CAPÍTULO 1 - Nicole

Era um dia comum no meio do inverno. O vento gelado teimava do lado de fora e atravessava meu casaco como se ele sequer estivesse ali. Não era a primeira vez que isso acontecia. Eu me virava bem, na maior parte do tempo. A noite era uma das piores partes de toda a minha rotina, mas contando que o resto seria aceitável, eu aguentava. Estava mais uma vez na rua, procurando pelo meu pai, que devia estar mergulhado até o pescoço em bebida e com a chave da casa no bolso esquerdo da calça. Havíamos combinado de escondê-la debaixo do capacho da porta, mas ele sempre esquecia. Vínhamos levando esta vida desde a morte da minha mãe, três anos antes.
Morávamos em uma casa de dois andares no sul de Cameron Bay. Era uma cidade pequena, com poucos pontos turísticos e nenhuma história interessante para contar. Quando eu era pequena, meus pais costumavam levar a mim e minha irmã, Sarah, para passar a tarde no único parque da cidade. Nós nos divertíamos muito. Pena que esse tempo passou. Atualmente, possuo 16 anos, e Sarah tem 13. Ela não é uma pessoa difícil de lidar, mas desenvolveu alguns problemas depois de... bem, daquilo. Às vezes a escuto chorando baixinho, na calada da noite, quando pensa que todos estão dormindo. Dividimos o mesmo quarto, que é decorado com notas musicais, prateleiras de livros e bichos de pelúcia. Não suporto essa decoração, mas minha vida é isso. Livros e música. De alguma forma, acho que conseguimos encontrar nas palavras algum conforto que ninguém mais é capaz de nos dar. Sarah teve depressão por mais ou menos um ano, mas felizmente conseguimos resolver este problema. Talvez não tenha sido de fato a morte da minha mãe que fez meu pai ficar daquele jeito, mas os acontecimentos que decorreram depois.  A depressão de Sarah, gastamos horrores com remédios e médicos, ele perdeu o emprego, e agora tem de sustentar a casa com o mísero salário que recebe trabalhando meio período em uma lanchonete. O maior problema é que ele gasta grande parte em bebida, então sobra pouco para qualquer outra coisa. Comecei a trabalhar na mesma época em que essa situação se agravou. Cantava em alguns cafés durante a tarde, no período em que não estava na escola. E assim eu e Sarah sobrevivíamos.
Andei por um bom tempo até chegar no bar onde meu pai eventualmente ficava. Estava bêbado demais para andar para casa. Sem surpresa alguma, o encontrei em uma situação deplorável. A barba malfeita estava comprida demais, e o cabelo parecia mais com um ninho de ratos. Ele cheirava a cerveja e uísque barato. Mal conseguia levantar-se da cadeira, mas com minha ajuda ficou de pé e dirigiu-se até a calçada, onde um táxi amarelo nos esperava. O motorista era um velho conhecido de meu pai. Talvez por isso nos concedesse algumas viagens grátis do bar até a nossa casa. Eu poderia pagá-lo, mas ele disse que se eu desse uma quantia "x" no final do mês estaria satisfeito. Saía mais barato do que pagar todos os dias, afinal. Eram 19hs quando chegamos em casa. Ele sequer tomou banho. Apenas foi para o quarto. E permaneceu lá até o dia seguinte. Melhor assim. Ao menos não ficava violento quando a única coisa com a qual se preocupar era a ressaca do dia seguinte.
Tirei minhas luvas e pendurei meu casaco em um pininho na parede. Sarah havia ficado esperando do lado de fora até que chegássemos. Agora estava lendo, na sala, com os fones de ouvido no último volume. Sarah lembrava muito a mamãe. Com cabelos negros até o ombro e olhos azuis cansados. Aparentava mais idade devido a tudo o que já havia passado. Mais do que qualquer pessoa merece passar. Busquei meu livro no quarto e juntei-me a ela ao lado da lareira.
- Oi. - Ela levantou os olhos das páginas amareladas, tirou os fones e olhou diretamente para mim.
- Olá. - Respondi enquanto me sentava no sofá em frente ao dela.
- Sabe que dia é hoje? - Perguntou.
- 12 de janeiro.
- Fazem quatro anos hoje, Nick. - Deixou uma lágrima escapar.
- Eu sei. - Pisquei rápido e várias vezes para evitar chorar. Minha tentativa deu certo. Tentava parecer forte na frente dela, para que ela sentisse que podia se apoiar em mim. Mas às vezes era difícil e eu não conseguia evitar.
- A cada dia eu sinto como se uma parte dela fosse embora. Você lembra de como era a voz dela? Qual era o cheiro dela?
Balancei a cabeça em resposta.
- Eu sei que, onde quer que ela esteja, está olhando para nós. Ela não ia querer que ficássemos remoendo isso a cada ano, Sarah.
- Você é a única que sabe o quanto isso é complicado.
- Sim. Mas eu ainda tenho você. - Sorri para ela. Ela deu um sorriso forçado em resposta. - Venha aqui.
Ela pulou para meu lado no sofá, e juntas permanecemos pelo resto da noite. Abraçadas, em silêncio. Apenas esperando o dia seguinte amanhecer, sem saber o que nos aguardava daquele dia em diante.
***
A manhã seguinte custou a chegar. Fomos acordadas pelo barulho que meu pai fez ao bater a porta do banheiro. Pude julgar que ele não estava muito bem pelos sons que vieram em seguida. Eu e Sarah precisávamos ir à escola, então nos arrumamos no banheiro do andar de cima que raramente era utilizado por qualquer outra pessoa. Era naquele andar que ficava o antigo quarto dos nossos pais e o nosso, mas nos mudamos para o andar de baixo quando a crise se agregou. Eu já havia arrumado minha bolsa na noite anterior. Sarah havia feito o mesmo. Tomamos café da manhã e voltei ao quarto de meu pai para avisar que estávamos saindo para a escola. Ele resmungou em resposta. Sabia que ele não lembraria depois, mas provavelmente não iria nem perceber que não estávamos em casa.
Foi uma manhã bastante comum. Nós duas estudávamos na mesma escola, e chegamos quase em cima do horário. Sarah foi ao encontro de suas amigas, e eu segui meu caminho pelo corredor extenso. Estava no penúltimo ano do colégio. Havia acabado de começar. Anna era minha melhor amiga. Talvez seja da natureza de uma pessoa introvertida fazer amizade com a garota mais popular da turma. Ela era uma pessoa legal, mas era incrivelmente cheia de compromissos, por isso não nos víamos muito fora da escola. O resto da manhã foi como sempre. Aulas, intervalo, aulas, saída. Almoçamos em um restaurante, e voltamos para casa. Papai não estava lá. Mas que ele nunca estava.
Precisei sair novamente para ir trabalhar. Havia agendado um compromisso em um café para as 14 horas e outro as 15hs30min. Não tive muito tempo para me organizar. Apenas deixei Sarah em casa, tomei um banho rápido e vesti minha calça jeans habitual e uma camiseta de mangas compridas, que combinava com meu sobretudo preto. Deixei meu cabelo solto e saí. A neve caia de mansinho e fazia muito frio. Mas não me importei. Baixei a cabeça e andei rapidamente até o café. Harry já estava me esperando. Ele era o dono da cafeteria, e quase como um segundo pai para mim.
- Olá, querida! O que preparou para hoje?
- Mais uma das minhas composições. E depois posso ver o que tem na caixinha de pedidos.
Harry deixava uma pequena caixinha roxa passando de mesa em mesa de vez em quando, para que os clientes pudessem pedir a música que queriam ouvir. Muitas vezes haviam pedidos de músicas recém lançadas, ou então de alguns clássicos populares. Alguns clientes gostavam de me ouvir cantar. Para outros, era como se eu já houvesse me misturado ao ambiente da cafeteria.
Depois de uma hora cantando, saí e me dirigi para o outro café onde deveria me apresentar. Ficava próximo ao restaurante em que meu pai trabalhava e ao bar onde ele sempre ia, mas eu havia ido lá poucas vezes para cantar. Já havia almoçado com Sarah no lugar algumas vezes. Lembrei-me de comprar um cupcake de baunilha para ela quando saísse de lá. Martha, uma das gerentes do local, me recebeu e disse onde poderia me apresentar. Pluguei meu notebook a uma caixa de som e deixei que a melodia da música invadisse a sala. Ensaiei por alguns minutos com meu violão até o primeiro cliente chegar. Fiz a mesma apresentação que havia feito na cafeteria de Harry. E então notei que estava sendo observada por um garoto sentado próximo a janela.
Ele estava acompanhado de uma garota alta, de cabelos castanhos e olhos da mesma cor. Isso não mudava em nada o fato de ela ser extremamente linda. Vestida calças jeans e um casaco verde muito bonito. Mantinha o olhar de superioridade, enquanto ele apenas me olhava, de longe. E eu o olhava de volta enquanto cantava. Ele possuía cabelos loiros e olhos castanhos. Mas a garota na frente dele chamou sua atenção, e em seguida, inclinou-se por sobre a mesa e o beijou. Eles levantaram, pagaram a conta, e saíram. Se me perguntassem o que eu achava do casal, diria que não combinavam nem um pouco. Ela era definitivamente o oposto do garoto que eu havia visto. Poderia muito bem ser modelo. Não esqueceria do rosto dele tão facilmente, mas não podia me dar ao luxo de pensar numa pessoa que eu sequer conhecia.
Terminei a apresentação, peguei meu dinheiro, e saí. Liguei para Sarah e descobri que papai não estava em casa. Decidi procurá-lo no mesmo bar do dia anterior, afinal, ele sempre estava li. Andei rapidamente no frio, ofegando enquanto acelerava o passo, mas eu não podia parar até encontrá-lo. Não demorei tanto tempo assim para chegar lá, já que o café ficava próximo ao local. Nada de táxi amarelo na frente do bar. Estranho. Entrei e perguntei ao bar-man se havia visto meu pai. Ele já havia saído dali, há pelo menos 30 minutos. Então continuei andando em direção a nossa casa. Às vezes ele saía mais cedo e ficava vagando pelas ruas até encontrar o caminho. Há poucos quilômetros do bar, notei um aglomerado de pessoas e uns dois carros de polícia. Uma ambulância também se encontrava parada ali, e os policiais pediam distância. Um atropelamento, aparentemente. Me aproximei para ver mais de perto o que havia acontecido. Um policial pegara o telefone celular da vítima e procurava um número para ligar. Meu telefone tocou no exato momento em que ele colocou o celular na orelha.

A vítima era meu pai.