CAPÍTULO 10 - Nicole

- Como assim ele te beijou? – Perguntou Sophie, surpresa e ligeiramente transtornada.
- Só... Me beijou. Eu não queria falar pra ninguém mas preciso muito de um conselho e...
- Eu não sei o que dizer. – Ela interrompeu.
- Hollie viu, é isso que me preocupa. Ela está com raiva de mim, agora mais do que antes.
- Ai, meu Deus.
- Pois é.      
- Por que você sempre arruma confusão?
- Não que eu queira. – Eu disse, revirando os olhos. Como se eu tivesse escolha. Era óbvio que se tivesse, nem estaria ali.
- O que você pensou em fazer agora?
- E tem alguma coisa pra ser feita? Além de seguir a vida, normalmente? Eu vou ser odiada por Hollie pelo resto da vida e provavelmente nunca mais irei falar com Evan. Mas é isso. Eu supero.
- Espero que isso realmente aconteça. Que Evan nunca mais fale com você, ou chegue perto de você. – E ao dizer isso, seus olhos encheram-se d’água. Eu não sabia o que responder.
- O que...?
Estava confusa. O que ela queria dizer com isso?
E foi aí que comecei a ligar os pontos. Lembrei do que ela havia dito a ele hoje, mais cedo, enquanto ouvia atrás da porta. Sobre ele precisar se afastar de alguém. Mas... Era impossível que aquilo fosse sobre mim, não é? Eles falavam sobre matar alguém. Isso... Evan jamais poderia fazer isso. E jamais faria isso comigo. Ou faria?
- Eu já volto. Tenho algumas coisas para resolver. – Disse Sophie, que logo saiu apressadamente do quarto. Por Deus, ela iria falar com Evan. E eu sabia disso.
Minhas suspeitas se confirmavam cada vez mais.
- SOPHIE! – Gritei na hora em que ela passou pela porta. – Espere!
Ela virou para mim. Sua expressão misturava tristeza, raiva e ódio. Eu só queria saber por que. Será que ela gostava dele e eu não sabia?
- Por favor, me explique o que está acontecendo. Eu ouvi vocês falando. Era sobre mim, não era? – Supliquei.
- Não é nada, Nick.
- Tem que ter alguma coisa. Você está estranha.
- Eu prometo que vou lhe explicar tudo mais tarde, mas tem uma coisa que eu preciso fazer e não posso esperar.
- Por favor, não demore.
- Tudo bem. – Ela falou, e então saiu em direção às escadas. Não pude ver para onde ela foi, mas tinha a sensação de que iria mesmo encontrar-se com o garoto que eu havia beijado minutos antes.
Eu estava cheia de dúvidas. Não sabia porque me sentira tão bem com Evan. Não sabia porque ele havia me beijado, e também não sabia porque eu havia gostado. Talvez essa fosse a pior parte. Eu não poderia me apaixonar por Evan. Só que isso não faria a maior diferença, agora que Hollie vira a situação. Também não sabia porque ele simplesmente levantara dali dizendo que aquilo fora um erro. Admito que fiquei um pouco magoada com isso.
Além do mais, sobre o que Evan e Sophie falavam? Lembrei da primeira vez em que os vi conversando. Ela nunca me explicara sobre a conversa que tivera com ele outra vez, onde ele disse que eu era repulsiva. Essa nova conversa parecia tratar de algo muito pior. Eles falavam sobre morte, sobre Evan matar alguém. Era realmente sério? Sobre o que faziam tanto segredo?
Minha mente estava repleta de porquês. Eu precisava de respostas, mas somente Evan e Sophie poderiam me dar. Eu precisava descobrir. Precisava que essas dúvidas fossem eliminadas, e se Sophie não poderia me explicar naquele momento, talvez eu devesse ir até o dormitório de Evan e encurralá-los. Talvez fosse o certo a fazer.
A parte ruim é que ao mesmo tempo, eu não queria atrapalhar. Não queria interromper o momento caso estivessem resolvendo algo importante, o que provavelmente era o caso. Eu nem era tão íntima assim dos dois. Sabia que me escondiam muitas coisas, e era isso que me matava. Eu queria saber, mas não podia.
Resolvi ficar sozinha por mais um tempo. Aceitar os fatos. E aceitar que eu me interessava por Evan desde a noite em que conversamos pela primeira vez, de verdade. Quando notei que ele era mais que um simples garotinho mimado que só ligava para festas e garotas. Era capaz de entender porque Hollie o amava tanto. Ou dizia que o amava.
Evan me contara, no começo da noite, sobre a sua vida. Contara que sua infância não foi das mais fáceis. Que cresceu sem ter o pai presente em sua vida e que raramente se viam. Disse que a relação entre os dois era bastante complicada, e que não conseguia a amar o pai. Era quase ódio. Sentia muita raiva dele por tê-los abandonado, a ele e a mãe dele, quando ele ainda nem era nascido. A deixara arcando sozinha com as consequências de uma gravidez de risco e com 50% de chances de que a criança nem nascesse. Para a surpresa de todos, ele nascera saudável, e conseguia se adaptar bem a qualquer lugar. Ele e sua mãe mudavam-se com muito mais frequência que qualquer família normal. Pelo menos uma vez a cada dois ou três meses. Esse era um dos motivos para ser uma pessoa de poucos amigos, e isso só mudou quando veio para Faint Ville, para estudar na ILL. Sua mãe já estava tão doente que não possuía mais condições de sair por aí de mês em mês, e ficava na casa da irmã mais nova, onde recebia os devidos cuidados, para que o filho pudesse estudar. Me senti um pouco comovida com isso, em saber que ele tinha tantos problemas quanto eu, mas era ainda pior. Tendo meus pais mortos, sabia que nada mais podia acontecer. Que não havia nada para fazer que mudasse isso. Ele lidava o tempo todo com o medo de receber um telefonema informando alguma tragédia e não tinha nenhuma notícia de seu pai.
Conversamos um pouco sobre alguns livros que ambos havíamos lido, e sobre o interesse em saber o que havia além do céu estrelado que enxergávamos. Sobre o universo tão imenso e inconstante. A única certeza que tínhamos sobre isso era que não viveríamos tempo o suficiente para ver todos mistérios que ele escondia.
Tudo isso, todos os interesses e pensamentos em comum, me fazia ficar interessada em saber o que se passava em sua mente e se ele poderia gostar de mim com a mesma facilidade com que eu gostava dele. Talvez fosse até mais que um simples gostar.
Resolvi tomar um banho e tentar esquecer disso por enquanto. Um dia para pensar já fora o suficiente para me fazer querer esquecer. A realidade era dura demais para mim, a vida era muito cheia de incertezas. Separei minhas roupas e segui para o banheiro. Liguei o chuveiro no morno e deixei que a água relaxasse meus músculos tensos, àquela altura, pelo que havia acontecido.
Não é nada demais, foi só um beijo. Repetia incessantemente para mim mesma enquanto esfrega shampoo pelos meus cabelos. Sophie com certeza tem uma explicação para tudo isso, e ela é mais razoável do que eu estou imaginando.
Enxaguei os cabelos e desliguei o chuveiro. Sequei-me e coloquei minha roupa ali mesmo. Já me sentia um pouco mais relaxada.
Isso não durou muito.
Estendi minha toalha no box e saí. Notei que Sophie havia colocado algumas fotos novas no mural, inclusive algumas nossas fazendo caretas e brincando com a câmera. O que me chamou atenção além disso, foram as folhas que encontravam-se acima de sua escrivaninha.
Eu sabia que não deveria mexer e que ela ficaria louca comigo se soubesse o que eu estava fazendo. Eram folhas amareladas, aparentemente antigas com escritas em uma língua que demorei a identificar. Era latim.
Mais um por que se formava em minha mente. Não tínhamos aula de latim ali, e era uma língua morta. Não encontrava uma razão para tais escritos serem encontrados assim, tão à mostra. Não era a primeira coisa estranha que encontrava entre os objetos dela. Iria perguntar sobre isso quando ela voltasse ao dormitório.
Decidi ler um pouco, e o fiz até as 22h30min. Vendo que ela não voltaria tão cedo, deixei o livro de lado e peguei no sono, sem notar a porta abrir ou fechar durante a noite.
Na manhã seguinte, Sophie já não estava lá quando acordei. Pensei que estivesse braba comigo e desregulado meu despertador no meio de alguma brincadeira idiota, mas o relógio da parede marcava 5h58min. O sol estava nascendo do lado de fora, e a cama dela estava da mesma forma que fora deixada da noite anterior. Tentei afastar qualquer tipo de pensamento de minha cabeça e aprontei-me para a aula. 
O primeiro tempo não era com Sophie, mas o segundo sim. O terceiro seria com Evan. Não vi nenhum dos dois a manhã inteira, e também não esbarrei com Hollie nos corredores. Algo muito estranho estava de fato acontecendo.
Por um momento, pensei ter visto os dois juntos no corredor que levava ao laboratório de ciências, mas era apenas um casal qualquer. Mesmo Cassidy estranhou o fato de nenhum dos dois comparecer e eu estar sozinha.
Acabei almoçando com ela, Nathaly e Sarah. Depois, voltei para o meu quarto e permaneci lá até a aula de jazz no fim da tarde.
Recebi a notícia de que Hollie havia largado as aulas. E Sophie também não comparecera.
Comecei a me preocupar com o sumiço repentino dos dois e pensei em avisar a direção da escola, caso durasse por mais algum tempo. Tentei mandar mensagem em seu celular, mas ela o havia deixado no quarto. Andei até o dormitório de Evan, e Ryan me informou de que também não o via desde a noite anterior, quando saíra com Sophie. Ele disse que os dois pareciam tensos e preocupados com alguma coisa, mas não o contaram nada a respeito disso.
Mais segredos. Pelo menos pude saber que não escondiam coisas apenas de mim, mas o que será que os dois sabiam ou teriam feito de tão grave e importante assim? Eu iria enlouquecer.
Voltei para o meu quarto, e alguns minutos depois, ouvi a fechadura ranger. Alguém havia girado a maçaneta, tentando entrar. Fui até a porta e girei a chave. Sophie estava do lado de fora, bastante pálida e com enormes olheiras debaixo dos olhos castanhos que eram disfarçadas por seus óculos. Ela entrou no quarto vagarosamente.
- Olá. – Disse ela.
- Onde você esteve? – Perguntei, preocupada. – Parece que você vai desmaiar, meu Deus! Sente-se logo.
- Eu... – Ela iniciou, mas não conseguiu terminar de falar. Caíra por sobre a cama, como que convulsionando. Seus olhos foram substituídos por duas esferas negras e ela tremia muito. Tentei pedir ajuda, mas minha voz não saia. Era como se estivesse sendo sufocada pela atmosfera pesada que condensava o ar em volta da garota desmaiada. Tentei me mover, mas também não conseguia. Só consegui ficar ali, parada, olhando. Cerca de um minuto depois, ela parou. Seus olhos voltaram ao normal e Sophie me encarou, mas não parecia ela mesma. Esticou a mão direita em minha direção e eu caí sobre o chão frio.
***
- Nick? – Ouvi uma voz feminina me chamar, ao longe. Não consegui identificar quem era. Estava presa em algum lugar, e tudo era escuro. – Nick!
A voz ficava cada vez mais alta e próxima. Tinha a sensação de que se esticasse o braço, poderia sentir a respiração da pessoa que falava.
- Nick... Você precisa acordar.
- Hm... – Consegui murmurar.
- Nicole. Está na hora. – Ela falou mais uma vez, mas não reagi. Somente consegui abrir os olhos quando senti uma mão em meu braço.
Acordei com um susto.
- Ah, ainda bem.
Era Sophie. Ela encontrava-se ao meu lado. Eu estava deitada em minha cama e não fazia a menor ideia de como fora parar ali. Não lembrava de muita coisa. Sentia apenas uma dor lancinante em minha cabeça.
- O que aconteceu? – Perguntei, entorpecida.
- Nick, precisamos conversar. – Ela disse.
- Sophie, o que...?
- Hollie desapareceu. E você corre perigo.