CAPÍTULO 14 - Nicole

Sarah voltara a falar comigo assim que cheguei em casa naquele dia. Pediu desculpas por ter sido arrogante e ignorante, e então voltou ao seu quarto, deixando-me com Evan e Sophie mais uma vez.
***
O dia amanheceu ensolarado, contrariando qualquer clichê. Era como se o Sol ignorasse o luto, o que de fato fazia. O que teria ele a ver com isso? O dia nublou por volta do meio dia, mas não fez diferença. Apenas fez com que tudo parecesse mórbido e sombrio, a atmosfera adequada para o que deveria acontecer naquela tarde. Mas não aconteceu.
Sophie me acordou por volta das 9h, mas fiquei deitada por pelo menos uma hora a mais, até que Sarah veio até meu quarto, conversar. Não havia muito o que fazer, exceto esperar todos voltarem da aula, já que tínhamos recebido aquele dia de folga e ficamos no dormitório, entediadas. Sophie vinha me ver a cada troca de período. Desconfiava que Evan havia bolado alguma forma de descobrir se eu estava bem, pois nenhum dos dois estava comigo o tempo todo naquela manhã.
Ainda odiava o fato de precisar de proteção. Não queria ser nenhuma donzela em perigo que não sabe como se defender, mas os dois insistiam em me deixar com esse papel. Fazia de tudo para ser útil. Evan e Sophie me deram algumas dicas de como usar aquela adaga, caso alguma hora precisasse. Torcia para não precisar, assim como viver sem a necessidade de proteção.
Ao meio dia, eu e Sarah nos dirigimos para a cozinha. Encontramos Sophie lá com Evan, embora os garotos também tivessem sua própria cozinha no andar de baixo. Os dois haviam deixado as bolsas com materiais em cima de um sofá verde claro que havia no cômodo e contrastava com os demais móveis. Começara a chover do lado de fora. As gotas de água formavam uma pequena poça em frente à janela que refletia as nuvens escuras do lado de fora.
Sophie preparara massa para todos, e durante o almoço, a diretora Price surgiu na porta da cozinha.
- Srta. Reynolds, tem um minuto? – Disse, formalmente.
Levantei do meu lugar ao lado de Evan calmamente, tendo certeza de que a conversa seria sobre o transporte ou algo do tipo e que ela só estava sendo delicada em respeito aos meus familiares. Mas notei que não era isso logo após sair no corredor e encontrar Dr. Callaway me esperando na sala dela. Ele parecia tenso e sua testa acumulava gotículas de suor que quase não apareciam.
- Nicole – começou a diretora. – Há uma coisa que precisamos lhe contar e que talvez seja... um pouco desagradável. Sinto muito que tenha que receber essa notícia assim.
Senti frio na barriga. Não aquele bom, quando se está nervoso por algo que você queria que acontecesse ou quando se está ao lado de alguém que você gosta, mas o de tensão. O de “o que mais poderia piorar?”.
- O que foi? – Tomei coragem e questionei.
- Nick, você sabe de alguém que quisesse ferir seu tio e a namorada dele de alguma maneira? - Dr. Callaway me perguntou.
Eu sabia. Eu com certeza sabia.
Mas eu não podia falar.
- Não.
- Tem certeza?
- Absoluta.
- Bem, aconteceram algumas coisas durante a noite de hoje. Durante esta madrugada, para ser mais exato. Uma situação um tanto... macabra.
Perguntei-me o que ele queria dizer com isso. Não consideraria tão macabro a menos que os dois acordassem do nada e começassem a conversar. 
- Que seria?
- Alguém invadiu o necrotério por volta das duas da manhã.
- E...?
- E roubou os dois corpos. – Ele completou.
Por isso eu realmente não esperava. Aceitara o fato de que era macabro, sim. Que tipo de pessoa rouba corpos de pessoas mortas?
Ah, é claro.
O tipo dela. O tipo que busca vingança.
O tipo que não mediria atitudes para conseguir aquilo que queria, e no momento, o que Hollie mais queria era me atingir. Me machucar, machucar meus parentes, amigos, ter Evan só para ela. Ou pelo menos ter a sensação de ter ganhado a batalha. Não iria deixar isso acontecer.
Ou pelo menos iria tentar lutar.
Fiquei sem palavras, sem atitude ou expressão. Poderíamos dar adeus ao funeral. Havia sido dispensada das aulas inutilmente assim como os pais de Anna gastaram para nada. Sem os corpos, ninguém poderia ir a lugar algum.
- Desconfiamos que isso tenha sido obra dessas pessoas que vendem órgãos ilegalmente. Não é a primeira vez que acontece, mas normalmente somente os órgãos são retirados. Por isso achamos estranho que os corpos também tenham sido levados. Não há sinais de arrombamento. – Explicou Callaway. – Sinto muito por isso, Nick.
- Eu não sei o que dizer.
- Imagino. É difícil passar por tantos choques assim e de uma maneira tão... como posso dizer? Frequente.
- O que posso fazer a respeito disso? – Perguntei.
- No momento, pode avisar a sua irmã. Ou então pedir para que ela venha até mim. – Falou a Diretora Price, sorrindo de uma maneira esquisita. Ela não sabia como reagir ao fato de eu não ter chorado ou simplesmente entrado em pânico.
- Ok. Vou manda-la aqui.
Levantei-me para seguir em frente, mas ela fez sinal para que eu permanecesse sentada a sua frente, lado-a-lado com Dr. Callaway.
- Nicole, querida... sei que sua vida sempre foi complicada. Sempre passando por poucas e boas, como a perda de seus pais, e agora de seus tios. – Ela assentiu – eu e o Sr. Callaway conversamos e chegamos à conclusão de que seria melhor, conforme o próprio código escolar já diz, que encaminhássemos você e sua irmã a uma psicóloga. Ela poderia ajudar vocês a superarem isso e...
- Não preciso de uma psicóloga. – Eu a interrompi.
- Entendo que ache que não precisa, mas pense, pode ser importante que tenham esse acompanhamento. Sua saúde emocional está bastante danificada, e não queremos que suas vidas se desviem por causa desses acontecimentos, entende?
- Entendo. Mas não vou me desviar de nada. Meu foco é na escola, e sobre essa situação, eu sempre lidei com coisas do tipo. Superei. O tempo e a escrita curam as feridas. Não quero ter que sair por aí falando do que sinto para alguém que eu sequer conheço.
- Nick, eu preciso encaminhar vocês. Vocês já deviam ter esse acompanhamento desde a morte de sua mãe, e agora precisam ainda mais. – Ela falou.
- É melhor ouvi-la – disse Callaway. – É um direito seu e a escola irá bancar. Você só precisa se preocupar em aparecer no consultório em determinado dia e hora da semana.
Fiquei em silêncio. Eles estavam realmente sugerindo que eu fosse a um psicólogo por que meus pais e tios haviam morrido. Não devia estar surpresa, afinal, sabia que isso é perfeitamente normal e que são essas as principais atitudes que a direção da escola deveria tomar. Não achava que houvesse necessidade disso. Eu já escrevia. Eu já ouvia música. Eu já observava o entardecer. E isso me bastava. Será que Sarah precisava de algo?
Talvez realmente fosse certo que eu e ela aceitássemos essa decisão. E tudo o que eu menos precisava era de uma briga com a direção da escola.
- Ok. – Concordei, por fim. A diretora sorriu e me entregou um cartão com o nome de uma mulher escrito e um número de telefone.
- Dra. Sandra é uma conhecida minha. Acredito que gostará dela. Irei agendar horários para você e sua irmã assim que puder.
- Menos as quintas. É dia de jazz.
- Certo.
Já ia me levantando quando percebi que ainda tinha muitas perguntas para fazer a Callaway. Arrisquei uma.
- O que vai acontecer hoje à tarde?
- Haverá a missa ainda assim. Pode comparecer, se quiser. Você, Sarah, seus amigos.
- Tudo bem.
Levantei e finalmente saí da sala, atordoada. O mundo realmente resolvera desabar por cima de mim durante as últimas semanas. Mas eu dessa vez, eu seria forte. Começara a cansar de me deixar atingir por qualquer coisa do tipo.
Pessoas vêm e vão. Alguns mais rápido que outros. E a nossa estadia na Terra não passa disso.
Uma passagem.
***
- Sarah, a diretora Price quer falar com você.
Eu disse aquilo com tanta naturalidade que acabei me assustando comigo mesma. A situação era terrível para ser tão neutra assim. Assim que Sarah saiu de perto, contei o que havia acontecido para Sophie e Evan. Ambos pareceram espantados.
- Por que ela faria isso? – Questionou Sophie.
- Não tenho a mínima ideia. – Falei.
- Idem. – Disse Evan.
- Ou talvez seja como Callaway supôs. Ladrões de órgãos. Uma coincidência bizarramente ridícula.
- Eu tenho quase certeza que não. – Evan negou com a cabeça. – Mas não consigo imaginar no que eles usariam os corpos. É impossível que tentem alguma magia negra, isso vai contra os seus princípios. Mas por quê?
- Sei lá.
- O que devemos fazer agora? – Sophie levantou a questão.
- O certo é esperar. Esperar que tentem se aproximar de nós, e assim que tentarem, estaremos aqui para te defender.
- É. Assim como eu me defenderei, lembra?
Evan riu.
- Lembro sim.
De repente, Sophie levantou-se da mesa, como quem estava com pressa.
- O que foi?
- Jazz. Você não precisa ir hoje, certo?
- É. Mas eu acho que vou. Seria bom me distrair um pouco, sabe...
- Eu cuido da parte da distração. – Falou Evan e Sophie o encarou. – Pensei que Nick gostaria de ver algum filme, ou algo assim.
- Pode ser legal. – Eu concordei.
- Já que vocês insistem... – Sophie tirou sarro e foi novamente para o dormitório.
Evan e eu ficamos sozinhos, sentados no sofá que havia no cômodo. Ambos permanecemos em silêncio pelos minutos que seguiram, e mesmo depois da notícia, eu me sentia feliz. Feliz porque faria algo ao lado de quem eu gostava. Sem Sophie.
Poderia enfim passar tempo com Evan por mim mesma, e não havia percebido o quanto desejava isso até a empolgação me atingir depois dessa sugestão. Seria tão incrivelmente ótimo poder beijar seus lábios mais uma vez.
- E então, que filme quer ver? – Evan interrompeu meus pensamentos.
- O quê?
- Filme. Qual iremos assistir?
- Ah... deixo a escolha por sua conta. – Eu falei.
- Sabe que eu provavelmente escolherei algo que envolve sangue e lutas, não sabe?
- É claro – nós dois rimos. – Mas eu gosto de filmes assim.
- Espere, o quê? Então quer dizer que você, justo você, gosta de filmes violentos?
- E por que não poderia gostar?
- Sei lá, você gosta de romances.
- Então porque eu gosto de romance posso gostar de filmes assim? Pois para sua informação, sei muito mais sobre esse tipo de assunto que muito garoto por aí. E isso não me faz amar menos aqueles clichês de adolescente, por exemplo.
- Ok, ok, desculpe. Ainda preciso me acostumar com a ideia de que você não é uma garota normal.
- Não sou?
- Nunca foi. – Ele falou, pegando uma mecha do meu cabelo e a ajeitando atrás da orelha.
- Bom saber.
Ficamos ali conversando por mais alguns minutos, e então seguimos para o seu dormitório. Ryan não se encontrava por lá. Segundo Evan, tinha aulas de algum tipo de instrumento e só voltaria mais tarde.
Surpreendentemente, ele não escolheu um filme tão violento ou cheio de ação como imaginei que seria, mas ainda assim muito bom. Preparamos pipoca – meio doce, meio salgada -, separamos refrigerante em dois copos e assim nossa tarde se estendeu.
Evan deixou com que eu me escorasse nele durante o filme. Meu coração disparou quando ele colocou o braço por cima dos meus ombros. Um gesto tímido, porém que valia por muitas palavras. Ao final do filme, peguei seus olhos castanhos olhando no fundo dos meus.
- Você é tão linda. – Ele disse. Eu enrubesci.
- Não sei o que dizer.
- Só... Fique aqui. Gosto de abraçar você.
- Também gosto.
- É? – Ele falou e me puxou para mais perto. – Então me deixe aproveitar mais um pouco.
Seu abraço era acolhedor. O melhor abraço do mundo.
- É bom ficar com você. Ao seu lado... já que estamos falando sobre isso. – Completei ao notar o modo como me olhava.
- Concordo. Se pudesse ficaria aqui pra sempre.
Você pode, eu queria dizer. Eu sentia como se o conhecesse há tanto tempo. Eu sentia como se não apenas gostasse dele. Era algo mais.
Muito mais.
Tomei coragem e inclinei-me de forma que meus lábios ficassem mais próximos dos dele. Eu ofegava, sentia como se o local onde seu braço tocava por cima de meu ombro formigasse. Meu corpo inteiro parecia leve.
O beijei. E ele retribuiu. E foi como da primeira vez, talvez ainda melhor. Mil borboletas batiam suas asas violentamente em minha barriga, e foi a melhor sensação do mundo.
- Eu te amo – ele sussurrou, ao afastar um pouco os lábios dos meus.
- Eu também. – Respondi.
Não era mentira.
***
Evan e eu começamos a namorar duas semanas depois. Não houveram flores nem um anel. Apenas Evan, o mesmo de sempre, meu anjo e meu guia. Apenas um beijo, e foi o melhor dia de todos os tempos.