CAPÍTULO 15 - Nicole

Não mudaram muitas coisas depois disso tudo. Depois que Evan e eu começamos a namorar. Sophie sempre estava conosco de qualquer forma, a diferença é que agora eu podia suprir a necessidade de abraçar Evan sempre que conseguisse. De uma hora para outra, tornou-se a pessoa mais importante para mim.
Ainda havia Sarah. Ela gostava dele, e por vezes passava tardes com nós três para que assistíssemos algum filme ou algo assim. Mas o período de provas se aproximava, então toda a alegria das tardes teve o foco desviado pelos estudos. Eu e Sophie nos mantínhamos trancadas no quarto, na maior parte do tempo, ou então na biblioteca, para que pudéssemos enfim nos concentrar.
Sophie agia como sempre. Uma ótima amiga e companheira, ainda cuidando de mim, assim como Evan. Não gostaria de saber o que fariam caso me vissem sem a adaga colada ao meu corpo. “É por precaução”, eles diziam.
Tudo aconteceu em uma sexta-feira qualquer. Aconteceu na minha frente. E eu não pude impedir.
***
Eu estava com Sarah mais uma vez. Nós havíamos combinado de caminhar perto do bosque, já que ela queria falar comigo e ainda fazia sol, mesmo sendo quase 19. Era um clima agradável, e a brisa de verão tocando meu rosto e afagando meus cabelos era, de certa forma, aconchegante. Sarah estava do meu lado, com seus cabelos negros caindo por sobre os ombros e os olhos distantes.
Ela era realmente parecida com a minha mãe. Com a nossa mãe.
O formato do seu nariz, dos seus lábios, da combinação de tonalidades de seu cabelo e seus olhos. O formato dos olhos e as orelhas se assemelhavam aos de meu pai. Sarah era, sem dúvida, uma garota muito bonita e esperta. Jamais poderia acreditar que alguém pudesse fazer mal a ela.
- Nick... – Ela começou – eu preciso falar com você.
- Bem, disso eu já sei. – Falei em um tom descontraído.
- Mas é algo sério. Quer dizer, é importante pra mim. – Ela corou.
Estaria ela...?
- O que aconteceu? – Perguntei.
- E-eu acho que estou gostando de alguém. – Gaguejou ela. Pude notar, pela forma como segurava uma mão na outra, que parecia nervosa. Ela sempre fazia isso quando se sentia tensa. Todas as vezes.
- Ah, mas isso é ótimo! – Falei, tentando anima-la e ainda sem entender o porquê da tensão. Talvez fosse porque sempre temos medo do primeiro amor. Medo que tudo dê errado. Medo. – Quem é o sortudo?
- Ahm... É que... não é ele.
Eu parei de andar. Ela também.
- Espere, o quê?
- Eu acho que gosto de uma garota. – Ela falou, olhando para o chão. – Olhe, por favor, não fique braba comigo. Não me xingue, eu não escolhi isso. E não escolhi ser assim. Mas eu gosto dela e acho que ela também gosta de mim, então se você não quer me aceitar como eu sou, desculpe, mas não posso fazer nada.
- Quem?
- Quem o quê?
- De que garota estamos falando? Ela é sua colega?
- É... Jessie. Das aulas de artes.
- Olha só, eu estou profundamente decepcionada com você. – Disse.
- O que quer que eu faça? Peça desculpas por não ser como você? Porque aposto que...
- Sarah! – A interrompi. – Do que você está falando? Está louca?
Ela não respondeu.
- Não estou decepcionada com você por isso. Estou decepcionada por ter acreditado que eu seria contra isso.
- Então não me odeia?
- E eu teria algum motivo pra isso? Sarah, você é uma das pessoas com quem eu mais me importo, minha única família e aquela que sempre esteve do meu lado. Eu jamais a impediria de ser feliz, sendo com um garoto ou com uma garota. Não há nada de errado nisso. Não é ruim ser quem você é.
- Ah, é que sei lá. Sempre vejo tanta gente brigando por causa disso, tanta gente... discutindo a respeito.
Pude notar que seus olhos estavam cheios de lágrimas que ela teimava em segurar.
- Pode chorar. Não há nada mal nisso também.
- Desculpe.
- Isso não é nada. Você tem o direito de ser feliz com quem quer que seja, independentemente dessa orientação. São apenas rótulos. Não dê ouvidos a essas pessoas porque não vale a pena. Elas não sabem do que estão falando. Amor é amor, e não interessa se ele vem de duas pessoas do mesmo sexo. O importante é que ele exista.
- Obrigada, Nick.
- Pelo que? Por exercer meu papel de irmã? – Eu ri enquanto a abraçava.
- Por ser a melhor irmã que alguém poderia querer. – Ela falou. – Eu amo você.
- Também te amo.
Nós nos soltamos e continuamos andando um pouco. Sarah me deu detalhes sobre as últimas semanas. Jessie era uma colega nova de cabelos loiros, alguns meses mais velha e que partilhava dos mesmos gostos que ela. Gostaria de conhecê-la o quanto antes possível, mas minha irmã me informou que não estavam namorando nem saindo ainda. Ela só precisava desabafar com alguém e contar o que sentia. Era tudo muito novo. Um sentimento diferente, acompanhado de toda essa pressão social que começara a sentir quando notou que não eram os garotos que lhe chamavam a atenção. Acho que tudo o que ela precisava era de alguém que a compreendesse.
Conversamos sobre o fato de ambas precisarmos ir a um psicólogo – ou a uma psicóloga – a partir de então. Durante a última semana já havíamos ido até o consultório da Dra. Sandra para conhecê-la e tudo correra bem.
Dra. Sandra tinha pelo menos 50 anos, olhos e cabelos escuros e era extremamente simpática. Aquele tipo de pessoa que era capaz de fazer qualquer um se sentir à vontade em sua presença. Talvez por isso estivesse trabalhando como psicóloga nos dias de hoje. Embora não estivéssemos exatamente interessadas na ideia de contar nossos sentimentos a uma desconhecida há pouco tempo atrás, agora isso já não parecia mais tão absurdo.
- Ah, sabe o que mais? Eu estava louca para te contar! – Disse Sarah, saltitando um pouco a minha frente enquanto andávamos.
- O que foi?
- Lembra daquele livro que você me emprestou há um tempo atrás?
- Claro que sim. O que tem ele?
- Eu... – Ela parou de falar.
Olhou para baixo e colocou a mão no peito. Uma flecha a atravessara, entrando pelas costas e perfurando seu coração. Podia-se notar a ponta ensanguentada, quase tanto quanto a sua camiseta. Seus olhos azuis perderam a cor enquanto ela caia em direção a morte.
No meio do bosque, pude notar o estalido de galhos secos quebrando e a relva sendo pisoteada. Um vulto encapuzado corria entre as árvores. Segundos depois, ele não estava mais lá.
Eu estava congelada. Não conseguia me mexer, mal conseguia respirar. Não caíram lágrimas de meus olhos porque eu ainda não conseguira entender o que acabara de acontecer.
Não conseguia distinguir a rapidez com que aquilo havia acontecido. Segundos antes estávamos conversando sobre um livro, ao crepúsculo, e agora minha irmã jazia sobre a terra sem mais respirar. Alguém, com alguma flecha, roubara sua vida em menos de um minuto.
- Sarah! – Gritei. Gritei o mais alto que conseguia gritar.
No céu, um ser com asas voava ao longe. Imaginei ser Evan. Precisava ser Evan. Ele me ajudaria, ele era um anjo. Ele conseguiria salvar Sarah. Ela não estava morta, é claro que não. Ela voltaria para mim. Ou então eu estava sonhando, porque não era possível que isso houvesse acontecido, era? É claro que era um sonho. Tinha que ser.
Ele se aproximava e eu chorava ajoelhada sobre o corpo dela. Minhas mãos e minha camiseta estavam ensanguentadas.
- Volte para mim... por favor, volte para mim. – Eu soluçava. Não conseguia me controlar, agia como uma louca. Insana. – Não podem tirar você de mim também, Sarah, você é muito nova para isso. Volte...
O anjo pousou e eu notei, embora estivesse com os olhos cegados por lágrimas, que a sombra se aproximava de nós.
- Evan, por favor, faça algo! Diga que isso não está acontecendo, não pode...
E foi então que eu senti uma pancada na têmpora. Meu corpo foi arremessado a um metro do corpo do de minha irmã. Todo o ar fora sugado dos meus pulmões. Eu estava atordoada. Por que Evan agiria daquela maneira?
- O que você está fazendo? Evan...
Não era Evan. Nunca soube quem era, mas sabia que ele fora enviado por ela. Por Hollie. Por Lilith. Suas asas eram negras e gigantes, mas não majestosas como as de Evan. Ele possuía um par de chifres na cabeça e sua pele era escura, quase tanto quanto as asas. Seus olhos vermelhos me encaravam e pude ouvir sua voz em minha mente.
- Se prepare, garota. Isso é apenas o começo. Gostou do que fizemos com seus tios? – A voz perguntou.
- Pare! Por favor, pare! – Eu implorava enquanto a voz ria do meu desespero.
- Ah, meu bem, isso não foi nada comparado ao que faremos com sua querida irmãzinha. Quer que eu mande seus agradecimentos a Hollie?
- Pare! – Eu não conseguia me mexer, e mesmo que conseguisse, jamais conseguiria pegar minha adaga. De qualquer forma, sabia que ele não iria me matar naquele momento. Sabia que elas queriam fazer elas mesmas. Hollie, principalmente. Mas antes, me fariam sofrer. Me fariam sofrer da pior maneira possível. E estavam conseguindo.
- Tudo bem, gracinha. Eu vou indo. Mas em breve estaremos de volta. Nós dois. Nós quatro... – Ele falou enquanto segurava o pescoço de Sarah perto a sua cabeça e o sacudia, como quem indicava que ambos voltariam. Fora exatamente o que ele dissera e também a confirmação que eu precisava: eles haviam levado os corpos de Anna e Tio John.
- O que você vai fazer? Por que precisa deles? – Perguntei, me engasgando com uma mistura de saliva e lágrimas. Meu coração estava acelerado e eu tremia de uma forma que nunca havia acontecido antes.
- Isso é tudo surpresa. Mas não se preocupe. – Sua risada me fez estremecer e ele me olhava com desdém. – Tenho certeza de que você irá adorar!
Vi que ele se aproximava de mim lentamente e senti minha nuca formigar. Ele não me mataria, mas torturar era outra história. Senti suas garras em minhas costas, desenhando no local onde ficariam as asas se eu tivesse alguma. O sangue quente escorreu pela minha camiseta e formou uma poça no chão, ao meu lado. Doeu. Doeu muito.
Com um movimento repentino, agarrei a adaga em minha cintura com a mão que antes me mantinha apoiada no chão e tentei golpeá-lo, atacando algum ponto atrás de mim. Ele recuou, ainda rindo da minha cara e da tentativa tola de tentar machuca-lo.
- Você realmente acredita que uma coisinha tão insignificante pode me fazer teme-la? Mortais são sempre tão bestas!
Subitamente, movimentei meu braço e acabei fazendo um pequeno corte em seu tornozelo. Ele parou de falar e novamente chutou-me para longe. Eu caí de cara na terra, e tudo o que consegui fazer foi virar o rosto para o lado a tempo de vê-lo levantar voo com a minha irmã em baixo do braço.
- Eu irei voltar, garotinha. Esteja preparada.
A voz ressoou novamente na minha cabeça. Vi os dois se afastarem. Vi a escuridão encher minha mente e o céu ser pontilhado de estrelas. Essa foi minha última visão e última lembrança daquele dia.
***
- Rápido! – Ouvi a voz de Evan ao longe. – Está acontecendo de novo!
Meu corpo movimentava involuntariamente. Eu estava convulsionando e estava consciente de que isso acontecia. Eu conseguia ouvir tudo o que acontecia a minha volta, só não conseguia falar ou abrir os olhos. A saliva fez com que eu me engasgasse novamente.
Senti uma agulha perfurar meu braço, e pouco a pouco a sensação diminuiu. Eu já não me debatia mais.
Estava deitada na minha cama, com a cabeça deitada no colo de Evan. Minhas costas doíam, assim como minha cabeça e todo o resto do meu corpo. Não tinha lembranças de ter sido resgatada nem de quem o fizera, mas tinha quase certeza absoluta de que apenas os dois estavam envolvidos. Não tinha certeza nem de que tudo o que acontecera naquele dia realmente havia se concretizado.
Minha irmã morta, eu atacada por alguma espécie de demônio e... tantas coisas! Eu precisava acordar.
Lembro que caí no sono pelo menos mais duas vezes antes de conseguir abrir os olhos e recuperar a capacidade de falar. Evan continuava ali. Sophie também.
Ambos me olhavam, preocupados, pálidos, repletos de culpa por não terem me acompanhado durante aquele momento.
- Olá – Sophie falou, com os olhos lacrimejantes.
- Oi – respondi. – Sarah. Sarah está morta.
- Eu sei. Nós sabemos. Tive uma visão. Foi assim que a encontramos.
- Obrigada por terem me tirado de lá. – Falei.
- Obrigada? Nós a deixamos sozinha, sua irmã morreu e você foi visivelmente machucada e você ainda agradece? – Evan disse, exaltado. – Meu Deus, eu não sei o que faria comigo mesmo caso algo mais acontecesse com você.
Notei que ele estava irritado. Não comigo, mas com ele mesmo. Culpava-se por ter me deixado sair por aí sozinha. Fiquei muda.
- Eu nunca irei me perdoar por isso. – Ele falou.
- Pare.
- Eu a deixei sozinha quando devia estar junto de você, a protegendo, o tempo todo. Eu falhei. Fui tolo. Não a culpo se não me perdoar. Eu mesmo não serei capaz disso.
- Evan, pare! Só... aconteceu. Eu estou aqui.
- Mas está machucada.
- Isso cura.
- Queria que isso tivesse sido evitado.
- Olha só, o importante é que eu estou aqui agora e estou bem. E que apesar de tudo, eles levaram a minha irmã.
Eu conseguira me sentar do lado dele com alguma dificuldade. Minhas costas, principalmente, doíam no local dos arranhões. Pude notar que estava enfaixada com algumas ataduras.
- O que faremos a partir de agora? – Questionei. – Não há mais ninguém que possam tentar tirar de mim. Além de vocês.
- Nós não iremos a lugar algum – falou Sophie.
- Espero que não.
- Não iremos. Sempre com você, lembra? – Evan completou.
- Desculpe por termos falhado – disse Sophie. – Prometo que nunca mais deixaremos que isso aconteça.
- Está tudo bem.
Eu me sentia mal por causa de Sarah. Minha irmã fora tirada de mim, mas tudo o que eu já pudera extravasar, havia feito antes. Na hora do ocorrido. Todo o desespero fora arrancado do meu corpo e agora não temia por mais ninguém além de mim mesma. Evan e Sophie saberiam se defender de qualquer coisa e deixaram isso claro pra mim.
- Acho que agora... A única coisa que iremos fazer... – Evan começou.
- Evan, você sabe o que eu vi. E sabe muito bem o que precisa fazer.
- Tem certeza disso?
- Absoluta.
- O que foi? – Perguntei.
- Eles estão aos milhares, Nick. São muitos.
- O que isso significa?
- Significa que precisaremos de ajuda. Não podemos deixar que vençam por causa disso. – Falou Sophie.
- Mas... onde conseguiríamos isso?
- Evan. Evan conhece muitos outros nefilins.
- Isso é verdade? – Questionei. – Não sabia que haviam mais tantos assim. Suficientes para deter milhares de outros... demônios?
- Isso. É verdade, sim. – Falou ele.
- Parece com uma guerra.
- Não diria uma guerra. Mas estou certa de que uma batalha irá acontecer.
- Uma batalha. Por minha causa. – Que ótimo. Tudo o que eu queria.
- Não, Nick. Por nossa causa. – Evan beijou minha testa.