PRÓLOGO

“Havia naqueles dias gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Elohim adentraram às filhas dos homens e delas geraram filhos; estes eram os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama.”
Gênesis, Bíblia.
Houve um princípio. Onde tudo começou. Tempos onde o homem vagava são pela Terra e ainda não havia sido poluído pela perdição, pelas dúvidas. E lá, não na Terra, mas num lugar semelhante, eles eram todos bons. Até que cinco recusaram-se a seguir as ordens divinas e foram expulsos dos céus. Eram anjos, mas transformaram-se em demônios. Cobiçavam poder maior, pecaram por orgulho. Yekun foi o primeiro. Rebelou-se. Incentivou os outros quatro a irem atrás. Ensinou aos homens a linguagem dos sinais, a ler e a escrever com tinta. Kesabel foi o segundo. Encorajou os anjos a terem relações com humanos. Gadreel, por sua vez, ensinou aos humanos sobre a morte. A como usar uma espada para ferir outro anjo. Foi o terceiro anjo a cair. O quarto chamava-se Penemue e ele ensinou a mentir. Kadyade, quinto e último anjo, ensinou aos mortais sobre os espíritos.
Estes cinco vieram ao nosso mundo e dele fizeram sua morada. Procriaram conforme o que ensinou Yekun e ensinaram aos homens sobre o bem e o mal. Hoje, vivem tranquilamente num reino entre a Terra e os Céus, deixando o nosso mundo como legado aos seus filhos.
Alguns seres humanos foram destinados a terem os caminhos entrelaçados a estes híbridos chamados nefilins. Coincidentemente, a história que se encontra neste livro narra a vida de uma garota qualquer, que entre bilhões de pessoas, teve o azar de ser escolhida. Teve seu passado amaldiçoado e o destino condenado por Gadreel. Sabe-se apenas que isso nunca acaba bem.

É o século XXI, mas isso não muda muita coisa. Não altera o que já aconteceu, nem mesmo o que pode vir a se passar. A vida segue normalmente, e ninguém sabe de nada. A não ser por eles. E em breve, por ela

CAPÍTULO 1 - Nicole

Era um dia comum no meio do inverno. O vento gelado teimava do lado de fora e atravessava meu casaco como se ele sequer estivesse ali. Não era a primeira vez que isso acontecia. Eu me virava bem, na maior parte do tempo. A noite era uma das piores partes de toda a minha rotina, mas contando que o resto seria aceitável, eu aguentava. Estava mais uma vez na rua, procurando pelo meu pai, que devia estar mergulhado até o pescoço em bebida e com a chave da casa no bolso esquerdo da calça. Havíamos combinado de escondê-la debaixo do capacho da porta, mas ele sempre esquecia. Vínhamos levando esta vida desde a morte da minha mãe, três anos antes.
Morávamos em uma casa de dois andares no sul de Cameron Bay. Era uma cidade pequena, com poucos pontos turísticos e nenhuma história interessante para contar. Quando eu era pequena, meus pais costumavam levar a mim e minha irmã, Sarah, para passar a tarde no único parque da cidade. Nós nos divertíamos muito. Pena que esse tempo passou. Atualmente, possuo 16 anos, e Sarah tem 13. Ela não é uma pessoa difícil de lidar, mas desenvolveu alguns problemas depois de... bem, daquilo. Às vezes a escuto chorando baixinho, na calada da noite, quando pensa que todos estão dormindo. Dividimos o mesmo quarto, que é decorado com notas musicais, prateleiras de livros e bichos de pelúcia. Não suporto essa decoração, mas minha vida é isso. Livros e música. De alguma forma, acho que conseguimos encontrar nas palavras algum conforto que ninguém mais é capaz de nos dar. Sarah teve depressão por mais ou menos um ano, mas felizmente conseguimos resolver este problema. Talvez não tenha sido de fato a morte da minha mãe que fez meu pai ficar daquele jeito, mas os acontecimentos que decorreram depois.  A depressão de Sarah, gastamos horrores com remédios e médicos, ele perdeu o emprego, e agora tem de sustentar a casa com o mísero salário que recebe trabalhando meio período em uma lanchonete. O maior problema é que ele gasta grande parte em bebida, então sobra pouco para qualquer outra coisa. Comecei a trabalhar na mesma época em que essa situação se agravou. Cantava em alguns cafés durante a tarde, no período em que não estava na escola. E assim eu e Sarah sobrevivíamos.
Andei por um bom tempo até chegar no bar onde meu pai eventualmente ficava. Estava bêbado demais para andar para casa. Sem surpresa alguma, o encontrei em uma situação deplorável. A barba malfeita estava comprida demais, e o cabelo parecia mais com um ninho de ratos. Ele cheirava a cerveja e uísque barato. Mal conseguia levantar-se da cadeira, mas com minha ajuda ficou de pé e dirigiu-se até a calçada, onde um táxi amarelo nos esperava. O motorista era um velho conhecido de meu pai. Talvez por isso nos concedesse algumas viagens grátis do bar até a nossa casa. Eu poderia pagá-lo, mas ele disse que se eu desse uma quantia "x" no final do mês estaria satisfeito. Saía mais barato do que pagar todos os dias, afinal. Eram 19hs quando chegamos em casa. Ele sequer tomou banho. Apenas foi para o quarto. E permaneceu lá até o dia seguinte. Melhor assim. Ao menos não ficava violento quando a única coisa com a qual se preocupar era a ressaca do dia seguinte.
Tirei minhas luvas e pendurei meu casaco em um pininho na parede. Sarah havia ficado esperando do lado de fora até que chegássemos. Agora estava lendo, na sala, com os fones de ouvido no último volume. Sarah lembrava muito a mamãe. Com cabelos negros até o ombro e olhos azuis cansados. Aparentava mais idade devido a tudo o que já havia passado. Mais do que qualquer pessoa merece passar. Busquei meu livro no quarto e juntei-me a ela ao lado da lareira.
- Oi. - Ela levantou os olhos das páginas amareladas, tirou os fones e olhou diretamente para mim.
- Olá. - Respondi enquanto me sentava no sofá em frente ao dela.
- Sabe que dia é hoje? - Perguntou.
- 12 de janeiro.
- Fazem quatro anos hoje, Nick. - Deixou uma lágrima escapar.
- Eu sei. - Pisquei rápido e várias vezes para evitar chorar. Minha tentativa deu certo. Tentava parecer forte na frente dela, para que ela sentisse que podia se apoiar em mim. Mas às vezes era difícil e eu não conseguia evitar.
- A cada dia eu sinto como se uma parte dela fosse embora. Você lembra de como era a voz dela? Qual era o cheiro dela?
Balancei a cabeça em resposta.
- Eu sei que, onde quer que ela esteja, está olhando para nós. Ela não ia querer que ficássemos remoendo isso a cada ano, Sarah.
- Você é a única que sabe o quanto isso é complicado.
- Sim. Mas eu ainda tenho você. - Sorri para ela. Ela deu um sorriso forçado em resposta. - Venha aqui.
Ela pulou para meu lado no sofá, e juntas permanecemos pelo resto da noite. Abraçadas, em silêncio. Apenas esperando o dia seguinte amanhecer, sem saber o que nos aguardava daquele dia em diante.
***
A manhã seguinte custou a chegar. Fomos acordadas pelo barulho que meu pai fez ao bater a porta do banheiro. Pude julgar que ele não estava muito bem pelos sons que vieram em seguida. Eu e Sarah precisávamos ir à escola, então nos arrumamos no banheiro do andar de cima que raramente era utilizado por qualquer outra pessoa. Era naquele andar que ficava o antigo quarto dos nossos pais e o nosso, mas nos mudamos para o andar de baixo quando a crise se agregou. Eu já havia arrumado minha bolsa na noite anterior. Sarah havia feito o mesmo. Tomamos café da manhã e voltei ao quarto de meu pai para avisar que estávamos saindo para a escola. Ele resmungou em resposta. Sabia que ele não lembraria depois, mas provavelmente não iria nem perceber que não estávamos em casa.
Foi uma manhã bastante comum. Nós duas estudávamos na mesma escola, e chegamos quase em cima do horário. Sarah foi ao encontro de suas amigas, e eu segui meu caminho pelo corredor extenso. Estava no penúltimo ano do colégio. Havia acabado de começar. Anna era minha melhor amiga. Talvez seja da natureza de uma pessoa introvertida fazer amizade com a garota mais popular da turma. Ela era uma pessoa legal, mas era incrivelmente cheia de compromissos, por isso não nos víamos muito fora da escola. O resto da manhã foi como sempre. Aulas, intervalo, aulas, saída. Almoçamos em um restaurante, e voltamos para casa. Papai não estava lá. Mas que ele nunca estava.
Precisei sair novamente para ir trabalhar. Havia agendado um compromisso em um café para as 14 horas e outro as 15hs30min. Não tive muito tempo para me organizar. Apenas deixei Sarah em casa, tomei um banho rápido e vesti minha calça jeans habitual e uma camiseta de mangas compridas, que combinava com meu sobretudo preto. Deixei meu cabelo solto e saí. A neve caia de mansinho e fazia muito frio. Mas não me importei. Baixei a cabeça e andei rapidamente até o café. Harry já estava me esperando. Ele era o dono da cafeteria, e quase como um segundo pai para mim.
- Olá, querida! O que preparou para hoje?
- Mais uma das minhas composições. E depois posso ver o que tem na caixinha de pedidos.
Harry deixava uma pequena caixinha roxa passando de mesa em mesa de vez em quando, para que os clientes pudessem pedir a música que queriam ouvir. Muitas vezes haviam pedidos de músicas recém lançadas, ou então de alguns clássicos populares. Alguns clientes gostavam de me ouvir cantar. Para outros, era como se eu já houvesse me misturado ao ambiente da cafeteria.
Depois de uma hora cantando, saí e me dirigi para o outro café onde deveria me apresentar. Ficava próximo ao restaurante em que meu pai trabalhava e ao bar onde ele sempre ia, mas eu havia ido lá poucas vezes para cantar. Já havia almoçado com Sarah no lugar algumas vezes. Lembrei-me de comprar um cupcake de baunilha para ela quando saísse de lá. Martha, uma das gerentes do local, me recebeu e disse onde poderia me apresentar. Pluguei meu notebook a uma caixa de som e deixei que a melodia da música invadisse a sala. Ensaiei por alguns minutos com meu violão até o primeiro cliente chegar. Fiz a mesma apresentação que havia feito na cafeteria de Harry. E então notei que estava sendo observada por um garoto sentado próximo a janela.
Ele estava acompanhado de uma garota alta, de cabelos castanhos e olhos da mesma cor. Isso não mudava em nada o fato de ela ser extremamente linda. Vestida calças jeans e um casaco verde muito bonito. Mantinha o olhar de superioridade, enquanto ele apenas me olhava, de longe. E eu o olhava de volta enquanto cantava. Ele possuía cabelos loiros e olhos castanhos. Mas a garota na frente dele chamou sua atenção, e em seguida, inclinou-se por sobre a mesa e o beijou. Eles levantaram, pagaram a conta, e saíram. Se me perguntassem o que eu achava do casal, diria que não combinavam nem um pouco. Ela era definitivamente o oposto do garoto que eu havia visto. Poderia muito bem ser modelo. Não esqueceria do rosto dele tão facilmente, mas não podia me dar ao luxo de pensar numa pessoa que eu sequer conhecia.
Terminei a apresentação, peguei meu dinheiro, e saí. Liguei para Sarah e descobri que papai não estava em casa. Decidi procurá-lo no mesmo bar do dia anterior, afinal, ele sempre estava li. Andei rapidamente no frio, ofegando enquanto acelerava o passo, mas eu não podia parar até encontrá-lo. Não demorei tanto tempo assim para chegar lá, já que o café ficava próximo ao local. Nada de táxi amarelo na frente do bar. Estranho. Entrei e perguntei ao bar-man se havia visto meu pai. Ele já havia saído dali, há pelo menos 30 minutos. Então continuei andando em direção a nossa casa. Às vezes ele saía mais cedo e ficava vagando pelas ruas até encontrar o caminho. Há poucos quilômetros do bar, notei um aglomerado de pessoas e uns dois carros de polícia. Uma ambulância também se encontrava parada ali, e os policiais pediam distância. Um atropelamento, aparentemente. Me aproximei para ver mais de perto o que havia acontecido. Um policial pegara o telefone celular da vítima e procurava um número para ligar. Meu telefone tocou no exato momento em que ele colocou o celular na orelha.

A vítima era meu pai. 

CAPÍTULO 2 - Nicole


O corpo estava estirado no meio da rua e eu me perguntava o que havia acontecido. Não podia ser ele. Simplesmente não podia. Mas era. Seus olhos estavam fechados e a cabeça apoiada no meio fio. Os paramédicos traziam a maca. Havia sangue.
Mais adiante, outros médicos trabalhavam para colocar o homem que o havia atropelado na ambulância. Eu queria gritar. Queria fazer algo para que ele ficasse bem. Um dos policiais me conduziu para um banco na calçada, próximo ao local, e tentou explicar o que aconteceu. Aparentemente, meu pai iria atravessar a rua, quando viu um carro se aproximando e simplesmente ficou parado ali. No meio da avenida. Esperando. E o motorista não o vira por causa da neve. Segundo as testemunhas, ele estava em alta velocidade, mas meu pai teria tempo o suficiente para sair dali. Ele me perguntou se eu estava bem, e eu lhe disse que sim, mas não era verdade. Era nítido que meu pai havia tentado se matar.
E então comentei com ele sobre Sarah, e que precisava buscá-la em casa antes de irmos ao hospital. Nesse meio tempo, já estavam colocando papai na ambulância. Ele ofereceu carona e me levou até em casa.
Desci do carro após alguns minutos e chamei por Sarah. Ela demorou um tempo para atender a porta.
- Nick? O que houve? - Ela perguntou. Engoli em seco. - Onde está o papai?
- Sarah, precisamos ir até o hospital. Aconteceu um acidente.
Ela me olhou diretamente nos olhos e deixou que lágrimas escorressem por seu rosto. Correu para dentro de casa, buscou sua bolsa e foi comigo para a viatura. Demoramos um pouco até chegar no hospital, afinal, ele ficava há alguns quilômetros de casa. Sarah não chorava mais, mas pude ver que estava profundamente abalada. Mais uma vez.
- Ei - chamei - Vai ficar tudo bem.
- Foi o que você disse da última vez.
- Olhe, eu também estou triste. Mas não estou descontando em você.
- Nicole, pare. Por favor. Eu não tenho mais 5 anos, sei bem o que está acontecendo.
- Desculpe. Só queria ajudar. Você não é a única que tem problemas. - Respondi.
Ficamos em silêncio o resto do caminho. Quando chegamos lá, uma enfermeira nos informou que ele estava em cirurgia, e deveríamos esperar na sala de espera, um cubículo com paredes verdes, sofás brancos e uma mesinha de centro cheia de jornais e revistas. Ficamos ali por meia hora. Lemos, conversamos sobre como havia sido nosso dia e por fim, nos calamos. Até que um médico vestido de branco da cabeça aos pés veio até nós.
- Vocês são as filhas de James Reynolds?
- Sim. - Eu e Sarah falamos ao mesmo tempo.
- Bem... Imagino que isso não seja fácil. Onde está a mãe de vocês?
- Ela morreu há 4 anos. - Falei.
- Oh. Sinto informar-lhes, mas, seu pai não... não resistiu a cirurgia. Ele sofreu uma parada cardíaca durante o processo e não conseguimos reanimá-lo. De qualquer forma, ele bateu a cabeça no chão e havia um coágulo quase irreparável em seu cérebro.
Sarah escorou a cabeça nos joelhos e começou a chorar. Eu permaneci imóvel. Olhando para ele. Tudo o que senti foi raiva. Raiva por ele ter-nos abandonado, por ter nos deixado por nossa conta e risco. Por ter feito isso de propósito. Por ter esquecido de que precisávamos de carinho e por ter passado mais tempo em bares do que conosco. E agora desistira de vez. Nos deixara para viver sem nenhum auxílio. Mas afinal, já não estávamos acostumadas? Ele nos deixou. Nos abandonou mais uma vez.
- Vocês teriam algum outro parente próximo para receber a informação e buscá-las? - Ele perguntou. Falava devagar, parecia pensar bem em que palavras usar. Não, nós não tínhamos ninguém. Exceto tio John.
- Não. - Eu disse, por fim. - Não próximo. Temos um tio que mora em Faint Ville. Mas é só. E meu pai não falava com ele há anos.
De fato, o irmão de meu pai, John, morava em Faint Ville. Mas ele havia parado de ligar para meu pai. Aparentemente, se cansara de ouvi-lo reclamar da vida em toda ligação.
- Você tem como dar a notícia a ele? - O médico me perguntou. Assenti e peguei o telefone. Disquei o número, e na terceira chamada, ele atendeu.
- Nicole! A que devo a honra dessa ligação? - Ele parecia animado.
- É sobre meu pai.
- O que houve? Aconteceu alguma coisa?
- Meu pai sofreu um acidente. Ele não resistiu.
- Está brincando, não é?
- Hm, não.
- Ah, Deus. Estou embarcando para Cameron Bay amanhã. Cuidem-se, e não façam nenhuma besteira.
- Espere! - Eu disse pouco antes de ele desligar. O médico indicara o telefone em minha mão. - O Dr. Robins quer falar com você.
Passei o telefone para ele. Dr. Robins dirigiu-se com meu celular para uma sala ao lado dali. Não consegui ouvir o que falavam, mas imaginei que ele estivesse explicando a causa do óbito. Tentei aproximar-me de Sarah. Ela deixou que eu chegasse perto e me abraçou. Chorou em meu colo por um longo tempo, e eu também chorei. Até que decidimos que o melhor a fazer seria ir para casa. Esperei até que Dr. Robins devolvesse meu telefone e voltamos andando. As ruas pareciam todas em silêncio. O sol se punha no horizonte. Era um lindo final de tarde que de alguma forma me fez pensar que nem tudo estava perdido. Não conseguimos fazer praticamente nada quando chegamos em casa. Apenas dormimos, na sala, abraçadas uma a outra, naquele imenso espaço vazio. Não fomos a aula no dia seguinte, e as 11hs da manhã, recebi um telefonema de tio John.
- Sim?
- Oi, Nick. Acabei de chegar no aeroporto, e estou indo de táxi para a casa de vocês. Precisa que eu leve alguma coisa?
Olhei para trás, onde ficava o sofá em que Sarah estava sentada. Ela estava com os olhos inchados. Havia sido uma noite difícil.
- Talvez um calmante. Seria bom.
- Certo. - Ele respondeu. - Logo, logo estarei aí.
E então desligou. Eu ainda estava do mesmo jeito que no dia anterior, então resolvi tomar um banho e colocar uma roupa limpa. Vesti uma calça de moletom e camiseta de manga comprida. A lareira estava acesa, então não fazia frio dentro de casa. Sarah seguiu meu exemplo e logo ficou pronta. Em menos de uma hora, tio John bateu na porta. Trouxera consigo, além da mala, comida e várias embalagens de calmante. Não comíamos nada desde a noite anterior, então estávamos morrendo de fome.
- Olá, meninas. - Ele largou as coisas e nos abraçou. - Como vocês estão?
- Não muito bem. - Respondeu Sarah.
- Foi uma noite difícil. - Completei.
- É, eu imagino. Foi difícil para mim também. Mas não se preocupem, vai dar tudo certo. Já estou organizando o funeral, que será amanhã a tarde. E depois, vocês duas podem ir para Faint Ville comigo.
Gostaria de saber porque todos dizem que tudo vai dar certo no final. Acho que é o que todos acreditam ser certo, mas não faz muito sentido. Quem são essas pessoas para dizer como a vida vai seguir? Decidi não comentar. Sarah sorriu ao ouvir a palavra "Faint Ville". Ela sempre sonhara em conhecer o lugar, assim como eu. Desde pequena fantasiávamos que vivíamos lá, em uma cidade grande e diferente.
- Mas e a escola? - Perguntei. - Não que eu não queira ir, mas, a gente ainda tem aula.
- Minha secretária está preparando a papelada para matricular vocês no colégio interno mais prezado de lá. - Ele piscou para nós. Tio John era empresário. Podia arranjar o que quisesse, a hora que quisesse.
- Por mim tudo bem. - Disse Sarah, já parecendo um pouco mais animada. - Quando a gente parte? Não aguento mais viver nessa casa. Me traz memórias boas, mas ao mesmo me prende ao passado e pelo amor de Deus, eu preciso sair daqui.
- Daqui quatro dias. De acordo?
- Com certeza. - Respondi, e então o abracei.
O resto do dia passou rápido. Assistimos a alguns filmes e fomos dormir cedo. De vez em quando eu acabava deixando algumas lágrimas escorrerem. Não pela morte dele, mas pela situação, pois era como se ele já não estivesse mais ali havia muito tempo. Sarah seguido precisava ir para o quarto chorar. O dia seguinte foi terrível. Acordamos cedo e fomos para a igreja, não muito cheia, mas com bastante conhecidos do meu pai e amigos da família. O padre deu início a cerimônia e eu li um pequeno discurso em homenagem a meu pai. Ele não havia sido um bom pai nos últimos anos, mas antes disso eu nunca tivera do que reclamar. Falei em memória dos bons tempos. Do resto, ninguém precisava saber. Meu consolo foi pensar que estávamos passando por isso porque algo melhor nos aguardava dali para frente.
Sofremos o impacto da perda pelos dias que se seguiram, mas também tivemos tempo para nos livrar de alguns itens. E, no sábado seguinte, seguimos para Faint Ville. Iríamos ficar na casa de tio John por alguns dias, e depois começaríamos a estudar na Instituição Libby Lewis para Meninos e Meninas. Parecia algo "classudo" demais, mas agora viveríamos melhor do que antes. Limpamos nosso quarto, guardamos nossos livros e roupas em bolsas separadas e seguimos em direção ao aeroporto, deixando para trás um lugar onde vivemos grande parte de nossas vidas. Mas precisávamos seguir em frente. E essa foi uma das melhores e piores coisas que aconteceu conosco.
Chegamos no aeroporto de Faint Ville cedo na manhã de domingo. Um carro já estava a nossa espera, e me perguntei se tio John era realmente tão rico assim. O homem que nos esperava segurava uma plaquinha escrita "Sr. Reynolds" e vestia um terno preto, o que me fez pensar que ele era o chofer da família. Uau. Um chofer. Meu tio o cumprimentou e entregou suas malas para ele. O homem esperou que fizéssemos o mesmo, mas insisti em levar as minhas coisas eu mesma. Havia um carro preto nos esperando do lado de fora, e ali embarcamos e fomos direto para a "Mansão Reynolds". Tio John falara sobre ela o voo todo. Era sua mais nova aquisição. Eu e Sarah estávamos ansiosas para conhecer o local. Cada uma de nós teria um quarto para si só.
Enquanto o carro andava, eu observava as paisagens e os tão famosos pontos turísticos da cidade. Os parques e as estátuas que podíamos enxergar de longe. Era tudo mais bonito pessoalmente. Tio John disse que teríamos tempo o suficiente para visitar todos estes lugares. Chegamos em casa rapidamente. Era realmente uma mansão. Era enorme, com lustres de cristal e pratarias enfeitando todo o lugar. Logo ao entrar, devíamos passar pelo salão de entrada, que era enorme, e então, entre o salão e a cozinha, ficava a escada para o segundo andar. Ele tinha empregadas. E pediu para que duas delas nos levassem até nossos quartos. Era tudo maravilhoso.



CAPÍTULO 3 - Nicole


Meu quarto ficava no segundo andar, próximo ao de Sarah. Havia um corredor comprido com várias portas. A segunda era o quarto em que eu ficaria. E ele era enorme. Branco com preto, com uma casa de casal, mesa de cabeceira e onde devia haver um roupeiro, havia na verdade uma estante para livros, já com vários, e dois pequenos sofás. Me senti no paraíso, mas ainda não havia acabado. A janela era quase da largura da parede e era gigante. Através dela eu podia observar o pátio gramado da casa e ver, ao longe, um dos pontos turísticos mais famosos e bonitos da cidade. Era uma visão linda, recheada de prédios altos e casas. Eu tinha certeza de que iria amar aquele lugar. Faint Ville era uma cidade úmida, e eu amava a chuva. Poderia vê-la através da janela quando eu quisesse. E se não estivesse satisfeita, poderia simplesmente fechar a cortina. Havia uma porta que levava ao primeiro quarto do corredor. Para minha surpresa, encontrei ali uma penteadeira e vários manequins vazios, próximos a um armário preto. Tenho um closet. Nunca pensei se quer em morar em um lugar como aquele. Era mais do que eu podia pedir.
Desarrumei minhas malas e coloquei as roupas nas gavetas de um armário do closet. Fiz questão de deixar os manequins sem nenhuma peça de roupa. Ia contra meus princípios usar esse tipo de coisa. Minha pouca maquiagem foi colocada na gaveta da penteadeira, e eu descobri que havia mais uma variedade enorme de coisas ali dentro. Mas eu não usava muita maquiagem nem tinha muitas roupas para enfeitar tudo aquilo. Apenas possuía o essencial, e isso bastava. Guardei a mala no armário, em uma parte inutilizada, e fui dar uma olhada na minha nova estante. Haviam vários livros que eu sempre quisera as mãos. Livros de todos os gêneros, para os mais variados gostos. Havia uma prateleira reservada também para cd’s e discos de vinil antigos. Logo sentei em minha poltrona e coloquei música para tocar. Era relaxante. Mas uma batida na porta me distraiu. Era tio John.
- Espero que tenha gostado. Sabia como gostava de ler e que tinha uma ligação especial com música, então selecionei alguns dos favoritos da sua mãe e outros que minha noiva ajudou a escolher para você. Esse lugar era um quarto de hóspedes, por isso mandei adaptarem do seu jeito. Se quiser que eu mude sua decoração, é só pedir.
- Não! De jeito nenhum, não quero lhe dar trabalho, e de qualquer forma não vou passar tanto tempo assim aqui. Está tudo ótimo. - Ele sentou-se na segunda poltrona do quarto, em frente à minha.
- Olhe, eu preciso conversar com você sobre o que aconteceu. - Disse. Eu respirei fundo e coloquei o livro que segurava de lado.
- Muito bem. Estou aqui.
- Você sabe que seu pai e eu não éramos muito próximos, e nos afastamos ainda mais depois de sua mãe ter falecido. Foi realmente uma tragédia. E ele me deixou avisado de que se alguma coisa acontecesse com ele, eu deveria assumir o cargo de tutor. Já está tudo resolvido legalmente, por isso estou aqui e vocês também. - Ele abotoou o casaco. Estava frio, e eu havia deixado uma parte do vidro da janela aberto. A metade de cima era maneável, então pude deixar uma fresta aberta e o vento tomou conta do quarto. - O que aconteceu não foi nada bonito. Mas quero que saibam que estarei aqui para o que precisarem, e estou disposto a tudo. - Ele sorriu, e eu retribuí.
- Já está exercendo sua função muito bem. Eu e Sarah estamos muito gratas por tudo o que tem feito pela gente. Além do mais, sempre foi nosso sonho conhecer Faint Ville. Morar aqui vai ser melhor ainda. - Falei. Suspirei. - Eu estou chateada com tudo o que aconteceu. Não é justo, entende? Eu sei que não foi ao acaso que ele morreu. Mas onde quer que esteja, está muito feliz com a mamãe. Só... foi rápido demais. Essas coisas normalmente ocorrem sem aviso, eu sei, mas não pude deixar de sentir uma pontada de raiva por ele ter ido sem se despedir. Iremos ficar bem. Não quero que se preocupe. Fale com Sarah. Talvez ela precise de consolo mais do que eu.
- Certo... - Ele parecia não saber o que fazer. Confuso. - Sobre a escola, você acha que fiz uma boa escolha? O ano letivo é no mesmo período do que sua antiga escola, então você já sabe como funciona. Matriculei você no terceiro ano e sua irmã na oitava série, estou certo?
- Está sim. Obrigada.
- Ok. A partir de terça-feira vocês irão praticamente morar lá. Terão aula no período normal, e no oposto, poderão tirar um tempo para ir à biblioteca, estudar ou fazer alguma atividade extra. Eles vão explicar as regras para vocês quando chegarem lá, de qualquer forma. Queria ter mais tempo para mostrar toda Faint Ville para você, mas você sabe como é o trabalho. Amanhã deixarei vocês com minha noiva, Anna, e ela poderá ajudá-las a comprar o material escolar e a buscar seus uniformes. Vocês, garotas, se dão melhor juntas. E ela ainda pode opinar sobre as coisas que vocês escolherem.
- Tudo bem. Mal posso esperar. - falei, sorrindo.
- Aliás, ela vem jantar aqui esta noite. Está ansiosa para conhecer vocês. - ele se levantou. - Preciso falar com Sarah. Se me dá licença...
Tio John não era dali, mas devido ao tempo que passara em Faint Ville já havia adquirido o sotaque local. O que não me incomodava nem um pouco. Eu adorava o sotaque, mas essa era apenas uma das coisas que me fazia achar o lugar adorável. Em pouco tempo, tomei banho, me arrumei para o jantar e li um pouco. Fui checar a lista de materiais da escola em meu notebook novo e a imprimi no escritório de tio John, juntamente com a de minha irmã, que estava radiante com tanta novidade. Conversando comigo, me contou que estava ansiosa para conhecer Anna e finalmente voltar a estudar. Principalmente porque, diferente das outras adolescentes, sempre quisera estudar em um colégio interno. Mas talvez todos pensem assim até de fato estudar em um. No tempo que me havia sobrado, escrevi um pouco em meu diário. Não era exatamente um diário, mas eu o chamava assim porque costumava anotar pensamentos e o carregava comigo onde quer que fosse. Acabara de completar as últimas duas folhas quando Sarah bateu na porta do meu quarto e disse que Anna estava lá em baixo. Sarah estava linda, com um vestido de mangas compridas que ia até o joelho. Estava frio, mas a casa era climatizada, então não sentíamos muito "o inverno". Eu vestira uma camiseta básica branca e calça jeans, juntamente com meus tênis all star favoritos. Nós duas descemos juntas, e encontramos Anna e tio John na sala de jantar. Não podia negar que ela era linda. Possuía cabelos castanhos e olhos azul claro.
- Ah, finalmente! - exclamou tio John - Anna, quero que conheça minhas sobrinhas Nicole e Sarah.
- Olá! Eu sou Anna. É um prazer finalmente conhecê-las. - Ela sorriu e nos abraçou. Parecia uma boa pessoa, e isso se provou verdade com o decorrer da noite. Se ela fingia ser tão amável, estava encenando muito bem.
- Bem, preciso ir. Já está tarde. Mas amanhã voltarei, e então podemos ir às compras. - Ela riu. - Estou ansiosa para passar um tempo com vocês, meninas.
Anna despediu-se da gente e de Tio John e foi embora. Eu e Sarah fomos cada uma para o seu quarto, e logo peguei no sono. Alguns sonhos ainda perturbavam minha noite. Era como se eu revivesse o dia da morte de meu pai. A escola, o café, o garoto que me olhava, a multidão na rua. Acordava várias vezes durante a noite, perturbada. Mas decidi que não deixaria que aquilo me me abalasse mais. Eu seria feliz, e tinha tudo para isso. Bem, quase tudo.
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Anna chegou cedo na manhã seguinte, logo após tio John ter saído para trabalhar. Tomamos café e nos aprontamos para sair. Nevava lá fora, mas nada que nos impedisse. Mesmo já tendo tomado o café da manhã, paramos em uma cafeteria para beber alguma coisa, já que o clima frio nos impedia de permanecer quentinhas em nossos casacos. Logo saímos dali com um café na mão e fomos a diversas lojas diferentes. Anna conhecia a cidade como a palma de sua mão. Indicou que escolhêssemos roupas e materiais novos a partir da lista que tínhamos, e foi o que fizemos. O uniforme implicava que vestíssemos pelo menos a camiseta da escola, mas também compráramos moletons e calças para educação física.
Escolhi meu material e uma mochila nova para poder levar tudo o que eu precisava para a escola. Anna também nos fez escolher malas para levar ao colégio, já que ficaríamos lá boa parte do tempo. Não foi difícil escolher tudo, mas ela nos levou a tantos lugares diferentes que logo eu já estava confusa com o que ainda devia comprar. Ela acabou deixando que eu comprasse mais um livro. Em minha defesa, eu não havia encontrado aquele na estante.
Sarah também fez suas compras, e insistiu em me mostrar coisa por coisa quando chegamos em casa. Em nosso passeio, embora nevasse bastante, consegui ver uma boa parte de Faint Ville que eu não conhecia. Era melhor do que eu pensava. E agora não via a hora de ir para a escola. Esperava me sair bem. Iríamos pra lá bem cedo no dia seguinte, já que a escola ficava bem no interior da cidade. Segundo Tio John, era um lugar bem aconchegante, e a própria Anna nos disse que havia estudado lá por algum tempo, o que nos acalmou. Mas ainda assim estávamos ansiosas para o dia seguinte.
Li bastante durante aquele dia e consegui terminar um dos livros que Tio John me dera. O primeiro de muitos. Assisti a um filme com Sarah e depois subi para arrumar minhas coisas. A mala maior seria para roupas. Coloquei os conjuntos de uniforme que haviam sido comprados no mesmo dia, camisetas normais para o final de semana e calças jeans. Não poderiam faltar os casacos. Sobrou um pequeno espaço, onde consegui encaixar alguns pares de sapato e objetos para higiene pessoal. Separei alguns adereços de cabelo e lá estava minha primeira mala. Pronta. Arrumei todo o meu material na bolsa da escola, e na segunda mala coloquei alguns livros e objetos que gostaria de levar comigo, como meu notebook e dois ou três porta-retratos. Passei bastante tempo no meu quarto, escrevi em meu novo diário e desci apenas na hora da janta. Fui dormir bastante cedo, se comparado ao que eu estava acostumada. Talvez pelo fuso horário. Não era muito diferente, porém ainda assim eu sentia. Escutei música com meus fones de ouvido até pegar no sono. Foi uma noite tranquila, mas acordei diversas vezes devido a ansiosidade. Acordei por volta das 5h30min do dia seguinte, fui para o banheiro e tomei um banho. Deixei que a água quente aliviasse a tensão. Vesti uma roupa normal - calça jeans, camiseta e casaco - e esperei até que Tio John me chamasse. Tomamos o café da manhã, e então era hora de ir. Arrumamos as malas no carro, peguei minha bolsa e seguimos para a nova escola, que ficava a mais ou menos uma hora dali.

CAPÍTULO 4 - Nicole

- Bem-vindas à Instituição Libby Lewis para Meninos e Meninas. - Disse a diretora Price. - É aqui que vocês irão morar e estudar pelos próximos meses. É importante que saibam que não permitimos que os alunos saiam para fazer passeios durante a semana, mas se optarem por ficar aqui no fim de semana terão o sábado e o domingo livre para fazer o que quiserem, é claro, sem abusos. Não permitimos meninos na ala feminina a partir das 21 horas e o toque de recolher é as 21h30min.
Ela mantinha um ar arrogante. Vestia blazer por cima da camisa e salto alto preto. Eu e Sarah a ouvíamos falar enquanto, ao lado de tio John, observavam um armário com troféus no começo do corredor que dava para as salas de aula. A seguiam pelo corredor enquanto ela lhes dava detalhes e mais detalhes sobre o cotidiano da escola.
O corredor era extenso, repleto de salas de aula e projetos extra-classe. Haviam salas especialmente para música, teatro, um estúdio de dança e corredores que conduziam a outros lugares da escola, como a cantina. Tudo nos foi apresentado calmamente pela diretora Price, e depois de pelo menos 40 minutos, seguimos para a área dos dormitórios, que ficava separada da escola por outro longo corredor na parte superior do local.
- O dormitório das meninas fica no andar de cima, e o dos meninos, no de baixo. Não vou exigir que compareçam às aulas hoje, já que precisam colocar as coisas em ordem nos seus dormitórios. Nicole, o seu quarto é o de número 22B, o penúltimo do lado direito. Sarah, o seu é o número 7A, logo aqui ao lado. - Disse ela apontando para uma porta marrom próximo a tio John - Costumamos dividir os quartos por idade, portanto Sarah ficará com outra menina de 13 anos, Nathaly, e você, Nicole, com uma de 16, a Sophie. Aqui está a chave. Cada aluno tem a sua. Cuide bem dela, pois se perder terá que dar um jeito de dividir a chave com sua colega de quarto ou comprar uma nova. Sr. Reynolds, caso queria acompanhar-me até minha sala e deixar que as meninas se organizem...
Dizendo isso, diretora Price e tio John seguiram para a escada no final do corredor. Logo pudemos enxergá-los, através da grande janela, passando pelo corredor que levava até o prédio principal.
Meu quarto era bem no final do corredor. Esperava que todas as garotas do local fossem "patricinhas mimadas", mas ao abrir a porta do quarto fiquei surpresa. A parede da direita era repleta de posters de bandas antigas como Beatles ou Rolling Stones colados ao lado de bandas Indie atuais. O fato de encontrar alguém com bom gosto musical não era o que mais me surpreendia. Era ter encontrado alguém com este gosto ali.
Pelo menos terei alguém com quem conversar a respeito de músicas, pensei. O quarto era composto por duas camas simples, duas cômodas, uma escrivaninha e um armário, sem contar as duas prateleiras. Era um local bem espaçoso. Abri o fecho da mala e comecei a organizar minhas coisas. Coloquei os livros em minha prateleira e as roupas na cômoda. Achei melhor não mexer no armário até que Sophie chegasse.
Ainda estava colocando algumas coisas no lugar quando vi a maçaneta da porta girar. Uma garota ruiva entrara pela porta, vestindo o uniforme da escola e óculos de grau. Possuía olhos castanhos. Era sem dúvida muito bonita.
- Ah, oi! Você deve ser a Nicole, certo? Me avisaram que se mudaria pra cá, hoje. - Ela sorriu ao apertar minha mão.
- Eu mesma. E você deve ser Sophie.
- Em carne e osso. - Ela riu. - Quem mais teria a chave desse quarto?
- Então, você gosta de música?
Ela dirigiu-se para a cama, tirou os sapatos e deitou apoiando a cabeça nas mãos.
- Com certeza. Acho que deu pra notar.
- Também gosto.
- Você é não é daqui. Tem sotaque.
- Ah... Sim, eu vim de Cameron Bay.
- Logo percebi pelo cabelo louro e os olhos azuis. Tem muita gente assim lá, não é? Mas me diga, veio por quê? Especialmente para estudar aqui?
- Não. Meu pai morreu e minha única família mora aqui.
- Oh. Sinto muito. Pela minha indelicadeza... - Sophie voltou a sentar-se e ficou séria de repente.
- Tudo bem. - Disse, tentando parecer o menos emocionada possível. - Ei, posso usar um lado do armário?
- O quê? Claro! Arrumei um lado para você ontem mesmo.
- Obrigada.
- Ah meu Deus, eu amo este livro! - Disse ela apontando para um dos primeiros que se encontrava em minha prateleira.
- Sério? Parece que vamos nos dar bem. - Sorri enquanto puxava a mala para perto do armário.
- Creio que sim, já que a maioria das meninas daqui só liga para o cabelo.
Nós duas rimos. E conversamos mais um pouco, até ela ter que voltar para a aula. Enquanto isso, saí para explorar um pouco mais e buscar algo que pudesse servir de almoço. Descobri que havia uma sala de estar próximo ao quarto 19. Sentei-me em um sofá e acabei me distraindo mexendo no celular, e depois de um tempo ouvi passos vindos do corredor. Não dei muita importância, mas então lembrei de que deveriam estar todos na aula a esse horário.
Então ouvi vozes. Um menino e uma menina. Eles cochichavam e soltavam risadinhas. As vozes se aproximaram e eles entraram na sala onde eu estava. Pareceram surpresos ao me ver ali. Mas nada se comparava ao que eu sentia. O garoto era o mesmo que eu havia visto semanas atrás, no café. Loiro, com olhos castanhos. Mas a menina era diferente. Morena e exageradamente magra, mas ainda assim muito bonita. Acho que ele me reconheceu. Logo que me viu empalideceu, diferentemente dela, que parecia convencida a tornar-se minha amiga.
- Não sabia que tínhamos uma aluna nova. - Ela disse, simpaticamente.
- Ah... Olá.
- Com certeza não é daqui. Qual seu nome?
- Meu nome é Nicole.
- Nome legal, eu acho.
- Hollie, - ele interrompeu – vamos.
- O quê? Por quê? Ela parece legal. - Ela arqueou uma sobrancelha.
- Deixe a garota. Ela não está interessada em novas amizades, não é mesmo? 
- Ah... - Ele não passava de uma carinha bonita.
- Tudo bem. Nos falamos mais tarde. - Ela sorriu. - Vamos, Evan.
- Vamos. - Ele manteve os olhos fixos em mim enquanto ela fazia a volta para sair da sala.
- Ah, esperem!
- O que foi?
- Podem ficar com a sala. Eu já estava de saída.
Então levantei-me e segui para o quarto. Era o melhor a se fazer naquele momento, e eu ainda tinha o resto do dia para aproveitar.
***
Sophie chegou por volta das 16 horas. Jogamos alguns jogos e conversamos sobre música, e as 19 horas, seguimos para a cozinha da ala feminina, que ficava próxima a sala. Quanto mais tempo passava por lá, mais coisas descobria. A diretora Price não havia nos mostrado a sala ou a cozinha, onde poderíamos jantar e fazer refeições distintas, mas as outras garotas também me receberam bem e deram conselhos sobre como não ficar muito perto do fogão enquanto Hollie preparava comida. Ela era definitivamente um perigo, não só em suas atitudes.
Desde a primeira vez em que a vi, notei que não trazia consigo uma energia boa. Na verdade, bem pelo contrário. Era como se tudo ficasse frio toda a vez que eu a encontrava e seu olhar se fixava em mim. Devíamos ter esbarrado pelo menos três vezes em meu primeiro dia na Instituição. O quarto dela ficava na outra extremidade do longo corredor. Dificilmente eu andaria até lá, mas o quarto de Sarah era na frente. Quando fui visitá-la para ver como estava indo seu primeiro dia, encontrei a porta do quarto de Hollie aberto. Ela não estava, nem sua colega de quarto. Era um quarto bem organizado em estilo vintage. A decoração era de muito bom gosto. Consegui enxergar pouca coisa pela pequena fresta, e depois de uns dois minutos bati na porta do quarto de Sarah. Não gostaria que ficassem bisbilhotando as minhas coisas também, portanto não faria isso com outras pessoas a não ser em casos extremos.
Esperei por um tempo, e então bati na porta novamente. Ouvi a chave destravando a fechadura. Uma garota loira de olhos cinzentos um pouco mais alta que minha irmã abriu a porta.
- Hm, olá?
- Oi! Muito prazer, eu sou Nicole, irmã de Sarah. - Sorri e estiquei a mão para cumprimentá-la.
- Ah! Desculpe minha falta de educação. Meu nome é Nathaly. - Ela sorriu de volta. - Por favor, entre. Sarah foi buscar refrigerante, estávamos planejando assistir a um filme esta noite. - Nathaly apontou a uma pilha de dvd's em cima de cama.
- Parece legal. Eu mesma faria isso, mas ainda preciso terminar de organizar minhas coisas para amanhã.
- Poderia nos ajudar a escolher o filme? - Ela apontou um lugar ao seu lado, na cama, e puxou os dvd's para mais perto.
- Claro! - Achei graça de seu pedido. Peguei-os e fui analisando a capa e a sinopse. Já havia assistido a maioria. Parei em um sobre zumbis e adolescentes. Não era um filme baseado em fatos verídicos, mas era legal. E era fofo. Meninas gostam de coisas fofas. - Você já assistiu este aqui?
No mesmo momento, Sarah entrou no quarto carregando duas latadas de refrigerante e um balde de pipoca. Pareceu surpresa ao me ver ali, mas logo adquiriu uma expressão tranquila.
- Ei! O que está fazendo aqui? - Disse ela animadamente ao largar as coisas em cima do balcão. Logo em seguida, secou as mãos e juntou-se a nós.
- Acabo de decidir qual filme veremos. - Falou Nathaly, alcançando o filme para Sarah. - O que acha?
- Uma ótima ideia! Isso foi coisa da minha irmã, não é? Ela adora filmes assim.
- Certo, você me pegou. - Ri. - Vim lhe procurar para saber como estavam as coisas e Nathaly me pediu ajuda para escolher. Acho que você vai gostar.
- Eu ainda não vi. Na verdade, não vi nenhum filme desses aqui. São novos, trouxe para assistirmos durante as horas de folga. Se quiser algum emprestado, é só falar comigo.
- Obrigada! Sarah, sua amiga é muito gentil. - Pisquei para Nathaly, mas logo voltei-me para Sarah. - Então, está tudo bem?
- Sim! Tudo ótimo, já arrumei tudo para amanhã e pretendo me inscrever nas aulas de teatro. Já pensou em alguma coisa?
- Não, ainda não... Mas pretendo fazer tudo esta noite.
- Eles têm ballet. Quer dizer, não ballet clássico. Tem também, mas me refiro a dança em geral. Jazz. Seria uma boa se você tentasse.
Jazz? Como eu não havia visto isso antes? Alguns anos atrás, ainda antes do acidente com nossa mãe, eu dançava. Desde os cinco anos, na verdade. Enquanto todas as minhas colegas faziam ballet, eu dançava jazz. Mas precisei parar por causa de tudo o que aconteceu. Talvez com um pouco de prática, eu pudesse continuar de onde havia parado. Haviam tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo que eu sequer tirara um tempo para ver a lista de atividades que poderia fazer enquanto frequentava a instituição. Eu amava dançar, e ali estava a chance de fazer uma das coisas que eu mais gostava.
- É. Talvez eu tente. - Levantei-me da cama. - Bem, preciso ir agora. Vou deixá-las aproveitarem a noite.
- Pense bem, ok? Sinto saudades de vê-la dançar.
- Eu irei. Obrigada. - Abracei Sarah antes de sair, e então despedi-me de Nathaly. Elas pareciam se dar bem.

A porta do quarto de Hollie se encontrava fechada. Ignorando o fato, segui diretamente para meu quarto. Precisava ter uma conversinha com Sophie.