CAPÍTULO 12 - Nicole

Voltei rapidamente para meu quarto. Já tivera bastante revelações para um dia só. Hollie me queria morta. Evan teria que me matar. Evan era um anjo. E Evan me amava.
Por um momento, cheguei a acreditar que nada daria certo dali para frente. Só queria voltar para bem antes disso, talvez para o dia do acidente de meu pai e impedir que qualquer coisa acontecesse com ele. Era uma mudança drástica demais, principalmente para mim. Sempre me virara sozinha, nunca precisara de ninguém. O que não haviam me ensinado, eu aprendera na marra e assim por diante. Era eu quem cuidava da casa, da minha irmã mais nova e de todas – ou quase todas – as despesas. Sempre dava um jeito de passar por qualquer situação difícil.
O que me apavorava era o fato de não saber como sair dessa.
E se eu simplesmente sumisse dali? Para um lugar distante, onde nenhum dos dois fosse capaz de me achar? Não, eles me encontrariam de qualquer jeito. Mas ainda assim, tudo o que eu queria era sair dali, ficar bem longe de tudo. Só não queria ficar longe de Sophie. Nem longe de Evan, principalmente longe dele. Não havia mais ninguém que me passasse tudo o que ele me passava. Um querer e um não querer ao mesmo tempo.
Sophie encontrava-se sentada em sua cama, lendo alguns dos manuscritos que eu encontrara anteriormente em cima de sua escrivaninha. O clima permanecia ameno, mas ela estava em baixo de um pequeno cobertor floreado nas cores azul e verde. Ela mal levantou os olhos ao perceber que eu estava no quarto, mas voltou sua atenção a mim quando lhe fiz uma pergunta.
- O que você está lendo? – Questionei-lhe.
- Nada demais. – Ela respondeu.
- Isso é latim, não é?
- É. Alguns dos escritos são. Outros já foram traduzidos para o português há algum tempo.
- Onde foi que você aprendeu tudo isso?
- Eu não disse que minha família mexia com esse tipo de coisa? Já deve ter visto em alguns livros que a maior parte dos feitiços deriva do latim, pelo fato de ser uma língua morta e a qual nem todos tem acesso. Palavras têm poder, Nick, principalmente se usadas da maneira correta. 
- Então isso seriam... feitiços?
- Não. Bem, eu ainda não tenho esse tipo de poder. Mas sei falar latim e aqui encontram-se algumas instruções de como lidar com as visões que costumo ter. Dizem que eu posso sim, desenvolver e passar a praticar feitiçaria. Mas não quero isso. Quero viver da maneira mais simples possível, longe de tudo isso e de todo o tipo de coisa que minha família incentiva. Só voltei a lembrar disso e ter visões depois que conheci Evan.
- Você o tem ajudado desde então?
- Eu e ele procuramos algum modo de fazer essa “maldição”, se assim podemos chamar, parar. Logo quando ele me encontrou, soube dos meus poderes e pediu ajuda.
- Sei.
- Pois é. Minha vida tem se revelado bem agitada desde aquele ano.
- É, eu sei como se sente. – Concordei. A vida dela não era a única a estar sempre sofrendo reviravoltas. Isso acontecia tanto comigo que eu não via a hora de o fim chegar. De encontrar um ponto morto, onde viveria com estabilidade e sem precisar me preocupar com grandes problemas ou catástrofes e todos aqueles com quem me importo estariam seguros.
É claro que isso não aconteceria.
- Sinto muito. Não queria que tivesse que se envolver nisso. Você é minha única amiga de verdade, e saber que um dia vou ter que abrir mão da nossa amizade... você é uma das melhores pessoas que eu já conheci, e se revelou de extrema importância nesses últimos meses.
- Obrigada. Você também, Sophie. – Respondi. Realmente acreditava que Sophie era minha melhor amiga. Jamais conhecera tão bem alguém como ela e jamais alguém me conhecera tão bem assim. Sabia que podia contar com ela para tudo.
- Sei que você vai sempre estar aí quando eu precisar. Não tinha certeza de nada disso com Hollie. Só queria agradecer pela sua amizade. Sabe, você é minha melhor amiga.
- Posso dizer o mesmo. – Falei. – Então, quer dizer que pode haver uma maneira de quebrar a maldição de Evan?
- É. Bem, segundo alguns rumores que ele ouviu vindos de outro anjo, isso é possível. Só ninguém ainda sabe como. Talvez isso tenha algum prazo de validade.
- Não sei. Meu único papel é ser morta, não é mesmo? – Brinquei, e ao ver Sophie séria cheguei à conclusão de que seria melhor me desculpar. – Desculpe. É que é melhor aceitar isso e lidar com bom humor, não?
- Ok. Pode ser que você esteja certa. Afinal, é como dizem: a morte sempre é pior pra quem fica. – Ela disse.
- Posso comprovar que sim.
- Sinto muito por te fazer lembrar disso.
- Não é nada.
- Mas é difícil... deve ser.
- Bem, não adianta ficar remoendo o assunto, remoendo as ideias. Tudo isso... pode ter sido difícil, mas já passou. Chorar ou ficar mal não vai trazê-los de volta. Mesmo que às vezes a tristeza seja inevitável, foi isso que eu aprendi.
- Como o mundo é injusto.
- Eu sei.
E depois de encerrarmos a conversa, coloquei meu pijama e resolvi deitar. Já eram pelo menos 22h, e mesmo que não tivéssemos aula no dia seguinte, eu estava morrendo de sono.
Provavelmente, meu sábado seria como todos os outros haviam sido: tedioso. Já que não tínhamos aula nem projetos extra para fazer, ou passávamos os sábados fazendo lição ou então acabávamos simplesmente não fazendo nada. Eu talvez atualizasse minha leitura em algum livro, ou quem sabe visse algum filme com Sarah. Não tínhamos o costume de sair da escola como alguns dos alunos faziam, mas se o fizéssemos com certeza nos divertiríamos mais.
De qualquer forma, eu gostava desse tédio por não fazer nada e gostava de ficar ali. Gostava de estar perto de Sophie e perto de Evan. Finalmente sentia que pertencia a algum lugar. Eu também poderia marcar algo com eles, como já havíamos feito outras vezes.
Sair para andar pelos arredores da escola ou simplesmente encontrar um lugar a sombra onde pudéssemos ler sossegadamente. Às vezes, brincávamos jogando bola ou fazendo algum jogo bobo como “adivinhe o que estou pensando” ou mimicas. Sempre nos divertíamos muito juntos. Não seria má ideia passar um dia fazendo nada com os dois.
***
Assim que deitei minha cabeça no travesseiro, todo o impacto das notícias que havia recebido veio à tona. A ficha finalmente caiu. Que eu iria morrer, era um fato, mas saber que iria morrer morta por quem eu... por quem estava sempre ali comigo, por quem me amava!
De qualquer forma, não tinha muito o que fazer. Praticamente nada. Deixei que as lágrimas caíssem e molhassem o local onde eu escorava meu rosto. Pouco tempo depois, virei de lado na cama e peguei no sono. Sonhei que era perseguida por um anjo.

***
O fim de semana passou extremamente rápido, e na segunda-feira, todos agiram como se nada houvesse acontecido, o que de certa forma me incomodou um pouco. Evan era o mesmo de sempre. Sophie também. Parecia que apenas eu fora afetada pela notícia, ou então já estava tão acostumada com eles se comportando dessa forma que não notei nenhuma diferença sequer. Cheguei a conclusão de que não tinha medo de morrer. Meu medo era deixar tudo isso pra trás. Deixar tudo e todos aqueles que eu já conhecia para enfrentar o desconhecido. Para reencarnar mais uma vez, e ser morta mais uma vez. Qual era o sentido disso tudo? Pelo que eu estava pagando?
Durante a troca de períodos, Sarah passou por mim e fez uma careta estranha. Segundos depois, senti uma mão gelada segurando meu braço e lá estava ela.
- O que aconteceu com você? Por acaso passou a noite em claro? – Questionou minha irmã, aparentemente preocupada com meu estado.
- Não! Está tudo bem, Sarah, sério. – Respondi.
- Você está com olheiras horríveis. Tem certeza de que não quer me contar nada?
- Eu estou bem. Confie em mim. – Disse, tentando tranquiliza-la. Era um fato que eu não estava dormindo direito nas últimas noites, mas ela não precisava se importar com nada disso.
- Não senti confiança.
- Eu juro.
- Está bem. – Ela soltou a mão de meu braço. – Mas ainda acho que você deveria passar uma tarde comigo, um dia desses. Terá ensaios do jazz essa semana?
- Terei sim, mas ainda possuo outros dias livres. Se não tiver nenhum trabalho para fazer, pode me procurar e com certeza faremos alguma coisa. Sinto falta de passar com você o tempo todo, como fazíamos antigamente, mas por enquanto me contento com algumas tardes. – Sorri para ela.
- Eu também.
E ao dizer isso, ela virou-se de costas para mim e seguiu em direção a sua sala de aula. Segui o exemplo e fiz o mesmo. Teria aula com Sophie, o que era um dos lados bons de estar na classe de física. Eu gostava, mas não era exatamente aquilo que se pode chamar de “boa”.
Faltavam pelo menos dois minutos para que a aula começasse e ela ainda não havia chegado na sala de aula. Tentei ligar para o seu celular, mas ela não atendeu, então o guardei de volta no bolso do casaco que usava. Não pude deixar de me preocupar, já que ela acordara bem de manhã e havia vindo à aula junto comigo e Evan. Chovia do lado de fora. Não conseguiria escapar daquela aula nem mesmo que saísse da sala instantaneamente.
A Srta. Brown nos explicou um novo conteúdo e nos deixou sós enquanto praticávamos uma lista de exercícios que entregara. Nisso, senti meu celular vibrar. Era uma mensagem de Sophie.
“Tenho novidades. Preciso encontra-los o mais rápido o possível.”, ela dizia. Provavelmente enviara para mim e para Evan. Será que havia recebido mais alguma pista sobre o paradeiro de Hollie e sobre o que ela estava planejando? Tudo fazia sentido ao imaginar que deixara o prédio das salas de aula ao perceber que estava prestes a receber outra de suas visões.
- Você recebeu a mensagem de Sophie? – Perguntou Evan, juntando-se a mim na saída da escola, após o último período de aula que tivéramos naquele dia.
- Recebi. Me pergunto se ela não recebeu mais nenhuma visão dos planos de Hollie. – Eu respondi.
- Acredito que seja. É bem provável. – Ele falou – tenho medo de que ela e Lilith já tenham se encontrado. Se isso aconteceu, podemos esperar tentativas de assassinato em breve.
Senti meu sangue gelar ao ouvir isso. Tentativas de assassinato contra mim.
- Pois é. – Eu não sabia o que dizer.
- Vou fazer de tudo para impedir eles de chegarem até você.
- Vai fazer alguma diferença? – Sussurrei, esperando que ele não ouvisse. Ele não ouviu.
Continuamos andando até que enfim chegamos ao nosso dormitório. Ao invés de almoçarmos, Sophie marcou com a gente para conversar e nos atualizar dos acontecimentos.
- Eu tive outra visão. – Iniciou ela. – E aparentemente as duas estão mais próximas do que pensam. Do que Hollie pensa.
- O que quer dizer com isso? – Questionou Evan.
- Que Hollie está quase chegando até ela. Assim que terminar de cruzar o estado de Finalis, encontrará Lilith. E ela está avançando mais rápido do que esperávamos.
- Quão mais rápido?
- Cerca de um estado por dia.
- Ok. Isso é aterrorizante. – Comentei. – Como ela consegue?
- Com a ajuda de alguns servos de Lilith, provavelmente. Ela já aguardava a visita de Hollie há um bom tempo.
- Isso me deixa preocupada. Quer dizer, amanhã mesmo eles podem aparecer por aqui e tentar me matar?
- Podem, mas acredito que não o farão. Elas não se precipitariam tanto assim. Devem querer armar um plano ou traçar estratégias, se é que Lilith já não tem tudo em mente.
- Entendo. – Por dentro, estava com medo. Mas não tanto quanto deveria. Estava começando a aceitar. E bem, se fosse necessário, eu iria lutar. – Como eu poderia me defender de algum deles, caso aparecessem e eu estivesse... sozinha?
- Você nunca estará sozinha. – Falou Evan, lançando um olhar petulante em minha direção.
- Mas e se...
- Não. – Ele interrompeu. – Nós jamais a deixaremos sozinha.
- Já lhe ocorreu que podem tentar me atacar durante, sei lá, o banho? Esse é um momento em que eu gostaria de ter privacidade, sabe? – Eu disse e ele corou.
- Mas estaríamos vigiando a porta. – Tentou recompor-se.
- Tem a janela. E fala sério, eles não precisariam passar por nenhum desses dois se são tão poderosos assim. Além do mais, eu realmente gostaria de aprender a me defender. Seria bastante útil.
- Bem, se serve de consolo – começou a garota – tenho algo que pode lhe ser útil.
Ela levantou da cama e andou em direção a escrivaninha. Abriu uma das gavetas e de dentro retirou um pequeno embrulho de pano, aparentemente sujo e desgastado pelo tempo em que estivera ali. Uma fina camada de pó deixara marrom o tecido que um dia fora branco. Cuidadosamente, ela o trouxe de volta até sua cama e o deixou no colo.
- Adivinhe. – Falou, empolgada.
- Mas que diabos...? – Falei.
- Estou dizendo para adivinhar o que é. Adivinhe o que eu tenho aqui.
- Sophie, se quer um conselho...
- Calado, Evan, estou falando com Nick.
- Não sei – falei, arqueando as sobrancelhas. Às vezes eu tinha a impressão de que Sophie sofria de problemas de hiperatividade ou algo parecido com uma tpm constante. Mudava de humor de hora em hora. Era difícil compreender, mas não tão impossível assim.
- Como você é sem graça. Sério – disse ela enquanto desembrulhava cuidadosamente o objeto, que reluziu ao primeiro feixe de luz que encontrou. Eu estava extasiada. Era um dos artefatos mais bonitos que eu já vira, embora não tivesse exatamente experiência com esse tipo de coisa. Parecia prata legítima. – Uma adaga. Fora de minha mãe, mas antes fora de minha vó e da vó dela antes disso. Está na minha família há muitas gerações, e gostaria que você a usasse. O nome dela é Destinantur. Destinada, em latim. Segundo a lenda, está destinada a grandes feitos. E é isso que tem realizado até agora.
- Que tipo de feitos? – Perguntei, impressionada.
- Destinada a pertencer a grandes pessoas, com grandes destinos. Pessoas que desempenhariam um papel importante.
- E acha que eu seria capaz de usar algo assim?
- Acho. Sabe, também nunca acreditei que a adaga pertencesse a mim de fato. Sempre tivera a sensação de ser apenas uma guardiã. Que a guardaria até que a pessoa destinada a ela aparecesse. E ela só pode ser você. Ou Evan. Mas deixarei ela com você. – Seu rosto estava mais sério, mas ainda demonstrava uma pitada de animosidade.
Permaneci em silêncio enquanto ela me entregava o objeto. Era impressionantemente leve para o material que a constituía. A lâmina era reta e lisa, enquanto a empunhadeira e o guarda mão possuíam entalhes que lembravam uma cobra. Era excepcionalmente bonita. Faria qualquer coisa para aprender a usá-la.
- Como uso? – Perguntei.
- Quando chegar a hora, vai saber o que fazer com ela. – Disse Sophie.
- Ok, melhor colocar ela de volta na bainha antes que algum acidente aconteça. – Falou Evan, sarcasticamente.
- Está duvidando das minhas habilidades, Evan? – Brinquei.
- Eu? Não sei do que está falando. – Ele fingiu e nós três rimos.
- Bem, eu acho que é isso. Só cuide-se e ande sempre com a adaga. Ela pode ser de extrema utilidade, mas não a deixe muito a mostra. Não queremos que seja confiscada por nenhum professor.
- Certo, Sophie. Obrigada. Eu realmente agradeço por isso.
- Como iremos nos dividir para cuidar de Nick? – Perguntou o garoto. Eu gostava dele, mas estava sendo protetor demais.
- Vocês não precisam ficar comigo o tempo inteiro...
- Nos dividiremos. Durante o dia, sempre estamos juntos igual, e durante a noite eu fico com ela, já que dividimos o quarto.
- Tudo bem. – Ele concordou.
- Gente...
- Sem discussão, Nick. – Evan disse. – Você precisa que estejamos sempre com você.
- Olha, eu gosto da companhia de vocês, mas sem exageros, por favor.
- Só estamos nos prevenindo.
- Ai, Deus. Ok. – Desisti de tentar discutir. Não valia a pena. Mas se eu quisesse ficar um tempo sozinha, ficaria, e eles não poderiam me impedir. Não abriria mão da minha privacidade, mesmo que isso burlasse alguma norma qualquer de segurança que os dois haviam imposto. Eu sabia me cuidar sozinha.
Passamos mais um tempo juntos, debatendo, e depois que Evan saiu, eu e Sophie começamos a nos arrumar para a aula de Jazz, que naquele dia teria pelo menos meia hora a mais, para recuperar um dos períodos da semana anterior, no qual a professora havia saído mais cedo. A aula foi tranquila, assim como a noite e o dia seguinte. E o dia após aquele.
Na quinta-feira, durante o 4º período, a Diretora Price apareceu em minha sala de aula.
- Nicole. – Ela chamou, deixando-me sobressaltada. O que ela poderia querer comigo?
- Sim? – Respondi.
- Me acompanhe, por favor.
Com a licença concedida pelo professor, saí da sala de aula e andei ao lado da Diretora até chegar a diretoria. Percebi que havia um homem lá dentro. Ele vestia um terno preto e carregava consigo uma pasta marrom com tamanho o suficiente para suportar várias folhas A4.
- Por favor, entre e sente-se ao lado deste homem.
- O que houve? – Perguntei enquanto me sentava na cadeira em frente a sua mesa. Ela fez a volta e sentou-se em sua cadeira, ajeitando os óculos no rosto.
- Bem, por onde começar... – Iniciou ela.
- Aconteceu alguma coisa com Sarah? – Eu estava assustada. Não era normal ser chamada para a sala do diretor, a menos se você houvesse infligido algum tipo de ordem ou algo grave tivesse acontecido. Será que Sarah sofrera algum acidente?
- Sua irmã está bem e logo a chamaremos aqui também. Mas, já que você é a mais velha, decidimos lhe contar primeiro. Esse é o Dr. Callaway, advogado do seu tio. – Não. De jeito nenhum. Não. – Ele está aqui para tratar de alguns detalhes. - Ela engoliu em seco.  - O Sr. Reynolds foi encontrado morto essa manhã. Junto com sua noiva. – Não.