarda de Nick. Para que fiquem do nosso lado nessa tal “batalha”. Caso seja preciso, é só eu mandar algum aviso para eles e todos se aproximarão rapidamente, preparados para qualquer situação. Não precisarão ficar aqui o tempo todo, mas caso seja necessário, virão pra cá o mais rápido o possível.
- E isso funcionaria? – Perguntou ela.
- Creio que sim. Todos eles passam ou já passaram por alguma situação semelhante. Eles sabem o que sinto.
- Então todos eles sofrem por algo que seus pais fizeram? – Não me contive e acabei o interrompendo. Não que fosse uma pergunta urgente, mas simplesmente saiu. Impulso.
- É. Todos eles punidos por algo de forma injusta. – Ele suspirou.
- Entendi. Sinto muito.
- Que situação difícil. – Sophie comentou.
- Eu sei. Entendo como é isso. – Evan brincou.
- Ei, desculpe. Não escolhi te fazer passar por isso. A culpa não é minha se sou irresistível.
- Quanta modéstia. – Ele falou e me puxou para um abraço.
- Eu deveria dar privacidade aos dois? – Nós três rimos com o comentário sarcástico de Sophie.
- Desculpe. Enfim. Era isso.
- Quando você vai?
- Hoje, no final da tarde.
- O quê? Mas, já? – Fiquei surpresa com a notícia. Não acreditei que ele fosse tão logo assim. Imaginei que fosse somente dentro de alguns dias, três ou quatro, pelo menos.
- Sim. Não sabemos quando eles podem resolver atacar.
- E quanto tempo ficará fora?
- Por alguns dias. Não mais do que três. E enquanto isso, preciso que vigie ela, Sophie. Nick precisa de proteção 24 horas por dia.
Revirei os olhos. Parara de discutir com eles sobre isso. Além de não adiantar nada, sabia pela experiência que tivera recentemente que seria melhor me defender de qualquer coisa se alguém estivesse comigo.
Mais tarde, Sophie me explicou que as convulsões que tivera enquanto dormia, logo após ter voltado para o dormitório, foram causadas pelo veneno que continha nas garras do demônio. Não era uma quantidade suficiente para provocar a morte de uma pessoa, mas para fazê-la ter reações bastante preocupantes por um tempo. Para tentar anular este efeito, eles injetaram em mim um remédio (o qual Sophie negara-se a revelar do que era feito). Funcionou depois de algumas doses e agora eu estava bem. Os machucados já estavam sarando e eu conseguia deitar de costas novamente.
- Ficaremos bem – ela disse.
- Espero que sim. Não queria ter que sair por aí, mas acho que é o jeito. Enquanto isso, Ryan irá comigo.
- Ryan? Ele sabe o que você é? – Nós nos surpreendemos. – E como ele poderia acompanha-lo? – Perguntei.
- Ryan também é um nefilim. Por isso somos colegas de quarto. É só isso que eu sei. Não sei de quem ele é filho nem nada assim, mas ele prometeu me ajudar. Passou por isso com a namorada dele, mas a sua maldição já foi quebrada. Cada maldição é diferente e condiz com a gravidade das ações do pai.
- Uau.
- Pois é. Iremos voltar em breve, o mais rápido que for possível. Por favor, se cuidem.
- Iremos.
- Vou ver você antes de partir, certo? – Questionei.
- Vai sim. Não partiria sem dar tchau a você.
- Espero que não.
- É claro que não. – Ele falou. – Eu vou indo. Depois passo aqui de novo. À noite sairemos o quanto antes possível.
- Ok.
- Até logo, Evan.
Logo que Evan saiu Sophie e eu começamos a nos planejar para os próximos dias sem ele, então, e comentar sobre o que poderia acontecer durante essa batalha. Ela não acreditava que eu morreria ali e eu também já estava confiante. Tudo o que eles estavam fazendo, todas as precauções que foram tomadas. Era quase algo impossível.
Quase.
***
Já estava escuro quando Evan apareceu para me dar tchau e seguimos com ele e Ryan até o meio do bosque, onde então migrariam para algum local que preferiram não revelar. Despediu-se de mim com um abraço e um beijo, e finalmente fez aparecer suas enormes e belas asas negras.
Ele e Ryan lançaram-se noite a dentro, em direção às estrelas buscando aquilo que poucos humanos conheciam.